sexta-feira, 5 de setembro de 2008

O roubo da história

Interessante entrevista com o antropólogo britânico Jack Goody. Vale a pena (publicada no Folha Mais do último domingo):

FM - O que o sr. quer dizer com "roubo da história"?

JG - Quero dizer que os europeus escreveram a história a partir de seu ponto de vista, que parte da vantagem e excepcionalidade do Ocidente e dá muito pouca atenção às realizações do resto, especialmente Ásia e Oriente Próximo.

FM - Como este livro se articula com seus trabalhos anteriores?

JG - Em vários trabalhos tentei mostrar como as sociedades letradas da Eurásia oriental e ocidental têm muito mais em comum do que a ciência social sugere. O Ocidente não foi "único", como se poderia pensar -não na maneira profunda como muitos estudiosos sugerem.

FM - As ciências sociais estão ainda dominadas pelo etnocentrismo, mesmo depois do boom dos estudos culturais e da antropologia pós-moderna?

JG - É verdade que a antropologia fez alguma coisa para modificar o etnocentrismo, mas ela se comprometeu com uma distinção entre sociedades tradicionais e modernas, a qual comete negligências e endossa uma visão ocidental e contemporânea da modernidade.

F - O sr. concorda com a interpretação de Claude Lévi-Strauss segundo a qual a história é um mito ocidental?

JG - Não penso que toda história seja um mito ocidental. Outras sociedades examinaram seu passado, mas isso foi amplamente negligenciado pelo Ocidente, especialmente em sua explicação da modernização e do capitalismo.

FM - A democracia não foi criada em Atenas, como se pensa?

JG - Não. Atenas pode ter desenvolvido uma forma particular de democracia com a votação por escrito, mas a democracia existia em Cartago, em algumas cidades da Mesopotâmia, na Índia, na China e em muitas sociedades "tribais".

FM - Por que Karl Marx e Max Weber têm teses erradas sobre as origens do capitalismo?

JG - Porque o capitalismo estava muito mais disseminado -mesmo o industrial, embora tenha se desenvolvido mais com o uso da energia a vapor na Inglaterra. Mas ele foi um prolongamento da produção de algodão e seda na Índia e na China. Esses autores negligenciaram a contribuição da Ásia quando se referem ao seu modo de produção [Marx] e à ausência de ética protestante [Weber].

FM - Por que o sr. também critica tão enfaticamente as obras de Norbert Elias e Fernand Braudel?

JG - Elias me parece atribuir a civilização à Europa e negligenciar o resto. Braudel é muito mais aceitável, mas põe ênfase excessiva na contribuição européia à modernidade, o que parece ser um equívoco, tendo-se em vista o que está acontecendo na China e na Índia.

FM - O sr. parece sugerir o abandono do conceito de capitalismo. Por quê?

JG - Penso que esse termo é usado para sobrevalorizar a diferença entre a Europa (que o inventou) e a Ásia (que não pôde). Isso parece ser um conceito do século 19 que deveria ser usado com mais cuidado.

FM - Medievalistas como Jacques le Goff tendem a distorcer o que foi a verdadeira Idade Média, quando combatem o estereótipo de "idade das trevas"?

JG - Só houve um Renascimento na Europa justamente porque esse continente havia se submetido a uma "idade das trevas", que rejeitava as realizações greco-romanas na pintura (exceto a religiosa), escultura, teatro, exceto com propósitos religiosos. A ciência também sofreu um retrocesso e nos atrasamos com relação à Ásia de muitas maneiras, como [Joseph] Needham mostrou.

FM - O sr. também afirma que o amor romântico esteve longe de ser uma invenção ocidental, como medievalistas apontam. Poder-se-ia então dizer que se trata de um sentimento universal, e não de uma construção histórica?

JG - A maioria das sociedades têm o amor romântico, embora algumas lhe dêem maior importância do que outras. Ele é especialmente desenvolvido em culturas letradas.

FM - Como essa nova visão da história que o sr. defende ajuda a pensar o significado e a tendência da atual globalização?

JG - A Ásia sempre foi parte da cena "global". A China foi a maior potência exportadora no século 18. Nós voltamos agora a uma posição anterior aos desenvolvimentos industriais do século 19. A atual "globalização" significou a disseminação global sobretudo da cultura americana, em termos de filmes e música, mas a Ásia também deixa sua marca nesse aspecto. A comunicação não se dá de uma forma única, mas a eletrônica certamente lhe deu escala mundial, em termos de mídia.

FM - Os Jogos Olímpicos de Pequim serão vistos no futuro como uma espécie de celebração da nova hegemonia mundial da China?

JG - Eles não celebram a nova hegemonia mundial da China, mas assinalam o fim do predomínio europeu, que sua própria visão teleológica [da história] considera começar na Antigüidade grega.

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