terça-feira, 11 de março de 2008

Edukators: mudando o "mudar o mundo"



Quem é jovem de corpo e alma ou só de alma, com certeza em algum momento já se indignou profundamente com as injustiças do mundo e se perguntou o que fazer para mudá-lo, tornando-o mais fraterno, com menos desigualdade social e mais justiça.

Se você não é um sujeito gelidamente desalmado e já sentiu o que falei no parágrafo anterior, não pode deixar de ver Edukators, filme alemão de 2004, dirigido por Hans Weingartner e co-estrelando Daniel Brühl (o Alex de "Adeus Lênin").

O filme é brilhante e assumidamente engajado e de esquerda. Todavia, diferentemente daqueles filmes doutrinários e panfletários que mostram somente a esquerda boazinha e a direita malvada, ele põe de forma muito contundente as cartas na mesa. Embora simpatize com os Edukators, mostra-os, não como heróis eticamente altruístas e inabaláveis, mas como jovens cheios de contradições nas idéias e nas atitudes, embora preponderantemente sinceros em seus propósitos. Permitam-me explicar melhor.

Os Edukators, ou edukadores (com "k" mesmo), são na verdade Jan (Daniel Brühl) e Peter (Stipe Erceg), dois jovens alemães esquerdistas que resolvem criar uma forma inusitada de luta política e embate ideológico. Como um deles é especialista em alarmes para mansões de ricaços, eles passam a invadir tais casas em momentos de ausência de seus donos, mas não furtam nada: somente bagunçam a casa, mudando as coisas de lugar, deixam bilhetes do tipo "seus dias de fartura estão acabando" e assinam Edukators. Essas incursões nas propriedades rendem-lhes fama na imprensa nacional e até estrangeira.

A namorada de Peter, Jule (Julia Jentsch), quando toma conhecimento da atividade deles, resolve participar da mesma e invadem a casa de Hardenberg, milionário ao qual a garota devia um dinheirão pelo fato de ter abalroado sua BMW de 100 mil euros. Só que eles são surpreendidos com a presença repentina do próprio milionário na casa, o que os obriga a seqüestrá-lo, logo eles que não queriam agir com violência. E, ao levar o seqüestrado a uma casa de campo do tio de Jule, eles desenvolvem uma amizade (talvez um pouco de "síndrome de Estocolmo") quando descobrem que Hardenberg havia sido um militante esquerdista revolucionário nos anos 60, rendendo-se ao "canto de sereias" capitalista depois. Ainda há reviravoltas incríveis e o final é espetacular.

O mais interessante é que, embora os diálogos entre os Edukators e Hardenberg sejam triviais (os primeiros questionam como um sujeito como ele conseguem viver como vivem sabendo de tantas injustiças e pessoas morrendo de fome por causa de sua fartura e este último afirmando que apenas joga o jogo de acordo com as regras do sistema, embora reconheça-o injusto), a forma como Weingartner coloca as questões é bastante original: embora sejam idealistas e sinceros, o motivo específico dos Edukators de invadirem a casa de Hardenberg é bastante egoísta, pois trata-se de empreender uma espécie de vingança contra o homem que deixou Jule atolada em uma dívida impagável. O fato de serem socialistas não faz com que Peter deixe de sentir ciúmes sérios, partindo para as "vias de fato" quando descobre que Jan e Jule tiveram um "rolo". Ademais, eles se rendem parcialmente ao "sistema" quando terminam por acreditar que furtar um rolex e outras preciosidades caríssimas de milionários para os quais isso seja uma "mixaria" não é algo ruim afinal diante da necessidade de financiar a luta por um mundo menos desigual.

Enfim, o filme trata de modo muito original das revoluções sociais e de como fazê-las acontecer, das angústias da juventude atual frente a esses desafios, das formas de luta por justiça social e da percepção do mundo ao nosso redor.

Sem panfletarismo ou doutrinamento do espectador, o filme deixa mais perguntas que respostas. Porém, é fundamental para pensar o que fazer para "mudar o mundo" nos dias de hoje.

É, gente, "mudar o mundo" "não é mais como era antigamente".

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