terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

O Urso de Berlin para a "tropa"


Fiquei muito feliz com a premiação dada ao filme de José Padilha, o tão polêmico "Tropa de Elite", não somente pela repetição do feito brasileiro em "Central do Brasil", mas por fazer justiça a um dos melhores filmes brasileiros da atualidade, tão bombardeado de críticas, muitas delas provenientes de críticos respeitáveis, com a pecha de que seria um filme "fascista".

Com todo o respeito, já afirmei e reafirmo minha total discordância desse ponto de vista. É um filme um tanto ambíguo por mostrar a questão da violência a partir do ponto de vista de um policial do BOPE. Para mim, a sua ambigüidade decorre do fato do filme não ter um ponto de vista definido, pret-a-porter. Não estou dizendo que ele seja neutro ou imparcial, como supôs meu amigo Eduardo Rabenhorst em seu blog (www.modosdedizeromundo.blogspot.com), apenas que ele não parte de um ponto de vista previamente estabelecido e permite o desenvolvimento do roteiro a partir da visão do Capitão Nascimento. Tanto que há várias interpretações divergentes acerca dele, de filme fascista a grande denúncia social das mazelas brasileiras.

Para mim, Padilha não toma posição clara no sentido da aprovação da conduta do Capitão, nem tampouco mostra o referido policial como um ser pura e simplesmente "do mal". Exatamente aí fica a ambigüidade, pois não há mocinhos no filme (o bem e o mal estão totalmente ausentes) e a situação é extremamente angustiante, já que aqueles que supostamente não se corrompem, se tornam cruéis máquinas de matar. A população fica entre a cruz e a espada, pois de um lado traficantes perversos buscando manter os seus negócios à custa da corrupção da própria polícia (que também entra no jogo sujo) e do outro, sujeitos treinados para a guerra, assassinos impiedosos com claras inclinações para a ultraviolência, embora não se vendam ao tráfico e coloquem tais "atributos" a serviço do Estado. Torturam sem dó nem piedade, violam ilegalmente domicílios e não hesitam em eliminar quem quer que seja para cumprir sua missão. O completo paradoxo: para fazer valer a lei e a ordem, estas são completamente ignoradas em nome da corporação, descrita pelo Capitão como uma verdadeira "seita".

Continuo achando que o filme mostra os vários lados da questão. Agora como ele não pinta os policiais somente como opressores, visto que mostra também o lado cruel dos traficantes (o que é a realidade mesma), ataca a conduta da classe média e alta que financia o tráfico e as armas, além da questão da conivência de políticos, ONGs e até mesmo da própria polícia com a situação, ou seja, não é maniqueísta, ele foi visto como um filme que defendia e legitimava a tortura e a ação do BOPE no combate à violência.

Se alguém vai ao cinema predisposto a ver isso, pode realmente interpretar dessa forma. A meu ver, é preciso ir mais fundo e escapar do simplismo maniqueísta do "se não é por mim, é contra mim". É necessário lembrar que como o filme é contado a partir da ótica do Capitão, obviamente que este último não acha que está agindo de modo errado e busca sempre justificativas para suas cruéis ações. Ora, se mostrar a realidade a partir do ponto de vista de um dos envolvidos é concordar com ele, o que diríamos de filmes como "Laranja Mecânica", de Kubrick, e "Assassinos por Natureza", de Oliver Stone? Contar a estória a partir da visão de Alex, the Large no primeiro (salientando o êxtase orgásmico que tinha quando estuprava, espancava e matava) ou do sádico casal de assassinos do segundo faz com que seus diretores concordem com a visão deles? Penso que não.

Para não me alongar mais, remeto os leitores ao artigo de Alexandre Costa, publicado aqui neste blog em novembro último (post do dia 17), que diz mais e melhor sobre o filme de Padilha.

4 comentários:

Eduardo Rabenhorst disse...

Bruno, não quero prolongar a polêmica, porém discordo do teu ponto de vista como também da análise de Costa Lima. A riqueza de uma obra de arte está no seu afastamento com relação à literalidade. Laranja Mecãnica não faz apologia da violência exatamente por isso. Quando você termina de vê-lo a sensação é exatamente a de que aquele estado de coisas é inaceitável (o mesmo pode ser dito de Crime e Castigo). Tropa de Elite, ao contrário, é literal. Por isso Costa Lima fica na dúvida se ele não seria um documentário. Insisto que a idéia de que Tropa de Elite não tem ponto de vista é absurda. Afinal, se é assim, onde estaria o contraponto? Quem, no filme, oferece uma perspectiva diferente? Todos os que se opõem ao modo de agir da PM são ridicularizados (são filhinhos de papai que cheiram pó e acreditam em trabalho social). O filme, ao contrário de Cidade de Deus, é inteiramente governado por uma única linha de interpretação. Em suma, é o filme que o pensamento conservador aguardava. Tropa de Elite? Melhor seria Troca de Elite...

Bruno Galindo disse...

Eduardo, não há problema para mim polemizarmos, aliás, tu fostes um de meus mestres nisso. Faz parte de um espaço democrático, como este blog se propõe a ser, divergirmos e termos idéias e percepções distintas dos fenômenos. Aí está a pluralidade. O curioso é que a tua interpretação do filme é a mesma da Revista Veja que tanto criticas. Continuo achando que tomam a visão do Cap. Nascimento como se fosse a do filme, o que, em minha modesta opinião, não é o que ocorre.
De todo modo, sempre me honra e me felicita muito os teus comentários, mesmo que seja para criticar. Afinal, se considero o blog um espaço de liberdade de expressão, como poderia tolher os comentários críticos e discordantes, ainda mais de interlocutores privilegiados como o nobre amigo?
Grande abraço.

Denis disse...

Bruno, gostei muito do seu texto. Vou lhe um texto também muito bom sobre Tropa de Elite, feito pelo crítico de cinema Pablo Villaça, de Belo Horizonte, em seu site Cinema em Cena: http://www.cinemaemcena.com.br/Ficha_Filme.aspx?ID_CRITICA%20=6835&ID_FILME=6592&aba=critica
Neste texto, ele indica dois documentários que complementariam o filme: "Ônibus 174" de José Padilha (que já havia assistido) e "Notícias de Uma Guerra Particular" de João Moreira Salles e Kátia Lund (que assisti após a indicação, e ache espetacular). Este segundo filme é bastante difícil de se achar nas locadoras de João Pessoa, logo tive de recorrer ao eMule (controvésias a parte). E reitero a indicação: assista a estes dois filmes, que você não se arrepende nem de longe. Já fiz um comentário no blogg de Rabenhorst, mas também quis fazer essa sugestão diretamente a vc, caso ainda não os tenha assistido. Parabéns pelo blogg.
Abraço,
Denis

Adrualdo disse...

Caro Bruno,

Reproduzo comentário que fiz no blog de Rabenhorst!

Abraços.

É, professor, a polêmica sobre este filme é grande!

Bom, seus argumentos são fortes... mas vou tentar expor minha idéia a respeito.

Sobre a "criminalização da pobreza", costumo me perguntar se quem adere a este discurso defende “que só os pobres são criminosos”. Parece que eles acusam esta dedução absurda. Sendo assim, não se pode concordar com o argumento segundo o qual a violência é só uma questão social.
Também não concordo. Sei que a exclusão social é um fator, mas há outros. Basta ver a criminalidade e a violência dos jovens de classe média. Aqui em Alagoas, uma onda de crimes de assalto e seqüestro vêm sendo realizada por jovens de bom poder aquisitivo e que, simplesmente, partiram para o crime. São quadrilhas que percorrem o NE, pelo interior e capitais. Exceção à regra? Não acho.
Assim, penso que a violência tem múltiplas causas, e não concordo, portanto, com a idéia de criminalizar o "pobre". Até iluminação pública interfere na violência!
Fator interessante é ver que os traficantes não têm a legitimidade que parecem nas favelas do Rio ou de Maceió. As populações que vivem perto de ambiente com alta criminalidade sentem-se desprotegidas. Pessoas honestas não concordam com o crime, sejam pobres ou não.
Acho que o filme mostra uma realidade. Concordo, todavia, que ele leva a uma atitude simpática pelo Capitão Nascimento. Mas, a simpatia não nos leva a concordar com todas as suas atitudes. Ele está inserido em um contexto complexo. Se ele entrar na favela e tentar dialogar com o traficante armado de fuzil, o que poderá acontecer? Penso nele como um sujeito inserido numa guerra permanente, sem saída a não ser a omissão, como ele mesmo diz.
Eis a realidade: polícia meramente repressiva; falta de inteligência; falta de planejamento estratégico; falta de oportunidades. O que é que Nascimento pode fazer numa situação destas? Justiça com as próprias mãos...
Por isso acho que o filme não faz apologia da violência.