quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Morales e o golpismo latino-americano


A nossa instável América Latina passa por mais uma crise, agora na Bolívia. Muito sério o que lá vem acontecendo e devidamente oportuna foi a reunião da Unasul (União das Nações Sul-Americanas) para que os demais países latino-americanos possam intermediar soluções para o impasse atual.

A meu ver, foram acertadas as diretrizes da cúpula da Unasul: 1 - respaldo à legítima autoridade do Presidente Evo Morales; 2 - intransigente defesa da integridade territorial da Bolívia; 3 - diálogo construtivo entre os interlocutores do governo e da oposição com a finalidade de se chegar a denominadores comuns.

Em primeiro lugar, apesar de achar que Evo Morales tem sido profundamente inábil em termos políticos para conduzir reformas sociais importantes em seu país, cometendo, no meu entender, muitos equívocos e até ingenuidades imperdoáveis para um líder político de sua importância (notadamente quando leva a sério as bravatas chavistas), ele é o Presidente eleito da Bolívia, confirmado recentemente por referendo em que teve apoio de 67% da população daquele país.

Não se afigura razoável que um Presidente da República com tal respaldo seja forçosamente impedido de pousar em 3 aeroportos bolivianos por resistência belicista de oposicionistas. Estes criaram situações de confronto aberto com o governo, em flagrante ilegalidade, aludindo alguns de seus líderes até mesmo a um combate contra o comunismo e os índios (ao menos no dizer de um dos líderes da oposição, Jorge Chávez, para quem "se precisar, vai ter sangue. É preciso conter o comunismo e derrubar o governo deste índio infeliz"). Parece discurso dos tempos da guerra fria e ainda por cima racista.

Não bastasse isso, ainda deve ser lembrado o recentíssimo massacre de camponeses indígenas ligados ao MAS (Movimento ao Socialismo), partido de Morales. Foi isso e não outra razão que gerou a prisão do governador de Pando, Leopoldo Fernández, acusado de apoio ao ato perpetrado pelos oposicionistas.

A pressão política sem intervencionismo parece ter funcionado: o governo e os líderes da oposição chegaram a um pré-acordo em que o primeiro reconhece a autonomia das regiões revoltosas, assim como aceita reverter a parcela do imposto sobre o gás para as mesmas e os segundos prometem desocupar os prédios públicos e aceitar o pré-projeto de constituição do governo como base para os debates constituintes. Muitíssimo importante essa saída pelo acordo, espera-se que seja efetivamente levada adiante por ambos os lados.

Ps.: acho curioso o tratamento midiático majoritário no Brasil a respeito da oposição boliviana. Quando atos como interdição forçada de aeroportos, ocupação de prédios públicos, atentados com bombas e assassinatos são cometidos por forças políticas de esquerda (sem terra, índios, movimentos trabalhistas etc.), são baderneiros, perturbadores da ordem pública e até terroristas. Quando os mesmos atos são cometidos pelos opositores de governos de esquerda democraticamente eleitos, são chamados simplesmente de oposicionistas. Estranho, não?

Não que eu concorde com tais atos. Venham de quem vierem, não é a via mais adequada de luta política, a não ser em casos extremos. Todavia, temos que ser minimamente coerentes, o que vale para uns, deve valer para os outros.

Porém, parece que em termos ideológicos, os "nossos terroristas" são sempre melhores do que os "outros".

Um comentário:

Fernando disse...

Grande Bruno

Sempre tive essa mesma impressão de que quando se trata de movimentos sociais os adjetivos são sempre pejorativo. Já quando são praticados por membros da direita não são tão incisivos ou pejorativos. Grande abraço!

OBS: Desisti de esperar painho. Esse mês de Outubro vou fazer uma visita a você e a Heitor, senão ele completa um ano e eu não o vejo. Ligo antes de ir.