sábado, 4 de outubro de 2008

A cegueira e a crítica



Anteontem, assisti o novo filme do Fernando Meirelles, adaptação do romance de José Saramago intitulado "Ensaio sobre a Cegueira".

Ao contrário dos críticos em geral, gostei bastante do filme. Talvez pelo fato de não ter lido o livro, pois os que o leram parecem ser os críticos mais mordazes. Acontece que é sempre difícil fazer adaptações de obras literárias para o cinema e os resultados são sempre uma incógnita, já que as linguagens cinematográfica e literária são substancialmente distintas.

Contudo, acho muito boas iniciativas como essa de Meirelles de aproveitar os recursos da indústria do cinema para produzir obras de arte, ainda que não plenamente bem sucedidas. Por si só, já acredito ser profundamente meritória a ousadia de um cineasta com a sincera tentativa de fazê-lo.

Quanto ao filme, achei-o excelente. A montagem das cenas foi muito bem feita, o uso das luzes na medida certa, o contraste claros-escuros dando conta da atmosfera dos acontecimentos, isso foi um dos pontos altos do filme. A interpretação dos autores também foi magnífica, com destaque para a excelente Juliane Moore, e a direção impecável (dirigir aquela quantidade de atores fazendo papel de cegos deve ser tarefa para lá de hercúlea). Diferentemente dos críticos, não senti tanta necessidade de um narrador, e creio que até nisso Meirelles acertou: o filme flui muito melhor sem as interrupções e intermediações narrativas (elas realmente são escassas no filme), é perfeitamente inteligível sem elas. Como diria Hitchcock, as narrativas em um filme devem ser limitadas ao estritamente necessário, cinema é imagem antes de tudo.

Em relação à estória, também não poderia ser melhor a escolhida. Não li o livro em questão, mas já li dois outros romances de Saramago - "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" e "As Intermitências da Morte" - e, gostei especialmente do último. Ambos são geniais, apesar do estilo literário do escritor português com aqueles parágrafos longos e ininterruptos não me agradar muito.

Assim como nas "intermitências", no "Ensaio sobre a Cegueira", as asas da imaginação de Saramago vão longe e retratam a possibilidade de uma epidemia de cegueira física e as situações daí provenientes. Na situação limite do medo de se "pegar" a cegueira, os atingidos pela epidemia são confinados em verdadeiros campos de concentração, com a diferença de que a ordem interna neles é completa dissociada da ordem externa e o pior dos seres humanos, inclusive em termos de tirania e de ocupação de poder e de espaço político, é visto na ocasião, quando os membros de uma das alas começam a usar a força para impor suas vontades mais bestiais (em forma de extorsão e de abusos sexuais) em troca de comida.

Uma única pessoa (a personagem de Moore) não é atingida pela epidemia e passa a encarar uma realidade tão difícil que é de se perguntar sobre se naquele contexto seria melhor mesmo enxergar. A responsabilidade pela coletividade que recai sobre seus ombros é imensa, quase exaustiva, pois a possibilidade de enxergar fisicamente lhe dá também o dom de ver a situação em que todos se encontram e, diante disso, tentar enxergar também as possíveis soluções.

Certamente o livro deve ser melhor, mas acho louvável e extremamente importante o cinema produzir obras desse tipo.

Assim como em "Cidade de Deus" e "O Jardineiro Fiel", Meirelles acertou na mosca. Sou cada vez mais fã desse grande diretor brasileiro.

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