sexta-feira, 30 de maio de 2008

40 anos depois: os vários maios de 1968




Segue texto de Eduardo Rabenhorst, Professor de Filosofia do Direito da UFPB, sobre o famoso Maio de 1968 que, como bem afirma o autor, não foi um, mas vários "maios de 1968" (após o texto, incluí uma síntese do que acontecia na Europa e na América naquele "ano que não terminou"):

"A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DA CRÍTICA

A vida, além de perigosa, é feita de coincidências.

Participei, na noite de ontem, de um instigante debate promovido pela ADUFPB, sobre os 40 anos dos acontecimentos de maio de 1968, dividindo a mesa com o cientista político Rubens Pinto Lyra e o jornalista Walter Galvão. Procurei mostrar, no pouco tempo que me coube, que maio de 68 foi, e continua a ser, um evento não totalmente compreendido. Afinal, estaríamos diante de uma revolução ou de uma mera revolta?

Tudo parece depender do sentido que atribuímos a tais conceitos. É bem verdade que no caso específico da França, os estudantes não tinham um projeto alternativo de poder. Contudo, convém lembrar que não existiu um único maio de 1968, mas uma miríade deles. Paris, Praga, Berlim, São Paulo, Tóquio, Califórnia. Em cada um destes lugares e em tantos outros, maio de 1968 teve um significado diferente e um alvo distinto.

Não é difícil perceber, porém, que apesar de toda a plêiade de sentidos, houve uma sinergia, tanto de forma quanto de conteúdo, com relação ao que aconteceu naquela primavera em várias cidades do mundo. De fato, nascia ali a mais severa crítica ao autoritarismo, nas suas múltiplas acepções. E com ela despontava a juventude como categoria social e política. Doravante, os jovens nunca mais seriam vistos como janotas abobalhados, cheios de acnes e espinhas, mas sim como verdadeiros agentes da transformação, particularmente através do “movimento estudantil”.

Daí que, apesar de seus limites enquanto ação revolucionária, Maio de 1968 ensejou uma grande metamorfose, sobremaneira no plano das mentalidades e dos costumes. Nunca mais fomos os mesmos, em especial no que concerne aos nossos comportamentos, posturas e atitudes. Aprendemos a desconfiar das grandes instituições: família, partidos, sindicados, universidades... Passamos a identificar em todas elas um idêntico projeto de repressão da libido, acrescido das exigências de competição tão típicas de uma sociedade capitalista.

Obviamente, Maio de 1968 não se define apenas como uma espécie de sublevação negativa, como poderia sugerir seu slogan mais conhecido: é proibido proibir. Subjacente ao movimento de contestação e rebeldia, havia também um projeto de construção de uma sociedade alternativa, não alienada, solidária e pacífica, capaz de romper com todas as formas de opressão, em particular as opressões sociais, raciais e de gênero. Como tal, Maio de 1968 foi a um só tempo crítica e utopia.

E a filosofia? Onde ela estava naquela época?

Pobre filosofia, quase sempre incapaz de prever os acontecimentos. Como bem observou Jean-Luc Ferry em um texto clássico sobre o tema, intitulado Pensamento 68, nem Foucault, nem Althusser, e muito menos Derrida ou Deleuze, podem reivindicar qualquer influência sobre os acontecimentos. Na verdade, Maio de 1968 foi um movimento político a procura de uma filosofia, não o contrário. Ou, na melhor das hipóteses, um encontro feliz, um reconhecimento recíproco, como disse Michael Löwy. Em todo caso, fica o alerta: a filosofia não luta necessariamente contra as formas de opressão. Por vezes ela é cúmplice. O mesmo vale para a arte, a literatura etc.

Mas enfim, passados 40 anos de Maio de 68, que lições podemos tirar daqueles acontecimentos? Qual foi a herança deixada pelos sixties?

Sejamos francos, naquilo que havia de mais importante o movimento foi claramente perdedor. O capitalismo persiste, agora, para piorar, como única ideologia possível. Certo, ele teve que fazer concessões, notadamente no que diz respeito ao reconhecimento dos direitos sociais coletivos. Todavia, não nos enganemos, visto que democracia representativa e direitos humanos podem ser apenas requisitos para a imposição de uma economia de mercado globalizada. Afinal, liberdade é uma calça velha azul e desbotada, sobretudo quando usada com uma camiseta estampando a face de Guevara. Melhor ainda quando aquele ou aquela que a utiliza, empunha sua principal arma de guerra: a garrafa retorcida de uma skol beats...

Daniel Cohn-Bendit, principal líder do Maio de 68 na França, foi recentemente acusado de pedofilia. Contradição? Talvez não. Convém lembrar que T. Adorno, um dos pais da Teoria Crítica, isto é, aquela que mais poderia ter influenciado o movimento de Maio de 1968, foi obrigado a chamar a polícia para conter o próprio Cohn-Bendit, que desejava invadir o Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt. Em correspondência trocada com o filósofo Herbert Marcuse, outro ícone de Maio de 68, disse Adorno: “Não se deve caluniar abstratamente a polícia. Só posso repetir-te que ela tratou os estudantes de maneira incomparavelmente mais tolerante que estes a mim. Isso ultrapassou todos os limites. Também sou de opinião diferente da tua no que diz respeito a quando se deve chamar a polícia. Recentemente, o sr. Cohn-Bendit disse-me, durante uma discussão numa associação profissional, que eu só teria o direito de procurar a polícia se alguém quisesse espancar-me a pauladas; respondi que então talvez fosse tarde demais”.

Retorno ao início deste texto. Hoje, ao chegar à Faculdade, encontrei um libelo raivoso sobre minha decisão de chamar a polícia para conter os excessos do trote. Sou contra o trote, todos sabem. Quando me dizem que é tradição, fico pensando que poderíamos evocar outras tradições escolares, principalmente a palmatória... O que me deixou preocupado, devo dizer, foi a visão ingênua do autor do texto com relação ao papel da filosofia. Meu caro Emerson, não acredite em Platão, sobretudo na sua forma cristianizada. Não existe o “Sumo Bem” ou o “bom filósofo”, e menos ainda o filósofo bom. Tais conceitos, aliás, pertencem apenas ao que Nietzsche chamaria de “platonismo dos pobres”. A propósito, desconfie da própria existência do bem e do mal, como também de conceitos correlatos. E principalmente, suspeite da pertinência de Foucault no quadro de um entendimento sobre o Brasil. Falar de controle ou de disciplina em um país dominado pelo crack é muita ingenuidade. Não sou “governante”, nem “rei” e não acredito que os alunos do CCJ sejam “bobos da corte”, salvo quando eles se sujeitam às humilhações do trote (e se o fazem por vontade própria isso é outro problema, certamente de natureza psicanalítica). Não sou nada, nunca serei nada, afora isso, parodiando Pessoa, trago em mim quase todos os sonhos do mundo, sim porque o mais importante deles, o de que poderia transformar a realidade, desapareceu desde que aceitei a tarefa prometeica de dirigir esta Faculdade."

O que acontecia em 1968 - a cronologia dos maios:

1) EUROPA

FRANÇA

22/3 - Estudantes liderados por Daniel Cohn-Bendit invadem a Universidade de Nanterre.

6/5 - Cerca de 10 mil estudantes entram em choque com policiais no Quartier Latin, em Paris, em protesto contra o fechamento da Universidade de Sorbonne.

10/5 - Aparece em Paris o slogan "É proibido proibir - Lei de 10/5/1968" em oposição à inscrição "É proibido colar cartazes - Lei de 29/7/1881", afixada nos muros da cidade. Ocorre a Noite das Barricadas, quando 20 mil estudantes enfrentam a polícia.

13/5 - Decretada por estudantes e trabalhadores franceses greve geral de 24 horas em Paris, em protesto contra as políticas trabalhista e educacional do governo.

18/5 - Os cineastas Louis Malle, François Truffaut, Roman Polanski, Alain Resnais e Milos Forman retiram seus filmes da competição oficial do Festival de Cannes, em apoio ao movimento estudantil.

20/5 - Paris amanhece sem metrô, ônibus, telefone e outros serviços. Cerca de 6 milhões de grevistas ocupam as 300 fábricas da França.

16/6 - A polícia retoma Sorbonne, até então ocupada pelos estudantes, e expulsa os estrangeiros envolvidos no conflito; ocorrem os últimos confrontos com barricadas no Quartier Latin.

ALEMANHA OCIDENTAL (hoje simplesmente ALEMANHA)

19/1 - Um jovem morre durante conflito entre a polícia e os estudantes em Bremen.

2/2 - Revolta estudantil em Bonn; nos dias seguintes, estudantes ocupam a Universidade.

14/4 - Passeata de 4 mil estudantes em Berlin Ocidental é dissolvida pela polícia.

18/5 - Estudantes de direita e de esquerda se enfrentam na Universidade de Frankfurt.

BÉLGICA

20/1 - A Universidade de Louvain é fechada pelo governo após uma semana de conflito entre estudantes e policiais.

ESPANHA

11/1 - Conflito entre a polícia e estudantes da Universidade Complutense de Madrid quando 30 deles são presos.

28/3 - Protestos estudantis em Madrid provocam a queda do Ministro da Educação.

31/3 - A Universidade de Valencia é fechada após manifestações de estudantes em apoio à liberdade sindical.

16/5 - O governo espanhol fecha a Universidade Autónoma de Madrid.

31/5 - A polícia reprime violentamente estudantes e operários que tentavam ocupar a Universidade Autónoma de Madrid.

ITÁLIA

1/3 - Choque entre estudantes e policiais ocorrem em Roma e em outras cidades.

7/6 - Cerca de 3 mil estudantes tomam em Milão a sede do Jornal Corriere della Serra para impedir sua circulação.

5/12 - Cerca de 1 milhão de trabalhadores entram em greve.

IUGOSLÁVIA (hoje dividida em SÉRVIA, MONTENEGRO, CROÁCIA, BÓSNIA-HERZEGOVINA e ESLOVÊNIA, além de KOSOVO)

4/6 - 20 mil estudantes ameaçam ocupar as universidades do país.

POLÔNIA

8/3 - Estudantes protestam contra o regime socialista; 3 dias depois, a Universidade de Varsóvia é fechada.

REINO UNIDO

15/3 - 3 milhões de trabalhadores entram em greve no país.

TCHECOSLOVÁQUIA (hoje REPÚBLICA TCHECA e ESLOVÁQUIA)

5/4 - É lançado no país o programa de reformas políticas conhecido como "Primavera de Praga".

6/11 - Estudantes queimam bandeiras da ex-URSS nas ruas de Bratislava.

2) AMÉRICA

BRASIL

28/3 - Estudante secundarista Édson Luís de Lima Souto é morto em conflito com policiais durante invasão do Restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro.

1/4 - Estudantes invadem a Universidade de Brasília.

29/4 - A Polícia Militar invade a Universidade de Brasília ocupada por estudantes; no mesmo dia, é fechada a Universidade Federal de Minas Gerais.

26/6 - É realizada no Rio de Janeiro a "Passeata dos 100 mil", que reuniu estudantes, intelectuais, artistas, mães e padres.

2/10 - Confronto entre estudantes da Universidade Mackenzie e da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências da USP em São Paulo; um estudante é morto.

12/10 - Cerca de 1200 estudantes são presos em Ibiúna/SP quando realizavam clandestinamente o 30º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE).

ARGENTINA

11/6 - Estudantes decretam greve contra a política educacional do país.

COLÔMBIA

26/6 - Estudantes ocupam a Universidade de Bogotá em protesto contra as condições do ensino no país.

EUA

4/4 - É assassinado o líder negro Martin Luther King; no dia seguinte, ocorrem vários conflitos civis no país.

23/4 - Estudantes ocupam 5 edifícios na Universidade de Columbia, em Nova York, em protesto contra os vínculos mantidos entre a Universidade e uma instituição militar.

28/4 - Cerca de 60 mil manifestantes protestam no Central Park, em Nova York, exigindo o fim da Guerra do Vietnã.

MÉXICO

30/7 - Confronto entre estudantes e policiais na Cidade do México, com intervenção do Exército.

24/8 - Cerca de 300 mil pessoas realizam manifestação popular em apoio à revolta estudantil na Cidade do México.

18/9 - Protesto na Universidade Nacional/Cidade do México reprimidos pelo Exército; saldo de 18 mortos.

2/10 - Outro confronto entre policiais e estudantes na Cidade do México resulta em 20 mortos.

URUGUAI

13/6 - O governo decreta estado de sítio após violentos choques de estudantes e operários com a polícia.

VENEZUELA

28/3 - O Exército ocupa a Universidade de Macaraibo; no conflito com os estudantes, 4 mortos e 300 feridos.

Um comentário:

Caio Mario disse...

Caro Professor Bruno,
Tive a oportunidade de assistir a algumas aulas suas ainda quando estava ligado a UFPB. Passo aqui para elogiá-lo pelo blog que traz sempre discussões pertinentes.
Conheço o professor dessa postagem (seu colega da sua ex-casa) e digo, o texto seria "razoável" se não tivesse o último parágrafo, pois quem tinha tudo para ser um professor, tornou-se uma piada. Mal adentramos a vida universitária e nos deparamos com uma figura dessas que diz "ter todos os sonhos do mundo", leva a reboque alguns incautos e atropela todo o resto. Nesse ínterim fala de tolerância e pluralismo, mas cria seu próprio quadro de valores e estabelece que quem está fora deles é "energúmeno". Depois esperneia como criança pequena quando recebe uma crítica.
Para ser bem generoso diria apenas que o cara é contradição pura.
Grande abraço e parabéns pelo blog