sábado, 1 de março de 2008

A república britânica


Sou um confesso admirador dos britânicos e de suas instituições, embora não as defenda como modelo universal. Mas é inegável que, mesmo sendo uma das mais tradicionais e pomposas monarquias do mundo, eles conseguem manter um espírito profundamente republicano no dever de cada um para com a sociedade.

Li esta semana que vazou a notícia de que o Príncipe Harry estava lutando como soldado nas forças armadas britânicas no Afeganistão e por isso ele foi trazido de volta para não pôr em perigo as tropas em questão.

Muitos irão logo dizer: "ora, ele voltou só por que é príncipe, queria ver se fosse um pé-rapado qualquer". Eu retrucaria da seguinte maneira: somente o fato dele ser quem é (o 3º na linha de sucessão do trono britânico) e estar na guerra como soldado, sem direito a qualquer regalia, cumprindo ordens de seus superiores e indo para o front, para mim, por si só já é um fato admirável.

Em atitudes como essa e como muitas outras, vê-se o porquê da monarquia britânica ser tão admirada, ainda que pareça anacrônica. A Rainha Elizabeth II não permitiu que o Príncipe Charles utilizasse o avião da RAF (Royal Air Force) quando do acidente de Lady Diana em Paris. Como ela estava divorciada de Charles e não possuía mais vínculo com a Casa Real, ir visitá-la seria uma questão particular de Charles e dos outros príncipes, deviam, portanto, comprar passagens e viajar como qualquer outro mortal. Durante a 2ª Guerra Mundial, quando Londres era bombardeada pelos aviões nazistas, a Rainha-Mãe (mãe da atual monarca) ficou na capital inglesa visitando pessoalmente hospitais e bases militares e dando apoio moral e político ao Premiê Winston Churchill quando poderia ter se retirado para o interior do país.

Gostaria de ver na "república" Federativa do Brasil se um filho de um senador, de um desembargador ou do Presidente da República iria para operações dessa natureza. Certamente dariam um jeitinho para jogar no front apenas os filhos de pobres sem vínculos com as autoridades. Mesmo nos EUA, o seu atual Presidente George Bush conseguiu, com a influência de seu pai, não ir para o Vietnã, ficando como patrulheiro na costa norte-americana.

Na república brasileira é comum as autoridades dos 3 poderes se esbaldarem com o patrimônio público como se ele fosse de sua propriedade pessoal. Já cansei de ver carros oficiais de deputados e de desembargadores circulando nas praias em fins de semana, afora outros abusos costumeiros. Em minha opinião, o próprio carro oficial para essas autoridades já é uma excrescência: carros oficiais devem existir para as instituições e não para as pessoas. Concordo que um tribunal ou uma assembléia legislativa tenha carros oficiais, em número correspondente ao estritamente necessário, a serviço da instituição; discordo, contudo, por ser profundamente antirepublicano, que um vice-presidente de assembléia legislativa ou um desembargador de tribunal o tenha ao seu exclusivo dispor.

No Reino Unido, apenas o Primeiro-Ministro e o Ministro das Relações Exteriores possuem carro oficial ao seu dispor. Todos os outros vão trabalhar com sua própria condução ou de táxi.

Na monarquia britânica, pelo visto, a res publica é muito mais valorizada. Do súdito mais humilde ao príncipe da mais nobre estirpe, todos têm seus deveres para com a sociedade e não podem se escusar de cumpri-los.

Será que um dia chegaremos perto desse espírito republicano dos monarquistas britânicos?

Um comentário:

Anônimo disse...

eu concordo contigo! acho que foi uma atitude admiravel o facto do Príncipe Harry ter ido lutar com os seus colegas como todos os militares!