sexta-feira, 25 de abril de 2008

O fim da onda neoliberal


Eu tenho dúvidas se o ex-ministro Bresser Pereira está certo, mas este artigo que ele escreveu abaixo parece dar um panorama bem interessante da situação atual do neoliberalismo no mundo. Aquele otimismo do "fim da história" com a vitória do capitalismo e da democracia, típico dos anos 90 passados (que o diga Francis Fukuyama), parece que realmente não mais subsiste. As incertezas parecem ser mais profundas que nunca.

O curioso é que Bresser Pereira é o mesmo que disse, quando era ministro de FHC, que o Estado social acabara e que o Brasil precisava se adaptar a essa nova "onda" neoliberal, tendo sido, aliás, uma das grandes cabeças pensantes da configuração do referido modelo nas propostas de reforma do Estado brasileiro. Talvez esteja fazendo um mea culpa, a exemplo do megainvestidor húngaro-norte-americano George Soros. Eis o texto:

"Chegou ao fim a onda ideológica neoliberal que dominou o mundo nos últimos 30 anos no quadro da hegemonia americana.

Dois fatos ocorridos nas últimas semanas marcaram esse fim inglório; de um lado, o socorro do banco de investimento Bear Stearns; de outro, as revoltas populares em vários dos 33 países hoje seriamente atingidos pelo aumento dos preços dos alimentos. Essa ideologia reacionária que visava reformar o capitalismo global para fazê-lo voltar aos tempos do capitalismo liberal do século 19 revelou ter fôlego curto. E não poderia ser de outra forma, já que estava em contradição com os avanços políticos e institucionais que transformaram o Estado liberal do século 19 no Estado democrático e social da segunda metade do século 20.

Apoiada na hegemonia americana, a onda ideológica neoliberal teve início em 1980, com a eleição de Ronald Reagan, e chegou ao auge nos anos 1990, com o colapso da União Soviética, mas nos anos 2000 entrou em declínio. Três fatores contribuíram para a crise: 1) o fracasso das reformas e da macroeconomia neoliberais em promover o desenvolvimento econômico dos países periféricos que a aceitaram; 2) o desastre político e humano representado pela guerra contra o Iraque; e 3), mais recentemente, a grande crise bancária que a desregulamentação financeira facilitou.

Nos últimos dias, a intervenção para salvar um banco de investimento e a ameaça de fome causada pela elevação dos preços dos alimentos marcam definitivamente o fim da utopia neoliberal de uma sociedade regulada principalmente pelo mercado. Não preciso de maior argumentação para demonstrar por que o socorro do Bear Stearns tem esse sentido. Conforme afirmou na ocasião Martin Wolf abrindo seu artigo semanal, "lembre a sexta-feira, 14 de março de 2008: foi o dia em que o sonho de um capitalismo de livre mercado morreu". (Folha, 26/ 3/08). Engana-se, porém, Wolf em falar em "sonho". Trata-se antes de um pesadelo, porque, se é verdade que o mercado é um excelente alocador de recursos, mesmo nesse campo precisa de regulação para evitar instabilidade. Já em relação aos demais valores que a humanidade tão arduamente construiu, o mercado é cego, ignorando os princípios mais elementares de honestidade, proteção da natureza e justiça social.

Essa cegueira assumiu caráter dramático com a notícia de que as populações pobres de pelo menos 33 países estão ameaçadas de fome devido à alta dos preços dos elementos. Se a ideologia neoliberal dominante nestes últimos 30 anos não houvesse se encarregado de convencer os países pobres de que não precisavam de suas culturas de produtos alimentícios, de que era mais econômico especializar-se em alguma outra atividade (geralmente de valor adicionado per capita igualmente baixo) e importar seus alimentos básicos, os povos desses países não estariam agora em justa revolta.

Creio que existem boas razões para acreditarmos no desenvolvimento econômico e político dos povos. É absurda, porém, a ideologia que pretende alcançar o bem-estar econômico capitalista sem se beneficiar do desenvolvimento político democrático -sem contar com a ação corretiva e regulatória do Estado democrático e social que tão arduamente a sociedade moderna vem construindo e do qual faz parte um mercado livre mas regulado. Não teremos saudades do neoliberalismo."

Quem te viu, quem te vê, Bresser.

Ps.: o site pessoal e profissional do ex-ministro é http://www.bresserpereira.org.br/.

Um comentário:

Anônimo disse...

Olá, Bruno.

Também tenho dúvidas quanto às conclusões do Bresser, mas tenho uma certeza: se, entre nós, o capitalismo liberal (nunca entendi direito o "neo") acabou, isso ocorreu sem que ele jamais tivesse começado.

Afinal, por razões várias, o estatismo sempre campeou no Brasil, e as poucas tentativas de mudanças (algumas das últimas na época do próprio Bresser) sempre foram corrompidas pela falta de impessoalidade, bem típica de nossa tradição patrimonialista.

Aliás, falei de patrimonialismo e Lembrei de Faoro:

"A comunidade política conduz, comanda, supervisiona os negócios, como negócios privados seus, na origem, como negócios públicos depois, em linhas que se demarcam gradualmente. O súdito, a sociedade, se compreendem no âmbito de um aparelhamento a explorar, a manipular, a tosquiar nos casos extremos. Dessa realidade se projeta, em florescimento natural, a forma de poder, institucionalizada num tipo de domínio: o patrimonialismo, cuja legitimidade assenta no tradicionalismo – assim é porque sempre foi."

É isso. O nosso capitalismo é bem peculiar: cordial, pessoal, dominial. E o pior é que isso acaba por afetar a regulação (veja o recentíssimo caso de aquisição da Brasil Telecom pela OI/Telemar, ao arrepio da lei).

Aqui, o capitalismo existe apesar dos interesses pessoais, e liberalismo, com tudo que isso significa, nunca existiu. E, sinceramente, creio que jamais existirá...

Grande abraço,


Carlos Octaviano Mangueira
João Pessoa - PB.