quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Sarmiento e a educação: aos mestres com carinho


Professor: profissão árdua destinada a abnegados que abrem mão muitas vezes de si mesmos, de maior reconhecimento e melhor remuneração, para se dedicarem à formação técnica, ética e humanista de gerações de alunos.

Até aí, nada de novo. Aliás, é por isso que muitos dos nossos alunos, especialmente na minha área (direito), chegam a perguntar em quê trabalhamos, apesar de verem que somos professores.

"Professor, o sr. trabalha mesmo em quê?", já ouvi isso algumas vezes. "Sou Professor em regime de dedicação exclusiva, caro amigo", respondi. "Mas o sr. só dá aula?", perguntou espantado meu pupilo, na certa, esperando que eu dissesse que sou juiz, promotor ou advogado militante. "É", respondi, "afinal de contas, é melhor do que trabalhar!".

Bom, deixa para lá, para não ficarmos no lugar comum do que todo mundo já sabe.

Hoje, dia do Professor, ao invés de tecer loas a essa importantíssima figura em nossas vidas (para não parecer que estou homenageando a mim mesmo), prefiro homenagear-nos com um agradecimento a todos os que, direta ou indiretamente, fazem ou fizeram muito pela educação. Em especial, um Presidente argentino do século XIX que até hoje é, lá na terra de nuestros hermanos, um homem reverenciado pelo que fez pela educação nacional. Su nombre: Domingo Faustino Sarmiento.

Em 2004, quando estive em Buenos Aires, algo me impressionou: mesmo em grandes dificuldades econômicas e com a cidade mal cuidada, apesar de muitos belos monumentos(parecia uma Paris decadente), o portenho em geral é fissurado em leitura. Em todo lugar, há pessoas sentadas em bancos de praça lendo algum livro e o número de livrarias em Buenos Aires (apenas na cidade) é maior do que em todo o Estado de São Paulo (ao menos, era, na ocasião). O argentino, gostemos ou não, é muitíssimo mais educado do que nós, embora estejam momentaneamente mais pobres.

Pois bem. Nessa viagem descobri outra coisa: se, no exterior, o mais famoso Presidente da Argentina é, historicamente, Juan Perón, lá, tirando os mais exaltados e passionais, uma boa parte dos argentinos consideram Domingo Sarmiento de muito maior relevância positiva para o país.

Domingo Sarmiento nasceu em San Juan, no ano de 1811. Tornou-se um intelectual respeitado e um ativista político liberal, tendo que superar, dentre outras coisas, sua origem humilde e as dificuldades que teve para freqüentar a escola.

A literatura e a política sempre andaram de mãos dadas em sua trajetória de vida. Pela sua atuação política, terminou exilado no Chile durante os anos 40 do século XIX. A distância da pátria foi fecunda literariamente, pois em solo chileno, Sarmiento produziu dois de seus livros mais importantes: "Facundo o Civilización y Barbarie", de 1845, um estudo do caudilhismo e um verdadeiro libelo contra Rosas, ditador argentino de então, e "Recuerdos de Provincia", de 1850, uma obra autobiográfica.

Ao voltar à Argentina natal, participou do movimento que derrubou o ditador Rosas. Depois foi Governador de San Juan, Embaixador da Argentina nos EUA e, finalmente, Presidente da República, eleito em 1868. Em seu governo, foi duplicado o número de escolas públicas (construiu mais de 800 delas) e fundou mais de cem bibliotecas. Das viagens que fez aos EUA e à Europa, Sarmiento voltou com a idéia fixa, quase obsessiva, de que a educação pública teria um papel fundamental na construção de um grande país.

Sarmiento governou a Argentina de 1868 a 1874 e fez em 6 anos a maior obra educacional da História da América Latina em um mesmo governo. Morreu em Assunción, Paraguai, no ano de 1888, e até o fim da vida continuou escrevendo e atuando politicamente.

Atualmente, seu rosto está estampado na nota de 50 pesos e praticamente todas as cidades argentinas possuem algum logradouro que leva seu nome.

Mais do que merecido. Domingo Sarmiento, patrono-mor dos educadores latino-americanos.

Parabéns aos todos os colegas docentes.

2 comentários:

Anônimo disse...

Caro Bruno,

A propósito do dia do professor e das recentes discussões na página de opinião do Jornal do Commercio, qual a sua opinião sobre a questão da dedicação exclusiva? Acho que há um certo radicalismo nas posições em debate. De um lado, a crítica ao professor sem atividade prática, como se este não pudesse ensinar disciplinas como processo civil ou penal, o que é uma falácia desmentida por exemplos concretos; do outro, a idéia de que o professor em tempo parcial tende ao descompromisso. Não vejo porque não poderíamos combinar os dois sistemas, com professores em dedicação exclusiva e outros combinando a advocacia ou magistratura com o magistério, com a condição de que sejam professores profissionais e não por mero hobby, apresentando titulação adequada (doutorado) e produção. Apesar disso, me parece que, até pela legislação, a tendência atual é pela hegemonia da dedicação exclusiva. Que lhe parece?

um abraço,

Francisco

marcelo disse...

Caro amigo: me emocionei mais como ser humano que como argentino, sua palavras muito bem colocadas, dao uma ideia da figura que foi aliás que é Dom D.F. Sarmiento. Quando alguém me pergunta de onde sou, sempre respondi...sou argentino...mas nos ultimos tempos prefero dizer que naci no planeta terra num bairro chamado Argentina. Moro em Goiânia, ha quatro anos, futuramente vou ser docente, aliás já estou dando classes. Sarmiento e outros, mais os europeios,mais Paulo Freire e outros por aqui....sao os meus alicerces. Reformular o papel principal do ser humano é dificil hoje, mais sempre nas minhas aulas tento passar para os alunos, amigos e colegas, o que outros me ensinaram, me monstraram; farei isso sempre, aqui no Brasil, minha segunda casa, na Argentina ou no Sudao. Achei sue blog por acaso, vou olahr depois, com mais calma os conteúdos postados. Um abraco. A gente admira vossa cultura, assim como voceis a nossa. Obrigado por trazer a figura do Sarmiento para os leitores.