quinta-feira, 5 de junho de 2008

O triunfo da malandragem: tragédia e farsa nos Aflitos e a pantomima do STJD

Texto de Túlio Velho Barreto (cientista político) e Antônio de Pádua Barros (fotógrafo profissional) que estavam nos Aflitos no último domingo:

"“Então, ficamos assim entendidos: daqui pra frente, quando a coisa estiver preta [sic] pro nosso lado, chutamos o pau da barraca, tal como fez, com absoluto sucesso, o time do Grêmio, no campo dos Aflitos. Foram 20 minutos de velhacaria […]. Será que o futebol merece a tarde deprimente que machucou, irremediavelmente, o jogo Náutico x Grêmio? Francamente, em 50 anos de estrada, não me lembro de ter visto pantomima igual àquela. Houve cenas da mais pura tragicomédia […]”.

Não, as palavras acima não foram escritas por nenhum jornalista nem torcedor pernambucano a propósito do comportamento deplorável - porque absolutamente antidesportivo - do Grêmio no jogo tido e chamado, equivocadamente, aqui e alhures, como a Batalha dos Aflitos, quando devia ser a Vergonha dos Aflitos. Jogo que não devia ter terminado, pois jogadores que chutaram um atrapalhado e medroso juiz, como Anderson, ou que subiram na grade de proteção do estádio e incitaram a torcida para que invadisse o campo, o que ocorreu, como Marcel, não foram expulsos. Pelo contrário. Viraram exemplos de heroísmo.

Na verdade, o texto de abertura deste artigo foi escrito pelo insuspeito jornalista Armando Nogueira. E, diante do que aconteceu no jogo Náutico x Botafogo, parece que o que era ironia foi levado a sério por dirigentes e jogadores do clube carioca no dia 1º de junho, no estádio do Náutico, localizados no bairro dos Aflitos, no Recife. E foram, ali, colocadas em prática.

“Um minuto de brio e 20 de catimba” foi publicado no jornal carioca Lance! logo após o jogo Náutico x Grêmio. Nele, Armando Nogueira implora para que a história, que ele narra como tragicômica para o futebol - e não para o Náutico -, seja respeitada e faz um apelo para uma multidão de surdos: “Pelo amor dos deuses do futebol, não vamos deixar de deplorar, com veemência, o comportamento do time do Grêmio, do time e também da diretoria do clube, porque, no auge da zorra, o próprio presidente invadiu o campo e, pelo visto, não terá sido para aplacar o incêndio. Pelo contrário. Suspeita-se até que o fogoso cartola tivesse ido levar ao time o plano maquiavélico de continuar tumultuando as coisas […]. No quesito quizumba, o time do Grêmio passou dos limites”. Limites que foram, agora, alcançados - ou ultrapassados - por André Luís e Bebeto de Freitas. Pelo visto, a tragédia ou tragicomédia, como quer Armando Nogueira, virou farsa.

Pois é, como escreveu o pensador alemão Karl Marx, nascido há exatos 190 anos, a propósito da dominação dos Bonaparte na França - do tio Napoleão e do sobrinho Luís -, o que ocorreu no dia 1º de junho deste ano está mesmo mais para farsa que para tragédia. Embora contenha uma boa dose desta última.

Assim como os meios de comunicação, sobretudo do Sul e Sudeste, mas não só estes, enxergaram heroísmo na atitude antidesportiva do Grêmio, a cada nova edição jornalística dos acontecimentos de 1º de junho, o Náutico se transforma em seu principal responsável e alvo maior das punições que virão por aí. E mais: mesmo aqui, em Pernambuco, alguns têm associado equivocadamente o comportamento da Polícia Militar nos dois momentos, para mostrar que tais fatos são recorrentes em nossos estádios. O que contraria o editor especial do jornal Zero Hora, de Porto Alegre, Luiz Zini Pires, que reconhece, em seu livro a respeito de Náutico x Grêmio, 71 segundos - O jogo de uma vida, que “a partida estava fora de controle, o medo de uma invasão em massa aumentava e apenas a PM mantinha a ordem”.

Agora, quem estava no estádio no dia 1º de junho viu - e as câmeras registraram - um jogador completamente desequilibrado levar o segundo cartão amarelo e ser expulso, até tardiamente pelo que já tinha feito em campo; em seguida, chutar uma garrafa plástica em direção aos torcedores do Náutico nas sociais do clube, atingindo um deles, para os quais fez gestos obscenos; sentar-se irregularmente no banco de reservas e, ao dirigir-se aos vestiários, receber ordem de prisão por arruaça em espaço público e tentativa de agressão aos espectadores do jogo; finalmente, resistir às ordens da PM em explícito ato de desacato à autoridade. Não é demais repetir: está tudo gravado, assim como estão os 25′ da arruaça provocada por gremistas em 2005, no mesmo estádio dos Aflitos.

Enfim, para o bem ou para o mal, o que se seguiu foi de inteira responsabilidade do jogador e do presidente do Botafogo, da PM, e da Federação Pernambucana de Futebol. Diferentemente dos descontrolados botafoguenses - jogadores e presidente, este, assim como o presidente do Grêmio, tentou até retirar seu time de campo -, a torcida, os jogadores e dirigentes do Náutico tiveram condutas elogiadas pelo árbitro principal do jogo em sua súmula. Talvez por isso, e apenas por isso, a Justiça Esportiva já tenha anunciado que também vai puni-lo. Mas, como escreveu o igualmente insuspeito jornalista Juca Kfoury em seu blog, contestando a histeria de seus colegas do eixo Rio-SP: “O Náutico não é culpado por confusão em Recife”.

Apoiado por parcela significativa da mídia dos dois estados, que costuma chamá-lo de “chorão”, e por algumas “figurinhas carimbadas”, que sequer viram as imagens do jogo, como Abel Braga e Vanderlei Luxemburgo, pois falaram a respeito após os seus jogos ainda nos vestiários, Bebeto de Freitas parece desejar o papel de farsante da vez. Mas a vaga de sobrinho de Napoleão tem outros candidatos, em especial quem pretende ser denunciante e juiz, e, antes mesmo de conhecer a súmula, havia proferido a sentença: “Imediata interdição do estádio!”.

Que a farsa não vire fato como a tragicomédia virou heroísmo, pois se a moda pega não haverá mais futebol no Brasil. Só pantomima."

Infelizmente, virou pantomima, prezados Túlio e Antônio. O Presidente do STJD, Rubens Approbato, resolveu acolher o surreal pedido de interdição do Estádio dos Aflitos feito pelo Procurador Paulo Schmitt. Confiram a notícia no http://justicadesportiva.uol.com.br/noticias.asp?id=3942.

Lamento profundamente esse desdobramento do caso, como jurista e apreciador do futebol, além, é claro, de pernambucano e alvirrubro. A decisão do Sr. Approbato é esdrúxula e sem qualquer consistência jurídica, cedendo às pressões políticas dos clubes sudestinos. Resta tentar reverter na quarta dia 11 no pleno do STJD, mas com o Presidente do Tribunal fazendo isso, estou pessimista.

Como fui ingênuo. Acreditava que a malandragem e a molecagem estavam enfraquecidas nos bastidores do futebol e que as partidas, para o bem ou para o mal, seriam sempre decididas dentro de campo. Que ingenuidade a minha, bastou meu humilde time, pobre, nordestino e sem acesso ao "clube dos 13", figurar dentre os 4 melhores colocados do Brasileirão para começarem a farsa.

Se virar precedente, o Sport também pode se preparar: basta que o outro time comece uma confusão e pronto! Interditem também a Ilha do Retiro sem que o clube tenha qualquer culpa no cartório. É só "chutar o pau da barraca", como disse Armando Nogueira. Agora ficou fácil ganhar sem jogar.

Por essas e outras eu não estou sequer conseguindo torcer contra o Sport nessa fase final da Copa do Brasil, o que seria normal diante da rivalidade existente com o meu Náutico. Mas, confesso a vocês, leitores, minha indignação é tamanha que, embora não tenha chegado a torcer pelo rubronegro pernambucano (seria um pouco demais), senti uma ponta de alegria quando ele ganhou do Vasco nos penaltis e uma ponta de tristeza com a derrota de ontem para o Corínthians, embora reconheça que este último jogou bem melhor.

Decisões desse tipo me dão um profundo desânimo. Lembra-me a célebre frase de Rui Barbosa, adequada para a ocasião:

"De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto".

Não sei o que estou fazendo ensinando direito...

Desculpem o desabafo.

2 comentários:

Riad disse...

O futebol brasileiro é feito por covardes. Fico contente em saber que assim como eu alguém mais percebeu exatamente o que representou aqueles episódios medonhos que foram os jogos contra o Grêmio e o Botafogo. Mas digo: do mesmo jeito que esses clubes fizeram conosco, nós também somos capazes de fazer com outros clubes menores. Somos todos covardes.

Anônimo disse...

O que li só agora, em 14/6/10, foi exatamento o meu pensamento, minhas palavras e sentimento em relação a esses dois episódios.

Eu estava lá nos dois episódios, como sempre estou, e vi com essa mesma clareza esses fatos que lá aconteceram. No primeiro o Grêmio saiu como herói e Náutico como covarde, mas quem tem olhos para ver e não se deixa influenciar por pessoas mídia nojenta e criaturas estúpidas sabe que a coisa não foi assim.

Mas jamais terei vergonha de ser honesta e está sempre do lado do correto. Claro q/ a frase de Rui Barbosa citada, certamente deve ter sido em forma de desabafo por se ver essa 'inversão de valores'.

Mônica M.M. Gouveia
Alvirrubra