sexta-feira, 25 de abril de 2008

A turba do "pega e lincha"



Incrivelmente espantoso esse caso da garota Isabella Nardoni. Os indícios realmente parecem apontar o pai e a madrasta como autores do crime.

Entretanto, mais espantoso ainda é a sede de sangue de boa parte das pessoas "normais", dos "cidadãos de bem", que, antes mesmo de a polícia concluir qualquer coisa, já se reuniam nas imediações de onde eles estavam, chamando-os de assassinos e querendo linchá-los, não fosse o trabalho de contenção dos mesmos pela própria polícia.

Olha, o crime realmente foi horrível e, a se confirmar as suspeitas e os indícios até agora apresentados, eles devem mesmo ser punidos. Todavia, não justifica atitudes de tamanha hostilidade para com pessoas que, aliás, se afirmam inocentes, apesar das evidências. Devido processo legal, ampla defesa, contraditório, certamente essas pessoas não possuem a menor idéia do que seja isso.

É por isso que tenho refletido muito acerca das dificuldades de construção de uma cultura de direitos humanos entre nós. Enquanto uma cultura mais humanista não impregnar os corações e mentes, mais do que os códigos e as leis, continuaremos sempre temendo as turbas sangüinárias do "pega e lincha", na expressão de Contardo Calligaris.

Segue excelente texto desse último sobre o caso em questão:

"Na última sexta-feira, passei duas horas em frente à televisão. Não adiantava zapear: quase todos os canais estavam, ao vivo, diante da delegacia do Carandiru, enquanto o pai da pequena Isabella estava sendo interrogado.

O pano de fundo era uma turba de 200 ou 300 pessoas. Permaneceriam lá, noite adentro, na esperança de jogar uma pedra nos indiciados ou de gritar "assassinos" quando eles aparecessem, pedindo "justiça" e linchamento.

Mais cedo, outros sitiaram a moradia do avô de Isabella, onde estavam o pai e a madrasta da menina. Manifestavam sua raiva a gritos e chutes, a ponto de ser necessário garantir a segurança da casa. Vindos do bairro ou de longe (horas de estrada, para alguns), interrompendo o trabalho ou o descanso, deixando a família, os amigos ou, talvez, a solidão -quem eram? Por que estavam ali? A qual necessidade interna obedeciam sua presença e a truculência de suas vozes?

Os repórteres de televisão sabem que os membros dessas estranhas turbas respondem à câmera de televisão como se fossem atores. Quando nenhum canal está transmitindo, ficam tranqüilos, descansam a voz, o corpo e a alma. Na hora em que, numa câmera, acende-se a luz da gravação, eles pegam fogo.

Há os que querem ser vistos por parentes e amigos do bar, e fazem sinais ou erguem cartazes. Mas, em sua maioria, os membros da turba se animam na hora do "ao vivo" como se fossem "extras", pagos por uma produção de cinema. Qual é o script?

Eles realizam uma cena da qual eles supõem que seja o que nós, em casa, estamos querendo ver. Parecem se sentir investidos na função de carpideiras oficiais: quando a gente olha, eles devem dar evasão às emoções (raiva, desespero, ódio) que nós, mais comedidos, nas salas e nos botecos do país, reprimiríamos comportadamente.

Pelo que sinto e pelo que ouço ao redor de mim, eles estão errados. O espetáculo que eles nos oferecem inspira um horror que rivaliza com o que é produzido pela morte de Isabella.

Resta que eles supõem nossa cumplicidade, contam com ela. Gritam seu ódio na nossa frente para que, todos juntos, constituamos um grande sujeito coletivo que eles representariam: "nós", que não matamos Isabella; "nós", que amamos e respeitamos as crianças -em suma: "nós", que somos diferentes dos assassinos; "nós", que, portanto, vamos linchar os "culpados".

Em parte, a irritação que sinto ao contemplar a turma do "pega e lincha" tem a ver com isto: eles se agitam para me levar na dança com eles, e eu não quero ir.

As turbas servem sempre para a mesma coisa. Os americanos de pequena classe média que, no Sul dos Estados Unidos, no século 19 e no começo do século 20, saíam para linchar negros procuravam só uma certeza: a de eles mesmos não serem negros, ou seja, a certeza de sua diferença social.

O mesmo vale para os alemães que saíram para saquear os comércios dos judeus na Noite de Cristal, ou para os russos ou poloneses que faziam isso pela Europa Oriental afora, cada vez que desse: queriam sobretudo afirmar sua diferença.

Regra sem exceções conhecidas: a vontade exasperada de afirmar sua diferença é própria de quem se sente ameaçado pela similaridade do outro. No caso, os membros da turba gritam sua indignação porque precisam muito proclamar que aquilo não é com eles. Querem linchar porque é o melhor jeito de esquecer que ontem sacudiram seu bebê para que parasse de chorar, até que ele ficou branco. Ou que, na outra noite, voltaram bêbados para casa e não se lembram em quem bateram e quanto.

Nos primeiros cinco dias depois do assassinato de Isabella, um adolescente morreu pela quebra de um toboágua, uma criança de quatro anos foi esmagada por um poste derrubado por um ônibus, uma menina pulou do quarto andar apavorada pelo pai bêbado, um menino de nove anos foi queimado com um ferro de marcar boi. Sem contar as crianças que morreram de dengue. Se não bastar, leia a coluna de Gilberto Dimenstein na Folha de domingo passado.

A turba do "pega e lincha" representa, sim, alguma coisa que está em todos nós, mas que não é um anseio de justiça. A própria necessidade enlouquecida de se diferenciar dos assassinos presumidos aponta essa turma como representante legítima da brutalidade com a qual, apesar de estatutos e leis, as crianças podem ser e continuam sendo vítimas dos adultos."

2 comentários:

Anônimo disse...

Concordo com quase tudo, só acho que existe, SIM, um sentimento de querer fazer justiça. "Estamos" cansados de ver esta escorrer por entre os dedos. E não há como negar que o lado "animal" do ser humano se sobressai em situações assim: como agir passivamente e se abster diante de um caso de assassinato desse, ainda mais como quase tudo aponta para o pai e madrasta?

Fernando disse...

Grande Bruno

Recentemente revi um filme que tem muito a ver com esse tema. O filme chama-se " Consciências Mortas"( The Ox-Bow Incident). é estrelado por Henry Fonda. Talvez vc já tenha assistido, mas sem sobra de dúvida vale uma nova conferida. Se ainda não viu procure, pois é bem interessante. Grande Abraço!