quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Obama: vitória eleitoral e política - significativo marco histórico


Como a esmagadora maioria das pessoas no Brasil e no mundo, assim como nos próprios EUA, pelo visto, torci fervorosamente por uma vitória de Barack Obama nas eleições presidenciais estadunidenses. Não que McCain fosse um péssimo candidato (na realidade, o vejo como muito melhor do que Bush, o que também não é lá grande coisa), mas eleger Obama, independentemente do sucesso ou fracasso que possa ter na implementação de suas políticas governamentais, é um relevante marco histórico sob todos os aspectos, do racial ao ideológico, passando obviamente pela questão econômica.

RACISMO

Embora se diga que Obama não é "tão negro assim", por ter estudado em Harvard e feito uma carreira política sem as mesmas dificuldades subjacentes à maioria dos negros norte-americanos, é preciso que se diga que o racismo nos EUA sempre foi muito mais explícito do que em um país miscigenado como o Brasil. Basta dizer que há apenas pouco mais de 40 anos os direitos civis e políticos eram reconhecidos em sua plenitude (ao menos formalmente) com a gradativa sedimentação das políticas públicas anti-segregação (até a década de 50 do século passado, a segregação racial era oficialmente aceita nos EUA, inclusive pela Suprema Corte). Mesmo o negro que tivesse melhores condições econômicas era (é?) ostensivamente discriminado.

Não é pouco, portanto, a ascensão de um negro à suprema chefatura do Estado, o que demonstra que a questão racial, mesmo não tendo sido totalmente superada, deixa de ser um fator determinante na escolha do Presidente da República (e não somente negro, mas filho de um imigrante africano-queniano muçulmano e com sobrenome Hussein, embora Obama tenha se convertido ao cristianismo de cariz protestante-evangélica).

IDEOLOGIA

A questão ideológica também é relevante, considerando que Obama é o Presidente eleito mais "liberal" (nos EUA, o termo "liberal" tem um significado próximo de esquerdista) dos últimos 30 anos. Com a militância advocatícia ligada à defesa dos direitos civis, passando por uma atuação igualmente "liberal" na maioria das questões no exercício do mandato de senador, assim como na ação partidária dentre os democratas, Obama ascende em um momento igualmente propício à aceitação dessas posturas políticas, principalmente pelo substancial desgaste das teses neoconservadoras do Governo Bush. Apesar do fato de que em 8 anos de mandatos há um desgaste natural de qualquer governante, George W. Bush conseguiu ser um dos piores presidentes da história dos EUA também em termos ideológicos, sendo mais reacionário e obscurantista que seus antecessores republicanos, a exemplo de Reagan e Bush pai. Desta vez, os EUA liberal venceram.

ECONOMIA

O neoliberalismo em suas linhas mestras parece ter sido derrotado na economia ante a opção eleitoral do povo norte-americano. Muitas das teses keynesianas são novamente debatidas e o Estado passa a não mais ser visto como o grande inimigo do mercado. O papel do Estado na correção das injustiças sociais é novamente encarado como essencial e isso esteve presente no discurso eleitoral de Obama. Não se diga que ele tentou ludibriar os eleitores, ao menos não nisso. Seu discurso quanto a isso foi claro: livre mercado sim, mas com regulamentação estatal e prevalência do interesse público.

A CAMPANHA

A campanha de Obama foi das mais brilhantemente conduzidas que já vi.

Sem negar a importância da questão racial, o discurso de Obama não foi, contudo, um discurso racialista: a idéia foi de conciliação e não de enfrentamento entre negros e brancos, o que atraiu boa parte da maioria branca para o lado dos democratas.

Sem negar a importância do que defende em termos ideológicos, mostrou-se aberto ao diálogo interno e externo, salientando que os EUA deve defender seus pontos de vista e interesses a partir da prevalência do soft power (ideologia, cultura, princípios democráticos, auxílio aos povos, imagem positiva no mundo) sobre o hard power (força e ação bélico-militar), embora não descarte a utilização dessa última, inclusive em relação à "guerra ao terror". Marcou posição contundente em defesa de mudanças políticas, se diferenciando de modo claro do atual Presidente Bush.

Sem negar a importância do livre mercado, seu discurso neokeynesiano teve um adendo a partir de um incrível "golpe de sorte" (parece aquela estória de futebol - "sorte de campeão") com a atual crise econômica das hipotecas nos EUA. A referida crise atingiu em cheio a parte mais sensível dos norte-americanos (o "bolso") e deu um incrível fôlego ao discurso obamista, ao passo que desnorteou completamente o candidato republicano.

McCAIN - DERROTA COM DIGNIDADE

Não se pode, contudo, negar que o candidato republicano perdeu de modo digno. Assim que foi confirmada a vitória de Obama, John McCain agradeceu aos militantes de seu partido o empenho, desejando boa sorte a novo Presidente e se prontificando a ajudá-lo no que for preciso no interesse dos EUA. Até quando os republicanos vaiaram o nome de Obama, McCain pediu silêncio à platéia, em uma elegância e dignidade poucas vezes vista em política.

É verdade que boa parte disso não passa de retórica política. Mas diga-se em favor de McCain que o mesmo procurou conduzir a campanha sem ataques pessoais, controlando os republicanos mais exaltados que queriam dizer em alto e bom som que Obama era terrorista e coisas do gênero. Assim como na campanha, o Senador McCain é considerado em sua atuação política um dos republicanos mais moderados (seria do setor mais "liberal" ou à esquerda do partido republicano), tanto que teve que fazer um esforço para parecer mais conservador e conquistar os votos da chamada "América profunda", desconfiada de que McCain era "too liberal for us". Em outras circunstâncias, seria um bom candidato, mas nas atuais, carregou o terrível legado dos anos Bush.

Enfim, nada como uma eleição após outra. Adeus, doutrina Bush.

Boa sorte, Barack Obama, ou melhor, Mr. President. Good luck!

Um comentário:

Anônimo disse...

Caro Bruno,
Concordo com você, principalmente no que diz respeito ao fator determinante no resultado das eleições: a economia (sem desmerecer brilhante campanha do Obama e sua história pessoal)

É fato, estamos a caminho do pior momento econômico do planeta desde 1929, digo a caminho porque os efeitos da crise financeira ainda não atingiram com toda força na economia real, a recessão ainda não mostrou sua profundidade, o que deve acontecer a partir do segundo semestre do ano que vem.

Diante desse quadro, o eleitor americano, seja o branco operário e com ensino médio, o negro bacharel e autônomo, a senhora aposentada que tem nos fundos de pensão o trabalho de uma vida inteira, o latino que busca melhoria de sua condição ocupando um subemprego ou nas ruas das grandes cidades, quer saber mesmo é de segurança no emprego, aumento dos lucros, investimento rentável e oportunidades de faturar - e nessa hora fala mais alto quem apresenta melhores condições de mudar o rumo dos acontecimentos, seja ele branco, preto, amarelo, azul, elefante cor de rosa, o escambal, digo mais, se existisse algum cara verde eu teria apostado nele, afinal, qual a cor do dólar?

Parabéns pelo Blog.