segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Eleições quentes em Recife, com judicialização da política e tudo



E as eleições municipais em Recife, que caminhavam num enorme marasmo e apontavam para uma vitória do candidato governista João da Costa (PT) ainda no primeiro turno, de repente pegaram fogo com mais um episódio de judicialização da política, que foi a cassação da candidatura do referido postulante por decisão judicial, fundamentada na suposta utilização da máquina pública do Município em benefício da candidatura petista.

A judicialização da política é um dos temas atualmente mais debatidos tanto no direito como na ciência política e significa basicamente o deslocamento das discussões e debates de âmbito tradicionalmente político-partidário-eleitoral e administrativo para os tribunais, sendo estes cada vez mais protagonistas nesses eventos em detrimento das instâncias políticas mais clássicas (parlamento, executivo e a própria sociedade civil organizada). Foi o que aconteceu aqui em Recife.

Paixões eleitorais e partidárias estão aguçadas. Os governistas acusam a oposição de tentar dar um golpe na candidatura favorita e atropelar a vontade do povo com artifícios jurídicos oriundos de um complô. Os oposicionistas, por sua vez, tentam demonstrar um caráter técnico e imparcial da decisão e alardeiam que o problema é da candidatura governista que se utilizou da máquina pública financiada com os tributos pagos pela população para proveito próprio e precisa pagar pelo crime eleitoral praticado.

Antes de tudo, esclareça-se que a decisão do juiz de primeira instância precisará de confirmação pelo Tribunal Regional Eleitoral de Pernambuco e por essa razão João da Costa continua concorrendo.

Por um lado, as acusações governistas de golpismo e conspiração contra a vontade popular me parecem bem exageradas. Ocorreram fatos passíveis de interpretação por parte de atores político-jurídicos como a Promotora de Justiça e o Juiz Eleitoral do caso e estes entenderam que o crime foi caracterizado e conseqüentemente caberia a punição. Tudo feito dentro do devido processo legal e passível de revisão pelo TRE que pode muito bem ter entendimento diverso e reformar a decisão do magistrado do primeiro grau. Não vejo com maus olhos isso, muito pelo contrário: é claro sinal de que as instituições estão funcionando de forma independente do poder estabelecido e tal fato é digno de louvor pelo seu caráter republicano e democrático.

Todavia, com todo o respeito à Promotora e ao Juiz do caso e considerando apenas o que está divulgado pela imprensa e pelas candidaturas governista e oposicionista, creio que o entendimento expresso mereceria reforma, na minha modesta visão. Os fatos apresentados são dois: I - uso dos e-mails (funcionais inclusive) por servidores municipais convocando pessoas a participarem de eventos de campanha, e II - cartilha do orçamento participativo com promoção da candidatura do petista que, à época, era Secretário do Município.

O uso de e-mails, mesmo funcionais, é algo incontrolável em qualquer repartição pública e é tarefa quase impossível evitar que servidores, em caráter pessoal, os utilizem. Eu mesmo já recebi e-mails funcionais de servidores públicos contendo, por exemplo, piadas, mensagens e até críticas ou elogios ao governo, e até os alertei (aos amigos, no caso) para tomarem cuidado com isso. Mas vislumbrar responsabilidade do candidato por tais condutas me parece um evidente exagero.

O segundo fato é um pouco mais complexo e exigiria uma investigação mais acurada acerca da cartilha em questão e até que ponto a mesma cumpre o art. 37, § 1º, da Constituição ("A publicidade dos atos, programas, obras, serviços e campanhas dos órgãos públicos deverá ter caráter educativo, informativo ou de orientação social, dela não podendo constar nomes, símbolos ou imagens que caracterizem promoção pessoal de autoridades ou servidores públicos").

Ainda assim, penso que o juiz eleitoral, em casos como esse, precisa levar em consideração algumas circusntâncias, antes de um ato tão grave como a cassação de uma candidatura e a declaração de inelegibilidade do candidato em decorrência do cometimento de um crime eleitoral: I - a responsabilidade pessoal do candidato em relação ao ocorrido; II - o impacto dos atos em questão quanto à provocação de um efetivo desequilíbrio eleitoral em virtude dos mesmos em favor da candidatura cassada.

Em meu entendimento, não me parece evidente que os atos em questão realmente façam relevante diferença no pleito atual no sentido de impactarem positivamente a favor do candidato João da Costa. O próprio direito penal (já que se trata no caso de crime eleitoral - direito penal eleitoral, portanto) utiliza com freqüência o princípio da insignificância/bagatela para afastar da punição estatal casos em que, embora o crime tenha sido cometido, o impacto sobre a integridade física ou o patrimônio tenha sido ínfimo ou insignificante. Nada obsta a que tal princípio seja aplicável também ao direito penal eleitoral.

Apesar de não ver evidências de qualquer tipo de conspiração contra o candidato, entendo que os fatos apresentados são insuficientes para uma condenação. Reconheço que se trata de questão de interpretação dos fatos (a interpretação do juiz, da promotora, a minha e a do TRE, que ainda não sabemos qual será, são igualmente respeitáveis), mas em um Estado democrático de direito, penso que devemos privilegiar o in dubio pro libertate (na dúvida, pela liberdade) e preferencialmente deixar a questão eleitoral ser decidida pelo povo nas urnas e não pelos tribunais.

A judicialização da política só deve ocorrer quando realmente necessária.

Esperemos, portanto, o julgamento pelo TRE (que só ocorrerá depois do pleito) e votemos com nossa consciência diante do que as candidaturas apresentaram em termos de propostas e de realizações (neste último caso em relação aos que já ocuparam cargos públicos).

Bom voto a todos.

Os Caça-fantasmas na Faculdade de Direito do Recife

O DA de Direito da FDR/UFPE iniciou recentemente uma campanha contra os professores que são faltosos contumazes.

Como divulguei anteriormente um post com texto de Luciano Oliveira que tratava da questão dos alunos faltosos que se aproveitam do ambiente de permissividade da Faculdade para não se dedicarem ao curso, alguns alunos têm me indagado sobre minha posição sobre o assunto. Para que não pairem dúvidas, vou fazê-lo aqui.

Apóio a referida campanha, como já disse ao próprio Rafael Bezerra, Presidente do DA, e acho que os alunos estão certíssimos em fazê-lo. Até por que não me enquadro na categoria de faltoso contumaz, pois raramente falto e quando o faço, ou foi algo previamente acertado com os alunos em virtude de compromissos (caso de viagens, palestras fora de Recife, defesas de tese e de dissertação etc.) ou casos de doença (felizmente raros). Ainda assim, todas essas aulas são devidamente repostas.

Há casos particulares de alguns docentes que, é claro, merecem especial consideração, mas há também muito descompromisso por parte de outros. Como disse Luciano Oliveira, o controle só é eficaz se for externo e este, feito pelos discentes, se não funcionar juridicamente, ao menos exporá os faltosos contumazes descompromissados a uma coação moral que em alguns casos pode ser bastante eficiente. O que não dá é para ficar de braços cruzados e é isso que o DA de Direito parece estar tentando evitar, no que merece os meus aplausos.

Creio estar devidamente esclarecida minha posição sobre a questão.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Essa é espetacular

Recebi por e-mail:
De George Best, ex-jogador do Manchester United: “Metade do que ganhei eu gastei com mulheres, bebidas e carros. A outra metade eu realmente desperdicei".

Antes tarde do que nunca: o enfrentamento com a verdade

O Juiz espanhol Baltasar Garzón mais uma vez está no centro das atenções. Para quem não lembra, é o mesmo magistrado do célebre caso do ditador chileno Augusto Pinochet.

A investigação da vez é sobre as vítimas da sangrenta guerra civil espanhola e do franquismo, ditadura de inspiração fascista que perdurou na Espanha de 1939 até a morte de seu fundador, o Gal. Francisco Franco, em 1975.

Associações ligadas à luta pela recuperação da memória histórica espanhola elaboraram um relatório qe contém os nomes de cerca de 130 mil pessoas desaparecidas durante o período. O Juiz Garzón também solicitou informações a 4 ministérios (Cultura, Justiça, Defesa e Interior), à Conferência Episcopal Espanhola, à Abadia do Vale dos Caídos (onde está enterrado o ditador Franco) e a 4 governos municipais (Córdoba, Sevilla, Granada e Madrid).

O processo em questão reabre o debate sobre os desaparecidos políticos, entre eles, alguns célebres, como o poeta Federico García Lorca, fuzilado pelos franquistas nos primeiros dias da guerra civil pelos "crimes" de subversão e homossexualidade. A exumação das valas comuns onde se encontram os restos mortais de Lorca e outros permitirão certamente o resgate da dura verdade do que foi a ditadura franquista na Espanha.

É bom lembrar que o processo de (re)democratização da Espanha foi parecido com o do Brasil, uma transição relativamente pacífica e sem derramamentos de sangue, mas que, ao mesmo tempo, levou a um forçado esquecimento em relação aos crimes cometidos no período.

Como já antecipei em outro post, penso que deva ser vista com muita cautela qualquer forma de punição criminal aos que cometeram tais delitos na Espanha ou no Brasil, para que não caracterizemos tais práticas como revanchismo ou "caça às bruxas", algo sempre complicado em termos de justiça transicional (aquela forma de fazer justiça em transições de períodos autoritários para novos tempos democráticos).

Contudo, sempre achei um completo absurdo, tanto lá, como cá, a ocultação da verdade, principalmente com o sigilo eterno dos arquivos oficiais sobre os períodos. Sou simpático ao que fez a África do Sul com as suas Comissões da Verdade: não puniu criminalmente os racistas dos tempos do apartheid, mas expôs os arquivos oficiais sobre as práticas do período, entendendo que o povo sul-africano possui o direito de saber a verdade. Se o torturador ou o criminoso não puder ser punido criminalmente, poderá sofrer a condenação moral por seu ato torpe. Os próprios cidadãos poderão fazer seus juízos de valor acerca de quem foi quem durante aquele regime. É direito inalienável da população de um país que passou por tais experiências.

Recentemente, uma família atingida por atos de tortura durante a ditadura militar brasileira ingressou em juízo em São Paulo com uma ação curiosa que não pedia a responsabilização civil ou criminal do comandante militar que teria praticado o referido crime nos ditos "anos de chumbo"; visa tal ação simplesmente a declaração judicial de que o militar em questão praticou o ato de torturar. Pura e simplesmente isso. O caso está em segunda instância, recebeu decisão contrária ao pleito dos autores, mas não foi unânime e ainda não houve o trânsito em julgado. Os autores já declararam que recorrerão da decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo.

Não posso afirmar que o referido membro das Forças Armadas brasileiras seja culpado ou não pelo ato em questão, pois não conheço o processo e é difícil falar sobre um caso concreto sem o acesso aos autos. Todavia, penso que esta deve ser a ênfase da luta em relação aos períodos de regime autoritário.

Punir os responsáveis é uma tarefa extremamente difícil, embora juridicamente viável, a meu ver. Contudo, a maioria deles ou está muito velha ou já morreu e um processo penal com a difícil questão da dilação probatória em relação a crimes cometidos há 30, 35 ou 40 anos atrás, seria provavelmente inócuo do ponto de vista de seus efeitos jurídicos.

Não obstante isso, a abertura dos arquivos sigilosos propiciaria a todos os cidadãos brasileiros o pleno conhecimento do que aconteceu durante a ditadura brasileira. Aqueles que praticaram atos criminosos seriam conhecidos e a população poderia fazer seus próprios juízos morais, a exemplo do que ocorreu na África do Sul.

Não nos pode ser negado o direito à verdade.

Para entender a crise norte-americana



Achei interessante e didática, além de bastante hilária, a explicação abaixo acerca da grave crise que assola os EUA e que, esperamos, não chegue a nós, algo complicado em tempos de profunda interdependência global dos mercados financeiros. Eis a estória, publicada em post do blog Acerto de Contas (www.acertodecontas.blog.br):

"O seu Biu tem um bar, na Vila Carrapato, e decide que vai vender cachaça “na caderneta” aos seus leais fregueses, todos bebuns e quase todos desempregados.

Porque decide vender a crédito, ele pode aumentar um pouquinho o preço da dose da branquinha (a diferença é o sobrepreço que os pinguços pagam pelo crédito e o aumento da margem para compensar o risco).

O gerente do banco do seu Biu, um ousado administrador formado em curso de emibiêi, decide que as cadernetas das dívidas do bar constituem, afinal, um ativo recebível, e começa a adiantar dinheiro ao estabelecimento tendo o pindura dos pinguços como garantia.

Uns zécutivos de bancos, mais adiante, lastreiam os tais recebíveis do banco, e os transformam em CDB, CDO, CCD, PQP, TDA, UTI, OVNI, SOS ou qualquer outro acrônimo financeiro que ninguém sabe exatamente o que quer dizer.

Esses adicionais instrumentos financeiros, alavancam o mercado de capítais e conduzem a operações estruturadas de derivativos, na BM&F, cujo lastro inicial todo mundo desconhece (as tais cadernetas do seu Biu ).

Esses derivativos estão sendo negociados como se fossem títulos sérios, com fortes garantias reais, nos mercados de 73 países.

Até que alguém descobre que os bêubo da Vila Carrapato não têm dinheiro para pagar as contas, e o Bar do seu Biu vai à falência. E toda a cadeia sifu."

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Morales e o golpismo latino-americano


A nossa instável América Latina passa por mais uma crise, agora na Bolívia. Muito sério o que lá vem acontecendo e devidamente oportuna foi a reunião da Unasul (União das Nações Sul-Americanas) para que os demais países latino-americanos possam intermediar soluções para o impasse atual.

A meu ver, foram acertadas as diretrizes da cúpula da Unasul: 1 - respaldo à legítima autoridade do Presidente Evo Morales; 2 - intransigente defesa da integridade territorial da Bolívia; 3 - diálogo construtivo entre os interlocutores do governo e da oposição com a finalidade de se chegar a denominadores comuns.

Em primeiro lugar, apesar de achar que Evo Morales tem sido profundamente inábil em termos políticos para conduzir reformas sociais importantes em seu país, cometendo, no meu entender, muitos equívocos e até ingenuidades imperdoáveis para um líder político de sua importância (notadamente quando leva a sério as bravatas chavistas), ele é o Presidente eleito da Bolívia, confirmado recentemente por referendo em que teve apoio de 67% da população daquele país.

Não se afigura razoável que um Presidente da República com tal respaldo seja forçosamente impedido de pousar em 3 aeroportos bolivianos por resistência belicista de oposicionistas. Estes criaram situações de confronto aberto com o governo, em flagrante ilegalidade, aludindo alguns de seus líderes até mesmo a um combate contra o comunismo e os índios (ao menos no dizer de um dos líderes da oposição, Jorge Chávez, para quem "se precisar, vai ter sangue. É preciso conter o comunismo e derrubar o governo deste índio infeliz"). Parece discurso dos tempos da guerra fria e ainda por cima racista.

Não bastasse isso, ainda deve ser lembrado o recentíssimo massacre de camponeses indígenas ligados ao MAS (Movimento ao Socialismo), partido de Morales. Foi isso e não outra razão que gerou a prisão do governador de Pando, Leopoldo Fernández, acusado de apoio ao ato perpetrado pelos oposicionistas.

A pressão política sem intervencionismo parece ter funcionado: o governo e os líderes da oposição chegaram a um pré-acordo em que o primeiro reconhece a autonomia das regiões revoltosas, assim como aceita reverter a parcela do imposto sobre o gás para as mesmas e os segundos prometem desocupar os prédios públicos e aceitar o pré-projeto de constituição do governo como base para os debates constituintes. Muitíssimo importante essa saída pelo acordo, espera-se que seja efetivamente levada adiante por ambos os lados.

Ps.: acho curioso o tratamento midiático majoritário no Brasil a respeito da oposição boliviana. Quando atos como interdição forçada de aeroportos, ocupação de prédios públicos, atentados com bombas e assassinatos são cometidos por forças políticas de esquerda (sem terra, índios, movimentos trabalhistas etc.), são baderneiros, perturbadores da ordem pública e até terroristas. Quando os mesmos atos são cometidos pelos opositores de governos de esquerda democraticamente eleitos, são chamados simplesmente de oposicionistas. Estranho, não?

Não que eu concorde com tais atos. Venham de quem vierem, não é a via mais adequada de luta política, a não ser em casos extremos. Todavia, temos que ser minimamente coerentes, o que vale para uns, deve valer para os outros.

Porém, parece que em termos ideológicos, os "nossos terroristas" são sempre melhores do que os "outros".

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Scorpions: eu fui de novo - show nota 10, organização nota 0

Como antecipara em um dos posts anteriores, fui ontem ao show do Scorpions no Chevrolet Hall, tal como fiz no ano passado. Passei bons e maus momentos, mas no final valeu a pena.

A ENTRADA, UM MARTÍRIO

É incrível como algumas coisas evoluem, outras involuem.

Em um show como este, é até certo ponto, normal haver uma multidão formando fila, mas o que se viu ontem em relação aos que foram ao Chevrolet Hall foi um tremendo desrespeito. Ora, pagou-se no mínimo R$ 60,00 por um ingresso (meia entrada), não que não valesse, mas merecíamos uma organização no mínimo mais profissional para um evento desse porte.

No ano passado, havia grande fila, mas os portões não demoraram a abrir e a mesma andou rápido não causando maiores aborrecimentos.

Este ano, não obstante ser um domingo e já não ser tão novidadeira a apresentação dos Scorpions em Recife, o público foi maior ainda. Contudo, os organizadores do evento, embora tivessem prometido abrir os portões às 19 h, só o fizeram às 20:45, o que causou um tumulto enorme na fila, fazendo, afinal, com que pessoas que estavam há 3 ou 4 horas esperando, perdessem a paciência e entrassem quase à força. Por sorte, todos estavam com o espírito de rock´n´roll pacífico, pois por pouco não vi acontecer uma confusão generalizada com brigas e conseqüências muito sérias.

Detalhe: não havia seguranças ou funcionários do Chevrolet Hall organizando a fila ou fornecendo informações, salvo à beira dos portões. A revista das pessoas na entrada, até pelo tumulto causado pelo injustificável atraso, foi superficial e descriteriosa: em mim, só olharam a cintura, de modo que se eu tivesse levado uma arma no bolso ou junto à meia, teria passado facilmente. Poderíamos ter tido sérios problemas de segurança, mas felizmente não aconteceu.

Se no ano passado parabenizei o Chevrolet Hall pelo evento, infelizmente em relação a ontem só tenho críticas. Péssima organização. Nota zero.

O SHOW - A COMPENSAÇÃO

Já esperava um grande show, os Scorpions são muito bons de palco, mas o que vi ontem mostra que mesmo o que é bom sempre pode ser melhorado. Mais uma vez, essas lendas vivas do rock não decepcionaram, muito pelo contrário.

Com uma proposta inovadora de misturar em um mesmo espetáculo as guitarras elétricas pesadas e o som acústico mais suave, a apreentação dos alemães foi impecável. Gravando um DVD em nossa capital pernambucana, eles alternaram as canções hard rock mais agitadas com as apreciadas baladas love metal. Prestigiaram os músicos brasileiros na parte acústica com o pianista, os percussionistas e as backing vocals, todos compatriotas. Como se não bastasse, subiu ao palco o guitarrista brasileiro Andreas Kisser, do Sepultura, para tocar Coast to Coast (instrumental) e uma série de outras canções. Klaus Meine, como sempre simpático e eletrizante, não obstante seus 60 anos de idade, falou frases básicas em português saudando o público, levantou a bandeira do Brasil e cantou com uma energia de um adolescente (a garganta do homem parece mais em forma que nunca). Rudolf Schenker e Mathias Jabs nas guitarras e Pawel Maciwoda no baixo, igualmente soberbos. E o norte-americano do grupo, o baterista James Kottak, um show à parte, inclusive com solo de bateria agitando a multidão.

Em relação às canções, destaque para a excelente The Zoo, Coast to Coast, Rhythm of Love, as sempre muito agitadas Big City Nights e Rock You Like a Hurricane. Entre as baladas, Always Somewhere e Still Loving You. Outros destaques: Dust in the Wind (não é deles, mas a versão acústica é perfeita), Wind of Change (nesta teve até triângulo nordestino na percussão) e Humanity, linda canção do novo CD de mesmo título. Durante a execução desta última, foi exibido no telão clip contra a devastação amazônica e do meio ambiente, temática da letra da mesma.

Duas horas e dez minutos de show e vinte e duas músicas magistralmente executadas (quem quiser conferir uma amostra, acesse: http://jc.uol.com.br/2008/09/08/not_179281.php). Compensou a espera e a desorganização que, diga-se de passagem, não é culpa da banda.

Uma coisa eu não entendi: no ano passado, o Chevrolet Hall estava bem menos cheio e o público divulgado foi em torno de 15 mil pessoas. Ontem, as dependências da casa de eventos estava completamene lotada, a dificuldade para circular e comprar cerveja e água era muito maior e o público divulgado foi de 10 mil. Estranho, muito estranho...

O que sei é que o público efetivo deste ano foi muito maior do que o do ano passado. Disso eu tenho certeza.

Agora é esperar o lançamento do DVD. Não vejo a hora de comprá-lo.

E como estava tatuado em Kottak: ROCK´N´ROLL FOREVER!

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Lula e a lei: por qué no te callas?


Mais uma enorme oportunidade perdida de ficar calado. Concordo em gênero, número e grau com o texto de meu colega e amigo Pierre Lucena, publicado no blog Acerto de Contas, o qual transcrevo aqui:

"FALTA DE BOM SENSO E DE EDUCAÇÃO - LULA PRECISA ENTENDER QUE NÃO ESTÁ ACIMA DA LEI

Lula pode estar fazendo um excelente Governo, pode estar com a popularidade em alta, pode muita coisa. Mas não pode tripudiar as leis e o bom-senso.

Esta semana o presidente resolveu fazer um papelão, ao dizer que na sala dele quem manda é ele, e que não precisa cumprir a legislação antitabagista.

Defendeu que os fumantes pudessem tragar tranquilamente em qualquer lugar, já que são viciados. Depois disse que a sala é dele, e lá ele fuma na hora que quiser.

A despeito de ser um grande presidente, só falou bobagens.

Primeiro, está defendendo que todo viciado faça o que quer em qualquer lugar. Imagine se todos os drogados resolvessem “tomar pico” nos bares, ou ainda se os tarados transassem no meio da rua.

E por fim, a sala não é dele, é um espaço público, onde funcionários trabalham, e não são obrigados a suportar a falta de educação do chefe.

Hoje as entidades antitabagistas estão em pé de guerra com o Presidente, com total razão. No mundo todo o incentivo ao fumo está sendo cercado, e declarações como essa de um presidente popular é um péssimo exemplo.

No mínimo deveria saber que não está acima da Lei."

Triste e tragicômica piada

Mais uma do Macaco Simão:

"E corre na internet uma pesquisa que a ONU fez com os países: “Por favor, diga honestamente qual é sua opinião sobre a escassez dos alimentos no resto do mundo”.

A Europa mandou dizer que não sabe o que é “escassez”.

A África mandou dizer que não sabe o que é “alimentos”.

Cuba disse que não sabe o que é “opinião”!

Os Estados Unidos não têm a menor idéia do que seja “o resto do mundo”.

A Argentina mandou dizer que não sabe o significado de “por favor”!

E o Brasil mandou dizer que não sabe o que é “honestamente”".

O roubo da história

Interessante entrevista com o antropólogo britânico Jack Goody. Vale a pena (publicada no Folha Mais do último domingo):

FM - O que o sr. quer dizer com "roubo da história"?

JG - Quero dizer que os europeus escreveram a história a partir de seu ponto de vista, que parte da vantagem e excepcionalidade do Ocidente e dá muito pouca atenção às realizações do resto, especialmente Ásia e Oriente Próximo.

FM - Como este livro se articula com seus trabalhos anteriores?

JG - Em vários trabalhos tentei mostrar como as sociedades letradas da Eurásia oriental e ocidental têm muito mais em comum do que a ciência social sugere. O Ocidente não foi "único", como se poderia pensar -não na maneira profunda como muitos estudiosos sugerem.

FM - As ciências sociais estão ainda dominadas pelo etnocentrismo, mesmo depois do boom dos estudos culturais e da antropologia pós-moderna?

JG - É verdade que a antropologia fez alguma coisa para modificar o etnocentrismo, mas ela se comprometeu com uma distinção entre sociedades tradicionais e modernas, a qual comete negligências e endossa uma visão ocidental e contemporânea da modernidade.

F - O sr. concorda com a interpretação de Claude Lévi-Strauss segundo a qual a história é um mito ocidental?

JG - Não penso que toda história seja um mito ocidental. Outras sociedades examinaram seu passado, mas isso foi amplamente negligenciado pelo Ocidente, especialmente em sua explicação da modernização e do capitalismo.

FM - A democracia não foi criada em Atenas, como se pensa?

JG - Não. Atenas pode ter desenvolvido uma forma particular de democracia com a votação por escrito, mas a democracia existia em Cartago, em algumas cidades da Mesopotâmia, na Índia, na China e em muitas sociedades "tribais".

FM - Por que Karl Marx e Max Weber têm teses erradas sobre as origens do capitalismo?

JG - Porque o capitalismo estava muito mais disseminado -mesmo o industrial, embora tenha se desenvolvido mais com o uso da energia a vapor na Inglaterra. Mas ele foi um prolongamento da produção de algodão e seda na Índia e na China. Esses autores negligenciaram a contribuição da Ásia quando se referem ao seu modo de produção [Marx] e à ausência de ética protestante [Weber].

FM - Por que o sr. também critica tão enfaticamente as obras de Norbert Elias e Fernand Braudel?

JG - Elias me parece atribuir a civilização à Europa e negligenciar o resto. Braudel é muito mais aceitável, mas põe ênfase excessiva na contribuição européia à modernidade, o que parece ser um equívoco, tendo-se em vista o que está acontecendo na China e na Índia.

FM - O sr. parece sugerir o abandono do conceito de capitalismo. Por quê?

JG - Penso que esse termo é usado para sobrevalorizar a diferença entre a Europa (que o inventou) e a Ásia (que não pôde). Isso parece ser um conceito do século 19 que deveria ser usado com mais cuidado.

FM - Medievalistas como Jacques le Goff tendem a distorcer o que foi a verdadeira Idade Média, quando combatem o estereótipo de "idade das trevas"?

JG - Só houve um Renascimento na Europa justamente porque esse continente havia se submetido a uma "idade das trevas", que rejeitava as realizações greco-romanas na pintura (exceto a religiosa), escultura, teatro, exceto com propósitos religiosos. A ciência também sofreu um retrocesso e nos atrasamos com relação à Ásia de muitas maneiras, como [Joseph] Needham mostrou.

FM - O sr. também afirma que o amor romântico esteve longe de ser uma invenção ocidental, como medievalistas apontam. Poder-se-ia então dizer que se trata de um sentimento universal, e não de uma construção histórica?

JG - A maioria das sociedades têm o amor romântico, embora algumas lhe dêem maior importância do que outras. Ele é especialmente desenvolvido em culturas letradas.

FM - Como essa nova visão da história que o sr. defende ajuda a pensar o significado e a tendência da atual globalização?

JG - A Ásia sempre foi parte da cena "global". A China foi a maior potência exportadora no século 18. Nós voltamos agora a uma posição anterior aos desenvolvimentos industriais do século 19. A atual "globalização" significou a disseminação global sobretudo da cultura americana, em termos de filmes e música, mas a Ásia também deixa sua marca nesse aspecto. A comunicação não se dá de uma forma única, mas a eletrônica certamente lhe deu escala mundial, em termos de mídia.

FM - Os Jogos Olímpicos de Pequim serão vistos no futuro como uma espécie de celebração da nova hegemonia mundial da China?

JG - Eles não celebram a nova hegemonia mundial da China, mas assinalam o fim do predomínio europeu, que sua própria visão teleológica [da história] considera começar na Antigüidade grega.