quarta-feira, 8 de outubro de 2008

A Vida dos Outros: crônica particular de um sistema doentio


Finalmente assisti o vencedor do último oscar de melhor filme estrangeiro, "A Vida dos Outros" (Das Leben der Anderen). Mais uma bela obra do cinema alemão contemporâneo abordando os "fantasmas" germânicos, neste caso, da antiga Alemanha Oriental, e mais precisamente seu sistema de vigilância e espionagem interna, executado pela STASI, a polícia secreta da República Democrática Alemã.

Já tratamos aqui da mesma quando escrevemos a série de artigos "Contra a intolerância e os fanatismos de qualquer espécie", mas não custa lembrar que, através da STASI, os alemães orientais criaram um dos mais doentios sistemas de vigilância dos próprios cidadãos em que até detalhes insignificantes de suas vidas privadas eram de conhecimento do Estado e potencialmente utilizáveis contra eles.

Pois bem. Com esse pano de fundo, o diretor Florian Henckel von Donnersmarck recria a história real da espionagem feita na vida do dramaturgo alemão Georg Dreyman, à época (1984) tido por queridinho do Partido Comunista da RDA pelo fato de suas peças exaltarem o regime alemão oriental. Apesar disso, Dreyman é visto como alguém provavelmente não tão "limpo" quanto parecia e em razão dessa hipotética possibilidade, o dramaturgo passa a ter sua vida completamente vigiada por Gerd Wiesler, um expert em descobrir "conspirações" e inimigos do Partido e do regime. O monitoramento completo da vida de Dreyman, do telefone grampeado às escutas ambientais captando até as conversas íntimas com a namorada, a STASI passa à condição de detentora de informações importantes para que seus agentes, notadamente os do alto escalão, como o chefe de espionagem Grubitz e o ministro Bruno Hempf, possam levar adiante cruéis chantagens, que não adiantarei para não estragar a surpresa dos que não assistiram.

A aparente ambigüidade do agente Wiesler que, em alguns momentos parece ter uma síndrome de Estocolmo ao contrário, termina por ser ao mesmo tempo a força e a fraqueza do filme: por um lado, permite um deslocamento do olhar a partir da vida de Wiesler (preponderante até a metade do filme) para a vida de Dreyman (do meio para o final - parece "vida dos outros" mesmo) sem perder a solução de continuidade quanto à narrativa. A ambigüidade parece não ser exclusiva de Wiesler, a se observarem as condutas do próprio Dreyman e de Christa Sieland, sua namorada. Por outro lado, o final do filme não explora tanto como deveria tais ambigüidades, deixando-as um pouco de lado e enfatizando aspectos mais maniqueístas (as pessoas "boas" e "más" do regime) e não como um sistema totalitário transforma a vida dessas pessoas, estimulando o denuncismo, a delação e a desconfiança doentia em relação aos seus próximos.

Na verdade, trata-se de um excelente filme com um final apenas bom. Ainda assim, infinitamente melhor do que a esmagadora maioria das produções hollywoodianas com tantos milhões de dólares a mais.

Não deixem de assistir, vale a pena.

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