domingo, 25 de maio de 2008

O Buda: viagem introspectiva

Assisti ontem a um belo filme do recente cinema argentino. "O Buda", de Rafael Rafecas, conta a trajetória de dois irmãos cujos pais, budistas e ativistas políticos, foram seqüestrados e mortos pela ditadura militar argentina. Os garotos crescem criados pela avó e, enquanto o mais velho, interpretado pelo próprio diretor, se torna um Professor de Filosofia cético e racionalista, o mais novo possui desde cedo um ímpeto espiritualista que não cabe em si e ele próprio se perde várias vezes em sua busca por iluminação espiritual.

O relacionamento entre eles e a preocupação do mais velho para com o mais novo, achando-o fora de si, leva os irmãos a viajarem em busca de um templo budista nas montanhas onde supostamente alcançariam a iluminação guiados por um grande mestre zen. Na realidade, terminam por perceber que as coisas não são tão simples assim. Não vou dizer o desdobramento, senão perde a graça, mas há boas surpresas a aguardar o espectador.

Um ótimo filme a tratar de espiritualidade sem pieguice ou lições moralistas pré-concebidas. Inteligente e original, Rafecas prova que, mesmo sem grandes recursos financeiros, é possível fazer cinema de qualidade, com conteúdo e profundidade.

Um dos diálogos do filme que mais me chamou a atenção foi o da cena em que o irmão mais velho conversa com a namorada sobre as diferenças entre a filosofia ocidental e oriental e a observação dela é bastante pertinente. Ela diz que a filosofia oriental é essencialmente praxis, ao passo que a ocidental é teórica em demasia. No ocidente, é possível o sujeito ser, por exemplo, professor de Ética I ou II e, ao mesmo tempo, um crápula, desonesto em sua vida privada e até pública, às vezes. "Mas é um grande teórico", dirão alguns. Na filosofia oriental, isso é algo completamente fora de cogitação.

Em poucas palavras, disse muito.

Para refletir. E assistir "O Buda".

Nenhum comentário: