sábado, 26 de janeiro de 2008

Roma - Primeira Temporada

Terminei de assistir esta semana a primeira temporada da série tão aclamada pela crítica e intitulada simplesmente "Roma". De fato, a aclamação não é casual. Jamais havia visto um trabalho tão minucioso e historicamente fidedigno ao período final da República Romana como esse. A série é realmente muito boa e traz uma abordagem bem distinta dos filmes e séries que assisti anteriormente sobre Roma.

A primeira temporada inicia com a guerra na Gália, cujo comando das legiões romanas atribuído a Júlio César alavancou a ascensão política do ditador* romano, e termina com o assassinato do mesmo no Senado de Roma. Filmada na Itália, a série desce a detalhes bastante minuciosos da vida em Roma naquele tempo. Mostra uma Roma poderosa e altiva, porém, bem menos glamourosa do que normalmente é retratado no cinema e na TV. Ao lado das belas construções e palácios, vemos vielas sujas, ruas fétidas e aspectos do que hoje chamaríamos de subúrbio romano. As distinções classistas são bem evidentes quando constrastadas as mansões dos romanos ricos e poderosos com as casas pobres e rústicas da plebe em geral.

Do ponto de vista histórico-político, há os debates no Senado com ponto alto para os discursos do célebre filósofo Cícero, os pronunciamentos oficiais em praça pública e as artimanhas e estrategemas políticos engendrados a favor e contra Júlio César, sem dúvida a grande figura histórica da série. Também as formas de manipulação das massas e de alteração e/ou combinação de resultados eleitorais não passam despercebidas. Até mesmo um julgamento nos moldes do direito romano republicano é nela retratado com fidelidade.

Do ponto de vista histórico-material, há minúcias do dia-a-dia romano de então, algumas delas, confesso, desconhecidas para mim. As cenas de sexo não chegam a ser explícitas, mas são bastante incisivas. Os lugares onde os casais se relacionam são bem precários e o sexo praticado bastante animalesco na maioria dos casos. Entretanto, há uma curiosidade que me chamou a atenção: os romanos endinheirados do patriciado copulavam na presença de seus escravos sem o menor constrangimento e esses últimos ficavam à espera para fornecer as roupas e fazer a limpeza após o orgasmo de seus amos. As relações no filme são quase todas heterossexuais, embora haja um romance lésbico entre duas aristocratas. A homosexualidade masculina é apenas insinuada, contudo, a série demonstra haver certa aceitação social da mesma (assim como da feminina), bastante fiel às características daquele período histórico. Como se sabe, as práticas sexuais referidas eram amplamente aceitas entre gregos e romanos e somente foram consideradas moralmente condenáveis na civilização judaico-cristã.

Outras curiosidades dignas de nota: a existência de um submundo extra-oficial com práticas do que hoje chamaríamos de gangsterismo; "donos" do pedaço cobrando proteção dos cidadãos indefesos, principalmente os mais pobres; a honra legionária e a lealdade existente entre os membros de uma determinada legião vitoriosa, a ponto de serem encarados quase como uma irmandade; a desigualdade entre os sexos com a conseqüente submissão feminina. Há até uma cena de uma cirurgia no crânio sem anestesia (incrível essa) mostrada com uma crueza admirável. O assassinato de Júlio César também é mostrado sem retoques ou romantização, inclusive sem aquele piegas "Até tu, Brutus", que se tornou lendariamente significativo desse momento.

O ponto fraco, a meu ver, é a ausência quase completa de cenas de batalha. As que são mostradas partem de uma angulação de câmeras bem próxima, o que deixa uma digladiação entre exércitos parecer uma briga de poucos soldados. Contudo, pelo que se fala, parece que foi problema de caixa. Sem isso, a série já custou US$ 100 milhões (a mais cara até agora), imaginem se ainda incluíssem conflitos épicos.

Excelente série, apesar disso. Vale a pena. Eu já estou louco para ver a segunda temporada.

*Lembro a todos que ditador na Roma republicana era um comandante designado para governar com poderes amplos durante um período de tempo pré-determinado (normalmente seis meses) com aprovação do Senado, nada tendo a ver com o que se concebe por ditadura nas eras moderna e contemporânea.

Um comentário:

Anônimo disse...

Excelente série e tudo muito bem observado