terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

A pederastia de direita e de esquerda na Pedra do Reino

Recomeçaram as aulas na UFPE, bibliografia e planejamento para atualizar, dissertações e teses para avaliar, orientações a fazer, etc. etc., afora os afazeres de pai, marido e dono de casa. E ainda estou tentando ler, nas pouquíssimas horas vagas, o "Romance da Pedra do Reino", do velho Ariano.

Apesar de muito longo, o livro é muito gostoso de ler e, embora não seja uma comédia, tem umas passagens engraçadíssimas. Essa, por exemplo, diálogo entre Samuel, Clemente e Pedro Dinis Quaderna, é de morrer de rir:

"- Se Os Cangaceiros é literatura de beira-de-estrada, A Renegada é literatura de alcova e safadeza da Zona da Mata, Samuel! Em A Renegada, a única coisa que me interessa é que se mostra, ali, o homossexualismo e certas formas de amor pervertido entre Emília Campos e seu marido, o velho e impotente Desembargador Palma! Isso me interessa, por dois motivos. Primeiro, mostra as chagas causadas pelo ócio dos ricos e pelo mofo das alcovas burguesas! Depois, porque os desviados sexuais são, no fundo, revoltados contra a sociedade! Eu, como revolucionário e adversário da Ordem, tenho horror é a figura do "bom cidadão", do homem de boa consciência, do "homem normal"! A perversão sexual é uma forma de revolta! É verdade que um tanto inconseqüente, como também é inconseqüente a revolta do Cangaceiro! Mas, de qualquer maneira, tanto o Cangaceiro, quanto o homossexual são, no fundo, dois agentes da Revolução!

- Agentes da Revolução, no fundo? - protestei. - O homossexual pode ser, o Cangaceiro, não!

- Lá vêm as saídas de Almanaque! Quaderna, não estamos em Véspera de Reis não! Estou discutindo uma tese séria, que vai ficar registrada em nossas atas!

- Essa é boa! - defendi-me. - Diz que o homossexual é um revoltado no fundo, e quer se zangar porque eu acho graça! Você está falando sério, Clemente?

- Claro que estou! Quando o homossexual se recusa a aceitar os padrões morais da classe privilegiada, está, a seu modo, protestando, como o guerrilheiro, contra a ordem estabelecida!

- Tá, Clemente, com essa eu não contava! - disse eu, espantado. - Nunca pensei que dar o rabo fosse uma forma de guerrilha! Mas se você fosse fazer um romance, era assim que você faria? Era seguindo Os Cangaceiros, de Carlos Dias Fernandes, e mostrando a revolta desses guerrilheiros, juntamente com uma porção de homossexuais revoltados no fundo?

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- Samuel, para lhe ser franco, nem compartilho da sua emoção nem do entusiasmo que você, um Brasileiro, sente por esse Rei português de opereta! Você disse, há pouco, que eu queria criar, aqui, um Sebastianismo negro que nunca existiu! O que é artificial, o que não existe, é esse "Sebastianismo brancoso e fidalgo, do Sonho e da Legenda", combatido hoje, mesmo em Portugal, pelo menos pelos melhores Portugueses! Você, Samuel, quer ser mais Português do que os próprios Portugueses, mais realista do que o Rei! E o que é pior, é que, enquanto vocês vivem com esses sonhos de "Fidalgos ociosos e maltrapilhos", as nações industriosas vão passando à nossa frente, dominando-nos e explorando-nos! Por isso, prefiro ficar com os melhores espíritos Portugueses, que consideram a desastrada aventura de Dom Sebastião, na África, como o verdadeiro início da decadência de Portugal! Júlio Dantas, por exemplo, é contrário ao tal do "Desejado": afirma que o caso de Dom Sebastião era apenas um problema de homossexualidade, sendo sua famosa e louvada "castidade" tão-somente resultado disso! Daí é que vinham seus assomos, sua inquietação, seu fanatismo de monge-militar, sua horrorizada misoginia, sua loucura, seus desequilíbrios e alucinações!

Não pude deixar de interromper:

- Mas Clemente, você não é a favor do homossexualismo como forma de guerrilha?

- Conforme, Quaderna! - disse o Filósofo. - Há uma pederastia revoltada e da Esquerda, e outra reacionária e da Direita! A de Dom Sebastião era da Direita, e por isso sou contra ela!"

Confesso aos leitores que nunca havia pensado a homossexualidade por esse viés. Ariano é genial mesmo.

Um comentário:

Adrualdo disse...

Rapaz! esta é uma das grande passagens deste livro! Acho massa quando Quaderna tira onda das ideologias de seus mestres... Como sempre, "em-cima-do-muro".
O livro é ótimo, vc vai adorar!