sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Cultura da crueldade

Apesar de gostar muito da Espanha (é, aliás, a terra de onde veio minha família), um de seus maiores símbolos, a tourada, é algo que eu detesto. Acho-a um prazer sádico de extrema crueldade, lembrando a "farra do boi" catarinense, proibida pelo Supremo Tribunal Federal em uma decisão que mereceu meus aplausos.

Uma coisa é matar animais por necessidade alimentar (sobrevivência), apesar de os vegetarianos ideológicos discordarem; outra, muito diferente, é matar e torturar animais por um doentio deleite.

Para quem ainda tem uma visão romântica da "tourada em Madrid", dê uma lida no texto do jornalista Aldo Pereira, publicado na Folha de SP, no último dia 24:

"Nas horas que precedem a tourada, auxiliares se ocupam de preparar o touro. Penduram-lhe no pescoço pesados sacos de areia, para fatigar os músculos que acionam as chifradas. Passam-lhe vaselina nos olhos para embotar-lhe a visão. Desde a véspera, ou até antes, não o alimentam. Na pouca água que lhe dão, misturam purgantes: perda de fluidos e sais na diarréia irão levá-lo mais cedo à exaustão.

A intenção é reduzir-lhe a capacidade de lutar, não a disposição, que buscam excitar ao confiná-lo em curral escuro e exíguo. Ali, golpeiam-lhe os rins e espicaçam os testículos com longas agulhas. Quando finalmente o deixam galopar para a falsa liberdade da arena, o touro primeiro estaca, aterrorizado, furioso, aturdido pelo sol que reverbera na areia.

Depois, ataca o primeiro inimigo a provocá-lo: o picador, toureiro montado e armado de lança, pernas protegidas por armaduras. Enquanto chifra o cavalo (precariamente protegido pela "calzona" de camurça) e o comprime contra o muro da arena, o touro expõe a nuca a pontaços da "puya", ponta piramidal da lança. Afiadas arestas da "puya" rasgam o couro e rompem tendões e ligamentos sem aprofundar os ferimentos.

Para prevenir importunos relinchos de terror, prévia operação sem anestesia terá extirpado as cordas vocais do cavalo. Se incapacitado por chifradas, ele será abatido. Mas, caso lhe sobre alguma força, passará por grosseira sutura dos ferimentos, sempre sem anestésico, para ser aproveitado na tourada seguinte. (Tipicamente, cada corrida sacrifica seis touros numa tarde.) Em média, cavalo de tourada sobrevive a três ou quatro espetáculos.

Depois do picador, toureiros subalternos virão atormentar o touro com as bandarilhas que lhe fincam no dorso enquanto o rodeiam e confundem. Corcovos para livrar-se desses dolorosos arpões coloridos meramente aumentam lacerações e o sangramento do touro, mas divertem e excitam o público.

Entra em cena o matador. Também ele terá passado por preparativos esmerados. Entre estes, oração contrita perante réplica da chorosa Virgem da Macarena, santa tutelar dos toureiros. Na arena, depois de elaborado balé de esquivas e rodopios da "muleta" (capa usada no ato final), o toureiro se posta diante do touro exausto e atordoado, arranca em curta corrida e crava-lhe a espada num dos lanhos abertos pela "puya".

A lâmina pode penetrar mais de meio metro, perfurar um pulmão e também alguma artéria grossa; hemorragia profusa fará o touro golfar sangue enquanto sufoca e tomba.

Tentará reerguer-se, mas outros toureiros acorrem para cravar-lhe entre vértebras da nuca repetidos golpes de "puntillas" (adagas), para destruir-lhe a medula espinhal e paralisá-lo. Exultação orgástica do público.

Acenos de lenços brancos sinalizam ao diretor da tourada que conceda ao toureiro a honra de decepar uma orelha do touro que, ainda consciente, bufa sangue e agoniza. Insistência do público rende as duas orelhas. Enquanto contorna a arena para exibir os troféus, o toureiro pisa cravos vermelhos, leques, mantilhas: oferendas simbólicas de mulheres excitadas pela virilidade do herói.

Matanças e torturas recreativas continuam vastamente distribuídas no mundo: boxe, rinhas de galo, rodeios, lutas de cães, caçadas e pescarias "esportivas" -difícil completar a lista. Mas, enquanto boxe e rinha conotam crueza cafona, vulgaridade e gangsterismo barato, tourada é sofisticação perversa, com pretensões de refinamento aristocrático, arte, romance -e interesses financeiros muito mais cobiçosos.

Esses atributos a projetam como epítome de todas as tradições que degradam por igual espectadores, promotores, patrocinadores e os governantes que prevaricam ao dever de proscrevê-las. Alguns, como a família real espanhola, até as prestigiam.

A maioria do povo espanhol não se compraz com touradas. Porém, para elevá-lo da indiferença à vergonha, turistas deveriam gastar noutros países os US$ 50 bilhões que todo ano deixam na Espanha. Boicotar também patrocinadores de touradas, como a Pepsi-Cola, e oportunistas como Giorgio Armani, que desenhou o "traje de luces" para o matador Ordóñez usar na "Corrida Goyesca" de setembro último.

Protestos e boicotes funcionam: forçaram a Mattel a tirar de linha bonecas Barbie fantasiadas de toureiro. Aliste-se. É simples: condene visitas à Espanha enquanto esse rito de crueldade macular de sangue seus esplêndidos tesouros culturais."

2 comentários:

Talden Farias disse...

É muito importante trazer essa temática das touradas à baila, especialmente quando o direito animal passa a ser objeto de maior interesse pela doutrina. Contudo, é necessário também chamar a atenção para abusos que ocorrem aqui mesmo no Brasil, como é o caso das vaquejadas, dos rodeios importados do Texas, das rinhas (evento que, infelizmente, fascina e envolve todas as classes sociais), dos animais de carga ou tração, do tráfico de animais e da terrível situação em que se encontram os centros de zoonoses em todo o país. O problema da defesa dos animais é complexo e grave. Inclusive, recentemente um julgado do Tribunal de Justiça de Pernambuco (salve engano, o relator era o Des. Joaquim de Castro) entendeu pela total legalidade das rinhas de galo e de cachorro, como se a Constituição não vedasse de forma expressa as práticas cruéis contra a fauna... Aliás, é de se perguntar por que o Poder Público se queda tão inerte diante de tantos e tão graves abusos?

Bruno Galindo disse...

É verdade, Talden, concordo integralmente com o que disse. Apesar da referência específica à tourada, suas observações são importantes para um debate ambiental mais próximo dos problemas brasileiros. Aqui em Recife participo (bem timidamente, admito) de um movimento de proteção a cães mal tratados e/ou abandonados e os casos de tortura e cruel sadismo para com esses pobres animais é terrível. As dificuldades de quem atua nesse campo são monstruosas, pois imagine que já é tão difícil defender direitos para seres humanos (basta ver as nossas delegacias, prisões e hospitais públicos), que dirá direitos para animais...
Contudo, todos os que de alguma forma discordam dessas violações têm o dever de fazer o que estiver ao próprio alcance para proteger esses indefesos seres. Humanos, animais, todos somos seres sencientes e merecemos um mínimo de respeito à essa condição.
Grande abraço