quarta-feira, 29 de outubro de 2008

O Criminoso Honesto


Interessantíssimo texto de Rodolfo Araújo, publicado no blog Acerto de Contas (http://www.acertodecontas.blog.br/). Resolvi transcrevê-lo:

"Costumo brincar com meus amigos economistas dizendo que eles passam a vida toda estudando algo que não existe, pois seus modelos contemplam um mundo ideal - muito distante daquele em que vivemos. Pois agora tenho ao meu lado a companhia do pseudo-dissidente Dan Ariely, autor do magnífico "Predictably Irrational: the hidden forces that shape our decisions" (Harper Collins, 2008).

O argumento central de Ariely é que nossas decisões nem sempre têm o grau de racionalidade que gostamos de acreditar. E vai mais além: as várias decisões erradas que tomamos ao longo de nossas vidas raramente servem de aprendizados e, assim, cometemos os mesmos erros repetidamente. Ou seja, nós não somente somos um tanto quando irracionais, mas previsivelmente irracionais.

O autor explora vários temas em diferentes situações para ilustrar (e comprovar) essa sua teoria e, certamente, muitos deles serão abordados aqui no futuro. Mas um, em especial, chamou muito a minha atenção, pois tratei dele recentemente no post A marca da maldade, onde discuti o que levava pessoas normais a cruzarem a fronteira entre o bem e o mal. Pois Ariely investiga o assunto com muita propriedade e apresenta, ao final, algumas sugestões bastante pertinentes.

Seu engenhoso experimento consistia em aplicar testes simples de matemática em voluntários (alunos do MIT, nesse caso). Eram vinte matrizes como a abaixo à direita, onde a pessoa precisava encontrar, em cinco minutos, os pares de números que somavam exatamente dez (nesse caso, 4,81 + 5,19). Para cada resposta correta encontrada ganhava-se uma simbólica recompensa em dinheiro - algo como US$ 0,10. A parte interessante do estudo vinha na hora de pagar pelos acertos e aí os alunos eram divididos em três grupos:

1. O aluno entregava sua folha de resposta diretamente ao examinador e, assim, não havia a possibilidade de fraude (esse era o grupo-controle);

2. O aluno copiava suas respostas para uma outra folha e ele mesmo a corrigia, mas depois entregava ambas as folhas; e

3. O aluno copiava suas respostas para uma outra folha e ele mesmo a corrigia, mas depois entregava apenas a folha corrigida, destruindo a outra.

Nas diversas variações desse estudo, mais de 2.000 alunos fizeram os testes. O grupo controle (1, o que não tinha como trapacear) apontou que a média de acertos era em torno de três. Partindo do princípio que não há motivos para acreditar que haveria diferenças entre os grupos, era de se supor que os outros grupos tivessem o mesmo índice de acertos. Pois os grupos 2 e 3 tiveram média perto de quatro.

Descobrir que o crème-de-la-crème dos estudantes americanos, que ocupa cerca de 20% dos cargos de diretoria das 500 maiores empresas listadas na Fortune* é capaz de trapacear nos deixa um pouco entristecidos, mas ajuda a explicar os recentes escândalos financeiros.

Outra observação interessante é notar que não houve diferença estatística entre os grupos 2 e 3, embora os participantes do grupo 2 podiam ser pegos roubando - o que não aconteceria com o grupo 3. Isso quer dizer que a possibilidade de ser descoberto não influi na trapaça.

Dirá também o leitor que os desonestos roubaram "apenas" uma questão, em média, enquanto que poderiam ter roubado 17. Roubar pouquinho serve de consolo? É permitido? Desculpável? Quanto é "pouquinho"? E 33% a mais é pouquinho?

Uma segunda variação do experimento dividia os grupos com possibilidade de trapacear em dois subgrupos, A e B, e pedia a A que relacionasse os dez últimos livros que havia lido; já ao grupo B era solicitado listar os Dez Mandamentos - ou tantos quanto lembrassem. Os resultados do grupo A mantiveram-se iguais, mas no grupo B os alunos não roubaram. A simples recordação† desses valores pétreos os impediu de roubar.

O terceiro subset da pesquisa foi o que trouxe os subsídios mais interessantes: em vez de receberem dinheiro pelas respotas certas, os alunos recebiam fichas (como as de pôquer) para serem imediatamente trocadas por dinheiro, noutra sala da Universidade, dez metros adiante. Foi aí que veio a grande surpresa: a média foi 9,4! Noutras palavras, esses chutaram o balde!

Para Ariely e sua equipe havia uma explicação lógica: por não se tratar diretamente de dinheiro, os alunos não se importavam tanto em trapacear. Ampliando um pouco mais o conceito, quanto mais longe do dinheiro vivo estiver a trapaça, maiores as chances de ela ocorrer de fato. Será que se a troca ocorresse no dia segiunte ou num local mais longe haveria mais trapaça?

As implicações disso são bastante perturbadoras e estão à nossa volta - muito mais do que gostaríamos. Senão vejamos:

Vários de meus amigos têm carteiras de estudante falsificadas para pagar meia entrada no cinema, teatro e shows. No cinema, por exemplo, ele "economiza" algo como R$ 10,00. Se não tivessem a carteira falsa e ninguém tivesse olhando, eles seriam capazes de tirar R$ 10,00 do caixa da bilheteria? Improvável, né? (E espero que meus amigos leiam esse texto e parem de cometer esse crime - até porque eu sou um dos que paga a conta).

Suponha que você encontre a Madonna na rua e uma nota de um dólar esteja saindo do bolso da calça dela. Você iria furtá-la? É o que faz quando baixa Hung up na Internet. Você tiraria R$ 5,00 do caixa da padaria? É o que faz quando percebe que não lhe cobraram o presunto e não diz nada. Você pegaria R$ 10,00 no caixa da sua empresa? É o que faz quando leva um grampeador para casa. O autor pergunta, por exemplo, se os diretores da Enron teriam coragem de roubar bolsas de senhoras nas ruas. O "não" parece óbvio, mas eles de fato roubaram milhares de bolsas de senhoras que perderam suas aposentadorias com as fraudes por eles perpetradas.

É incrível o quanto nossa consciência é condescendente quando esses atos parecem distantes do dinheiro propriamente dito. Ou o quanto nós nos enganamos para justificar nossos pequenos crimes. Mesmo pessoas boas e honestas são tentadas a esticar as fronteiras de seus valores morais, na perseguição de benefícios financeiros. E algumas motivações parecem nos pregar peças pois em determinadas situações nem nos damos conta disso.

A sugestão de Ariely? Quando você ou alguém próximo estiver numa situação dessas, tente visualizar o dinheiro que está trocando de mãos. Pense de onde esse dinheiro está saindo. E pense na sua mão pegando-o.

__________________

*Segundo estatísticas do próprio MIT, que agora fica sub judice…

†Essa técnica de pesquisa social chama-se priming."

Um comentário:

++ Rodolfo Araújo ++ disse...

Oi, Bruno, obrigado pelas generosas palavras introdutórias.

Abraço,
Rodolfo.