domingo, 8 de junho de 2008

Stanley Kubrick VI: Glória Feita de Sangue


E por falar em pantomima judicial nesse caso do STJD em relação ao Estádio do Náutico, nada melhor do que assistir esse grande filme do genial Stanley Kubrick intitulado Paths of Glory, e que recebeu a tradução de "Glória Feita de Sangue".

O filme é de 1957 quando o então jovem Kubrick procurava um projeto mais audacioso como diretor. Diante da recusa de muitos a produzir algo pouco comercial, o diretor novaiorquino terminou por convencer o ator Kirk Douglas que, não somente gostou, como o bancou politicamente e fez questão de fazer o Coronel Dax, protagonista do longa. Pela influência do ator, Kubrick conseguiu emplacar o projeto, pois o jovem diretor, então com 28 anos, ainda era um "ilustre desconhecido" no cinema norte-americano.

"Glória Feita de Sangue" é inspirado em um fato realmente ocorrido na Primeira Guerra Mundial quando um general francês ordenou que a artilharia atirasse contra suas próprias tropas por estas não conseguirem avançar mais em um ataque nitidamente suicida contra as tropas alemãs. No filme, com a completa impossibilidade do ataque, a conduta da tropa de não avançar é considerada covardia ante o inimigo e deve ser punida com a pena capital. Afinal, o referido general precisa encontrar bodes expiatórios para o seu fracasso estratégico. E os soldados, parte mais fraca, pagam o pato.

O que se segue, então, é pura pantomima judicial. Sendo inviável condenar e fuzilar toda a tropa, três soldados da mesma são escolhidos aleatoriamente, um deles, aliás, por sorteio mesmo. A corte marcial convocada é um simulacro tão grande que o julgamento sequer é estenografado. As provas não são apresentadas, as colocações do promotor militar são aceitas quase como uma verdade absoluta e, contraditório, ampla defesa e qualquer outra coisa que viesse a pôr em dúvida a culpabilidade dos réus "por amostragem" era sumariamente recusada. O Coronel Dax, interpretado por Douglas, por sua formação de advogado, assume a defesa dos soldados e tenta de todos os modos reverter a situação, demonstrando a bravura pretérita dos mesmos soldados e a completa impossibilidade de vitória na ocasião. Em vão. O veredito já está estabelecido antes mesmo da sessão.

Não cairia na ingenuidade de achar que uma corte marcial seguiria os mesmos passos de uma corte comum, visto que há uma guerra em curso, mas o que se vê no filme é realmente assustador. A corte marcial parece existir apenas para legitimar juridicamente a condenação já pré-estabelecida.

Há outros desdobramentos interessantes no filme, mas não vou antecipar, pois para os que ainda não assistiram, surpresas curiosas à vista.

Sem dúvida, é um libelo anti-guerra, mas com a marca de Stanley Kubrick, sem happy end ou romantismos. Duro e cruel como a própria guerra, "Glória Feita de Sangue" foi proibido durante mais de 20 anos na França por ser considerado um ataque às instituições militares francesas. Na verdade, é um ataque à insanidade militarista como um todo e ele o prova 30 anos depois quando faz "Nascido para Matar", ambientado no Vietnã. Porém, este outro filme espetacular merece um post próprio de comentários.

Uma curiosidade: o jovem Kubrick chegou a pensar em um final feliz para o filme para agradar as platéias norte-americanas, mas achou a temática muito pesada para tal. Com isso, o filme não foi um sucesso estrondoso de bilheteria. Todavia, entrou para a história do cinema como um dos mais belos capítulos da sétima arte. Ainda bem.

Espetacular como todos os filmes de Kubrick. Um grande filme e obrigatório para estudiosos do direito e da guerra.

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