segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Revolução Russa: 90 anos depois

Não poderia deixar findar o ano sem comentar o noventenário de um dos mais importantes acontecimentos do século passado, quiçá da história da humanidade: a Revolução Russa de 1917. Para o bem ou para o mal, é impossível ignorar a influência e os importantes desdobramentos da história contemporânea diante desse grande movimento político que culminou na criação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e serviu como lumiar ideológico para milhões de pessoas em todo o mundo.

Trata-se de um grande levante popular que provocou uma drástica ruptura com o modelo de Estado então predominante. Tal movimento composto por diversas tendências ideológicas, terminou por ser capitaneado pelos bolcheviques, mais disciplinados e organizados, liderados por Vladimir Lênin que se tornaram a "vanguarda" revolucionária, tomando o poder para si. Com o esmagamento da contra-revolução, Lênin e os bolcheviques começaram a construção de um modelo de Estado calcado nos princípios socialistas marxistas interpretados e condicionados à teoria leninista.

Parecia que finalmente a burguesia sucumbira e era inaugurada a primeira experiência socialista no mundo. Um Estado voltado aos anseios da classe trabalhadora que promoveria a igualdade e a fraternidade entre os homens sem as odiosas diferenças de classes sociais, caracterizadoras do capitalismo liberal e dos demais sistemas político-econômicos. Uma sociedade sem opressores nem oprimidos.

Entretanto, a profecia marxista não se realizou. Ao invés de se encaminhar para uma extinção do Estado (que seria o verdadeiro comunismo), verificou-se o seu fortalecimento, até pela situação de isolamento que a Rússia, e posteriormente União Soviética, passa a sofrer (internacionalismo revolucionário de Trotsky x socialismo em um só país de Stalin). A vitória da revolução proletária não se deu em um país de capitalismo liberal avançado como Reino Unido ou França, mas na atrasada e semi-feudal Rússia, um dos países que, segundo o próprio Marx, menos teria condições de fazê-la. A revolução não se espalhou no mundo ("proletários de todos os países, uni-vos", dizia Marx) e o que tivemos foi a ascensão de tendências totalitárias de direita, como o nazi-fascismo que se alastrou pela Europa. Somente com a vitória na 2a. Guerra Mundial, a URSS pôde alastrar sua influência pelos países do leste europeu e de outros continentes (China de Mao Tsé-Tung, Cuba de Fidel Castro, Vietnã de Ho Chi Minh), no primeiro caso, devido ao importante papel do Exército Vermelho na libertação dos países dominados pelos nazistas.

Também a generosa utopia de Marx não foi alcançada pelos Estados socialistas. O sonho igualitário terminou por tornar-se tenebroso pesadelo totalitário, sufocando a crítica, a oposição e o dissenso. O que Lênin afirmara ser um estado transitório de terror revolucionário torna-se permanente com o gangsterismo político de Iosif Stalin, a partir do momento em que este ascende ao poder na URSS. O stalinismo é um dos períodos mais trágicos da história do comunismo, responsável diretamente pela morte de mais de 20 milhões de pessoas, nas estatísticas mais generosas para com seu mentor. O ditador soviético é, em números absolutos, o governante que mais matou seres humanos na História.

Depois vieram Mao Tsé-Tung na China com episódios terríveis como a Revolução Cultural, Enver Hoxha na Albânia, o tenebroso STASI alemão oriental, a tragédia humana no Camboja de Pol Pot (eliminou 20% da população cambojana entre 1975 e 1979).

A pergunta que nunca cala: como pôde uma doutrina generosa e humanista ter descambado para a produção de tantas e tão freqüentes tragédias? Seria o caso de doutrina apenas aparentemente libertária, mas trazendo em sua essência novas formas de autoritarismo e opressão? Seria o caso de distorção da teoria marxista pelos marxistas "práticos"? O marxismo então não seria mais do que uma utopia?

Por ora, parece que sim. As revoluções feitas em nome do marxismo degeneraram em regimes políticos totalitários prometendo justiça social em lugar da liberdade e não alcançando afinal nem um dos dois. Trocar liberdade por igualdade não parece um bom negócio em nenhuma circunstância. Os regimes em questão formaram novas burocracias e novas classes dominantes em lugar das antigas, perpetrando a dominação classista, paradoxalmente disfarçada de Estado proletário. Quem dissentisse era simplesmente eliminado, como foi a quase toda a velha guarda bolchevique nos anos stalinistas. No final, nem liberdade, nem igualdade, apenas o terror e o Estado policial.

Por outro lado, diferentemente do que ocorreu com o nazismo, em que já no Mein Kampf de Hitler havia claramente uma pregação anti-semita, nada nos escritos de Karl Marx justifica a carnificina feita pelos seus adeptos em nome dos seus ideais. Por essa razão é que vejo o marxismo como uma utopia, apesar da insistência em se afirmar como socialismo "científico".

De positivo, é importante frisar que a Revolução Russa trouxe concretamente para a agenda mundial o combate à deisgualdade social. Keynes e os artífices do welfare state devem muito à célebre revolução cujos ventos influenciam o enfraquecimento do liberalismo econômico e sua substituição pela idéia de um Estado de bem estar social, ainda capitalista, mas não mais liberal ortodoxo. Nem os EUA escaparam incólumes do welfare state, que o digam as políticas sociais do new deal de Franklin Roosevelt.

E é a partir daí que tais idéias associadas à autêntica social democracia promovem um modelo estatal que procura conciliar liberdade e igualdade e que até o momento são as experiências humanas mais bem sucedidas em alcançar progresso econômico e social com liberdade e qualidade de vida, haja visto o exemplo dos países nórdicos europeus como Suécia, Noruega e Dinamarca.

Aos socialistas saudosistas, ficam as imagens da antiga URSS ao som do hino russo-soviético, cuja melodia de tão bela que é, foi mantida pela atual Federação Russa, apesar da mudança na letra: http://www.youtube.com/watch?v=GChyobt8Cpo. A mim agrada mais o "vento da mudança" da linda canção dos Scorpions, em bela versão com orquestra (na Praça Vermelha/Moscou, palco da Revolução de 1917): http://www.youtube.com/watch?v=HxobuyB4H38&feature=related.

FELIZ 2008 A TODOS. MUITA PAZ, SAÚDE E FELICIDADE.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Stanley Kubrick V: Doutor Fantástico (ou de como parei de me preocupar e amar a bomba)



Já estava com saudades de falar sobre cinema. Nada melhor do que voltar à tona com mais um filme do grande Kubrick. Desta vez, fico com o genial filme intitulado "Dr. Strangelove (or How I learned to stop worrying and love the bomb)" que recebeu no Brasil o título de "Doutor Fantástico". Foi baseado no livro "Alerta Vermelho", de 1958, de autoria do ex-tenente da RAF (Royal Air Force) britânica Peter George.

Trata-se de uma comédia sarcástica, puro humor negro, e acima de tudo bombástica, considerando que aqui Kubrick brinca não somente com fogo, mas com armas nucleares. O filme é em preto e branco e data de 1963, em pleno auge da Guerra Fria e com a lembrança recente de episódios como a Crise dos Mísseis em Cuba. Fazer um filme como esses, satirizando com humor o horror e a insanidade de uma guerra do gênero somente com muita ousadia, o que nunca faltou ao célebre diretor novaiorquino.

No início dos anos 60, um general do alto comando das Forças Armadas norte-americanas enlouquecido com a paranóia anticomunista ordena um ataque à União Soviética. Ao fazê-lo, torna os aviões e a base militar incomunicáveis, o que gera um alerta de emergência na Casa Branca e no restante do alto comando militar. O Presidente dos EUA precisará entrar em contato com o premiê soviético com a finalidade de tentar fazer voltar ou mesmo abater seus próprios aviões para evitar a guerra nuclear, apesar da resistência de vários oficiais norte-americanos paranoicamente anticomunistas.

Tudo isso é mostrado com incrível bom humor e sarcasmo, principalmente pela atuação espetacular de Peter Sellers em três papéis distintos: o Capitão Mandrake, assistente do general enlouquecido, o Presidente dos EUA e o próprio Dr. Fantástico, um ex-cientista alemão nazista cooptado pelos norte-americanos e conselheiro da Casa Branca. A cena do Presidente estadunidense discutindo com o premiê soviético completamente embriagado é hilária, bem como a afetação do Dr. Strangelove. A cena final da destruição nuclear em massa com o acionamento da Máquina do Juízo Final é de uma ironia inteligentíssima, como poucos diretores souberam fazer na história do cinema.

Com a película, Kubrick traz à reflexão temas complexos e delicados para o tempo em que filmou: a insanidade de uma guerra nuclear, os riscos latentes e desesperadores da Guerra Fria, a cooptação de cientistas nazistas pelos EUA, o fanatismo dos anticomunistas capitaneados pelo macarthismo e o mais assustador: o perfil de muitos dos responsáveis por decisões tão drásticas a respeito. Oficias militares da época chegaram a comentar sem se identificarem, por óbvio, que muitos dos altos comandantes militares norte-americanos eram exatamente como exibido no filme. Isso para não falar nas convocações de Kubrick a prestar esclarecimentos ao Estado de como obtivera tantas e tão precisas informações sobre as forças armadas que, em tese, deveriam ser absolutamente sigilosas. O célebre diretor nunca se pronunciou publicamente a respeito.

Às vezes, confesso, possuo as mesmas apreensões de Kubrick sobre a (in)sanidade dos líderes e sua (in)capacidade para lidar com questões tão problemáticas. Será que o mundo mudou muito em relação a isso?

Enfim, mais um grandioso clássico da filmografia do velho Stanley, obra-prima e capítulo especial da história da sétima arte. Bom demais.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Comentando os comentários sobre a CPMF

Semanas atrás opinei neste blog sobre a CPMF antes de sua prorrogação ser derrotada no Senado Federal. Acreditava e continuo acreditando que o problema tributário no Brasil é a sua alta carga fiscal como um todo e não a CPMF como tributo em particular, considerando que a última é um dos tributos menos injustos, considerando seu alcance e sua praticamente impossibilidade de sonegação. Dois leitores fizeram comentários, ambos contrários à minha opinião e nenhum dos dois quis se identificar. Gostaria de utilizá-los como exemplo para o que sempre digo aqui em defesa da aceitabilidade e tolerância com o dissenso e a divergência de posicionamentos, para mim, essência da democracia.

O primeiro leitor discordou de minha opinião de forma civilizada e sem qualquer ataque à minha pessoa, rebatendo meus argumentos com outros igualmente sólidos (quiçá até mais do que os meus), refletindo, como procuro aqui fazer, não em relação a este ou aquele governo específico, mas se o referido tributo é institucionalmente bom ou não para o país. O segundo, ao contrário, partiu para o ataque pessoal e corporativo (já que disse que os professores da Faculdade são todos "chumbetas" de Lula) sem apresentar qualquer argumento consistente ou até mesmo infundado.

Como podem perceber, este blog é um espaço de liberdade de expressão, inclusive dos que discordam de mim e é por isso que publico seus comentários. Para mim, isso é essencial, democracia é sobretudo administrar o dissenso. Porém, infelizmente, nem todos possuem o mesmo espírito de tolerância e diálogo e tentam logo desqualificar o interlocutor, posto que não conseguem rebater seus argumentos. Partem logo para o maniqueísmo puro do tipo "quem não é por mim, é contra mim", distorcendo o contexto bíblico e transformando-o nas razões do lobo da fábula de Fontaine.

Ora, todos os que acompanham este blog sabem que votei em Lula e nunca escondi isso. Todavia, isso não me coloca como alguém que tenha que aceitar tudo o que seu governo faça. Como sou apenas um simples Professor universitário e não tenho quaisquer pretensões de candidatura nem mesmo a síndico do meu prédio, analiso os fatos políticos e jurídicos a partir de uma visão institucional republicana, democrática e humanista e não associada a um ou outro governo. Se observarem as postagens anteriores, paradoxalmente, há muito mais delas criticando o governo Lula do que o aplaudindo, só que sem maniqueísmos. Reconheço muitas virtudes em seu governo, assim como também vejo inúmeros defeitos. O mesmo vale para o governo FHC que, aliás, foi o criador da CPMF (acho que o segundo leitor deve estar convenientemente "esquecido" disso). Ou seja, não sou nem lulista, nem anti-Lula, tenho minhas próprias opiniões (as opiniões não me têm) e se convencido do oposto, não hesito nem um pouco em mudá-las.

É preciso, caro amigo, analisar os fatos sem preconceitos e ter humildade de reconhecer que nem sempre acertamos e só o diálogo franco e aberto, tolerante e respeitoso quanto ao dissenso, pode fazer avançar uma sociedade realmente democrática. Se não aceita minhas palavras, reflita sobre o que escreveu Igor Gielow, em sua coluna de hoje no Jornal Folha de São Paulo:

"Apocalípticos e integrados

O maniqueísmo é um traço perene da humanidade, fazendo companhia à compaixão e à crueldade, por mais que seja açoitado por sistemas filosóficos aqui e ali. De que adiantaram contra ele todas as cabalas, os iluminismos, os tratados alquímicos, toda uma Era da Razão? Pouco, e ganhamos de brinde bastardos desses movimentos, como o obscurantismo religioso e o materialismo histórico. Com isso, avançamos a primeira década do novo século montados sobre os cadáveres que o "se não está comigo, é contra mim" nos legou.

Ou somos partidários da "guerra ao terror", ou defendemos o multiculturalismo e a soberania dos povos. Só que a primeira posição pode significar tanto a defesa de algum dos melhores valores que o homem concebeu quanto aplaudir Abu Ghraib. E apoiar a segunda leva tanto à crença na diversidade do processo histórico quanto à elegia do Taleban.

O cinza não é bem-vindo ao debate, e o que se vê é a redução do mundo aos prós e contras. A Europa federal é para uns um polvo kafkiano emanando tentáculos burocráticos de Bruxelas para cada instância da vida civil; para outros, um manancial de civilização com euros suficientes para pagar os eventuais estragos. Putin é o salvador da Rússia ou uma espécie de anticristo. A China, um monstro ou um modelo. Os EUA, o império decadente ou o farol do mundo.

E o Brasil? Como grandes questões passam só de raspão por aqui, nos contentamos com uma versão comezinha do maniqueísmo: ou somos lulistas, ou não o somos. Ser leva a acreditar que "nunca antes na história deste país" estivemos tão bem. Não ser significa negação sistemática de eventuais méritos. Lula ou é visto como um parvo, ou como "nosso guia". Tentar achar o meio-termo, que costuma ser a medida ideal, é um esforço quase inútil. O consolo residual é que miséria gosta de companhia: não estamos sós."

É isso aí.

sábado, 22 de dezembro de 2007

Religião também se discute: Jesus para além do cristianismo


Final de ano, festa natalina, supostamente religiosa (nascimento de Jesus), com poucos lembrando do aniversariante (que tudo indica, também não aniversaria nesta data), mas todos aguardando o Papai Noel, os presentes e o lado profano da comemoração. Tudo isso me inspirou a refletir sobre o diálogo interreligioso para além do próprio cristianismo ocidental.

É comum se dizer que futebol, religião e política não se discute. Embora eu admita que cada um tenha suas preferências e tendências (e eu não sou diferente nisso), creio que se discute sim. Já falei das três coisas aqui, embora pela natureza do blog os debates versam mais sobre política, uma ou outra discussão futebolística, mas raras discussões religiosas. Talvez isso ocorra por que como religião é algo que diz respeito a fundamentos do próprio ser espiritual de cada um, o que ocasiona por vezes extremismos e fundamentalismos de toda ordem quando a religião deixa de ser vista como um caminho para Deus e para a realização do espírito e passa a ser encarada como a própria lei divina a ser implementada à força. Por isso debater religião é sempre mais delicado, todavia nem por isso menos necessário.

Creio que o pressuposto de todo debate religioso fecundo deva ser a humildade e a tolerância recíprocas. Se eu considero uma determinada religião superior às demais nos seus fundamentos, é normal que eu a professe. Entretanto, é necessário que eu também admita a possibilidade de estar equivocado e que meu irmão de outra religião ou até sem religião possa estar certo. Dificilmente estamos certos ou errados em tudo e a disposição socrática ("só sei que nada sei") de admitir isso é o primeiro passo para avançarmos em fraternidade e compreensão mútuas.

A religião, qualquer que seja ela, pode conduzir a muitas coisas boas, quando, por exemplo, ao abraçar causas religiosas, as pessoas fazem da solidariedade e do amor ao próximo a razão de sua própria vida e agem de acordo com isso. Veja-se o belo trabalho de missionários religiosos que, ao levarem alento espiritual aos seus irmãos sofridos, levam também alimentos, remédios, esperança e calor humano.

Por outro lado, a religião, qualquer que seja ela, quando se torna uma prática extremista e intolerante do tipo "só a minha religião é a correta", "quem não é da minha religião irá para o inferno" ou ainda "você tem que se converter" (e tem gente que esgota a paciência de qualquer um com isso) pode produzir as piores coisas. É justamente esse tipo de religião militante extremada que produz, por exemplo, os terroristas islâmicos suicidas. Mas não somente o Islã possui tais fanáticos. O cristianismo medieval e contemporâneo produziu e produz muitos desses, embora raramente suicidas. A intolerância da inquisição católica e a caça aos "idólatras demoníacos" por parte do protestantismo são exemplos disso no cristianismo, assim como a ortodoxia de muitos judeus exclusivistas levando a extremos as teorias do "povo eleito". Até mesmo o ateísmo militante de um Christopher Hitchens, por exemplo, se torna uma espécie de religião às avessas, como se viu em países socialistas que, ao mesmo tempo em que repetiam Marx afirmando ser a religião o "ópio do povo", criavam novos ícones em lugar dos velhos com os cultos à personalidade dos líderes, sendo uma verdadeira religião sem Deus.

Daí eu ter feito referência à importância de se ter humildade e tolerância. Ser humilde para reconhecer que posso estar errado e ser tolerante para, ainda que eu esteja certo e convicto disso, o meu irmão tem todo o direito de estar errado e eu não posso condená-lo por isso.

A religião é ambígua como a própria humanidade. Ao lado de belas páginas de sabedoria e espiritualidade, vejo na Bíblia e no Alcorão muitas outras de violência e intolerância. Enquanto alguns utilizam esses escritos para demonstrar que seu humanismo e sua solidariedade emanam de Deus, outros fundamentam suas "guerras santas" nos mesmos escritos. Por isso que os mesmos não podem ser interpretados de forma literal, até por que os originais se perderam no tempo e só para ficar em um exemplo, as cópias mais antigas dos textos bíblicos datam do século IV depois de Cristo, o que significa que temos pelo menos 300 anos de distância temporal entre os acontecimentos e o que está nos textos, para não falar nas sempre possíveis manipulações ao longo do tempo e, ainda que os tradutores tenham tido extrema boa-fé, nas mudanças semânticas e pragmáticas que tais palavras sofrem no tempo e na tradução de um idioma para o outro.

Já fui católico, hoje não professo nenhuma religião específica, embora atualmente tenha grande admiração por muitos dos ensinamentos do budismo e do xintoísmo, sem, no entanto, me sentir à vontade de me rotular como fiel de uma delas (aliás, não me aprisiono muito a rótulos). Mas já que o Natal é, em tese, a comemoração do aniversário de Jesus, vale a pena considerar seu exemplo: embora nascido judeu, sua mensagem foi universalista e holística sem fazer acepção de pessoas; tratou com a mesma consideração judeus, romanos, samaritanos e demais nacionais, homens, mulheres, crianças, olhando o valor espiritual de cada um deles e não se estavam indo ao templo ou cumprindo os rituais dos cultos religiosos; se agiam conforme a própria fé ou se esta era só da "boca para fora" ("nem todo o que diz: "Senhor! Senhor!", entrará no Reino dos Céus, mas o que faz a vontade de meu Pai, este entrará no Reino dos Céus" - Mt 7, 21).

Se o cristianismo histórico deturpou muito a mensagem de Jesus de Nazaré, penso que muito do exemplo e das palavras sábias desse grande Homem (sem adentrar o mérito se ele era ou não filho de Deus) deveriam ecoar como alento espiritual de encontro pessoal com Deus e o Infinito, mais do que promoverem ritualismos estéreis ou militâncias religiosas arrogantes.

"Esse povo me louva com os lábios, mas o seu coração está distante de mim" (Mt 15, 8).

domingo, 16 de dezembro de 2007

As "pérolas" da censura no Brasil

Aos que porventura tenham saudades da ditadura militar brasileira ou os que, por outro lado, não viveram aqueles anos, mas acreditam que a seriedade e a moralidade eram maiores, coloco neste espaço alguns dados interessantes colhidos pela pesquisadora Leonor Souza Pinto em torno da atuação da censura no Brasil entre 1964 e 1988. Após 10 anos de análises nos processos de censura guardados no Arquivo Nacional de Brasília, as suas pesquisas em uma amostra de 269 filmes estão expostas no site http://www.memoriacinebr.com.br/, onde os leitores que queiram mais detalhes poderão obtê-los.

Algumas curiosidades: o cineasta mais perseguido pelos censores não foi nenhum grande contestador político (ao menos de forma mais direta) e sim ninguém menos que José Mojica Marins, o "Zé do Caixão", tendo enfrentado interdições em sete dos seus filmes. Caso extremamente curioso é relatado por ele quando afirma que várias cenas anteriormente cortadas pela censura foram por ele recolhidas e expostas no filme "Delírios de um Anormal" e - pasmem - este último foi liberado sem cortes (para se ver como a censura era "lógica e coerente" em sua atuação). Vejamos outras curiosidades pelo gênero e os porquês de suas reprovações pelos censores.

1) DRAMAS ERÓTICOS

A ILHA DOS PRAZERES PROIBIDOS, de Carlos Reichenbach

Síntese: aventuras de uma jornalista em uma ilha, liberadas com cortes em uma cena de sexo.

Avaliação da censura em 08/01/1979: "(cortar) relação sexual entre Sérgio e Ana (...). Retirar tomada em que Sérgio deitado sobre Ana rola e a coloca por cima (...). Retirar tomada que apresenta Ana montada sobre Sérgio, permanecendo as tomadas que ele a despe".

OS HOMENS QUE EU TIVE, de Tereza Trautman

Síntese: filme de 1973 em que uma mulher (Darlene Glória) tem relacionamento com vários homens. Após 3 semanas em cartaz, foi proibido pelo General Antonio Bandeira, então Diretor Geral da Polícia Federal, sendo liberado somente seis anos depois.

Avaliação pelo Censor José Ferraz em 23/05/1975: "Filme amoral, pornográfico, debochado, cínico, obsceno, que tenta com enredo mal feito justificar a vida irregular da mulher prostituída. É um libelo contra a instituição do casamento, considerando como tal as investidas desregradas da insaciável mulher".

2) TERROR

ESTA NOITE ENCARNAREI NO TEU CADÁVER, de José Mojica Marins

Síntese: estória de um homem que seqüestra mulheres em buca da companheira perfeita. Proibido em 1966, liberado apenas em 1987, com cortes e classificação etária 14 anos.

Avaliação da Censora Jacira Oliveira em 18/11/1966: "Se não fugisse à minha alçada, seria o caso de sugerir a prisão do produtor pelo assassinato à sétima arte, pois não foi outra coisa que ele realizou ao rodar o presente "filme". (...) Nus, cenas de ataques sexuais, terror etc. são a constante que, a meu ver, não possibilitam a liberação da referida "película"".

O DESPERTAR DA BESTA, de José Mojica Marins

Síntese: psiquiatra que faz experiências regadas a drogas e sexo, foi rejeitado duas vezes pela censura, em 1970 (com o nome de "Ritual dos Sádicos") e em 1982.

Avaliação do censor Osmar Fialho em 09/10/1970: "A irrealidade do filme é manifesta e o seu apelo às manifestações sexuais anormais é evidente. A divulgação do vício e dos seus efeitos alucinatórios (...) resultam em mensagens de incitamento experimental. (...) O filme não apresenta atenuantes. (...) O mínimo que se pode sugerir para um espetáculo tão imoral e degradante é completa INTERDIÇÃO".

3) PORNÔS

O BEIJO DA MULHER PIRANHA, de Jean Garret

Síntese: aproveitando o sucesso de "O Beijo da Mulher Aranha", o diretor cria uma mulher que se excita com um peixe. Banido pela censura, conseguiu liberação por liminar judicial.

Avaliação do Censor Dalmo Paixão em 09/05/1986: "Trata-se de filme pornográfico em que seus realizadores se gabam de haver introduzido inovações no gênero: o emprego de peixes na excitação sexual e o uso de pênis artificial acionado por máquina de lavar roupa. (...) Opinamos pelo veto ao filme (...) por contrariar os bons costumes".

OSCARALHO - O OSCAR DO SEXO EXPLÍCITO, de José Miziara

Síntese: cenas de sexo são intercaladas com entrega de prêmios para atores pornô.

Avaliação da censura em 09/09/1986: "Variedade de seqüência de práticas libidinosas, as quais são mostradas em detalhes sob as mais diversas angulações, colocando em close os órgãos genitais masculinos e femininos".

Digo logo aos leitores que não assisti (nem pretendo) nenhum dos filmes acima. Acho até que devem ser de péssimo gosto e como há um monte de filmes bons que ainda não vi, prefiro não perder meu tempo.

Porém, não abro mão da minha liberdade em decidir fazê-lo ou não. Cada um deve decidir isso por si próprio e não sermos tutelados por quem quer que seja até no nosso bom ou mau gosto, com essas "pérolas" de falso moralismo (enquanto isso, opositores políticos eram perseguidos, torturados e mortos pelos mesmos guardiões da "moral e dos bons costumes").

Ainda bem que são tempos idos. CENSURA NUNCA MAIS.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Ainda falando em música, duvido que alguém que esteja estressado e/ou depressivo não consiga mudar de ânimo e viver um "moment of peace" ao ouvir Sarah Brightman em dueto com os Monges do Canto Gregoriano. Em http://www.youtube.com/watch?v=wHMLs8lIFA4 parece que mais uma vez se ouve a(s) voz(es) de Deus.

domingo, 9 de dezembro de 2007

Gotan Project e Yann Tiersen: música de qualidade sempre se renova





Embora seja lugar comum dizer-se que gosto não se discute, possuo opinião diversa: acho que se discute sim, desde que possamos diferenciar qualidade musical em seus fundamentos de outras coisas como, por exemplo, as emoções ligadas a esta ou aquela canção que ouvimos, o que pode trazer sentimentos distintos aos que as ouvem. Eu mesmo me emociono quando escuto nesses revivals dos anos 80 a canção "Superfantástico" do Balão Mágico, grupo infantil dessa época; lembra minha infância, mas não poderia dizer que é uma obra-prima da música popular. O mesmo pode acontecer quando reconhecemos a grande qualidade musical de um artista que não seja de nosso tempo e ainda que isso não nos desperte grandes emoções.

Apesar de já ter passado dos 30, pelo menos em um aspecto acho que sou totalmente teen: não suporto aquelas conversas de gente da minha idade ou mais velha dizendo que as músicas da atualidade (assim como as coisas em geral) não prestam, que no "meu tempo" é que havia qualidade musical, hoje só se faz música comercial etc. Para mim, boa música é sempre boa, seja um hit do momento ou uma canção escrita há dez, vinte, quarenta ou duzentos anos atrás. Gosto de Bach e Mozart, assim como de Villa-Lobos, Cartola, Mutantes, Caetano Veloso, Beatles, Scorpions, U2, Guns'N'Roses, Legião Urbana, Marisa Monte, Chico Science, Keane, Los Hermanos e Vanessa da Mata. E é com esse espírito que busco ouvir e ver as novidades (algumas não tão "novidades" assim), embora hoje em dia eu não tenha mais o tempo que outrora tinha para ficar horas em uma loja de CDs ouvindo um monte deles (sendo um pouco saudosista: como eu gostava de fazer isso!).

Recentemente fiz duas grandes "descobertas" musicais que me agradaram bastante.

Uma foi a do grupo musical Gotan Project. Criadores do chamado "tango eletrônico", os membros do grupo fazem um som profundamente inovador, mesclando as raízes do tango com elementos do jazz contemporâneo e da batida eletrônica dos DJs. Os puristas do tango argentino muitas vezes os criticam, mas para mim o que eles fazem é uma verdadeira declaração de amor a esse belíssimo estilo musical de nuestros hermanos. O curioso é que apenas o guitarrista Eduardo Makaroff é argentino, os outros dois são o músico suíço Christoph Müller e o DJ francês Phillip Solal. Os 3 são amigos e se juntaram em Paris com a proposta de unir a música de Astor Piazzolla à textura eletrônica do acid jazz, combinados também com elementos de música gaucha argentina (principalmente no CD Lunático, um pouco menos no La Revancha del Tango). O nome "gotan" é tango com as sílabas invertidas, como na gíria portenha. O resultado é maravilhoso, quem quiser conferir, veja http://www.youtube.com/watch?v=wZk-LJ_KCMg e também http://www.youtube.com/watch?v=3zD9W9SZj9w.

Outra foi a do músico multi-instrumentista francês Yann Tiersen. Já conhecia algumas músicas suas, mais particularmente as das trilhas sonoras de "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain" e de "Adeus Lênin", mas não sabia que eram dele. Por curiosidade, fui atrás e descobri um músico fantástico, extremamente versátil e tocando piano, violino e acordeon com desenvoltura ímpar, além de compor para esses 3 instrumentos. De estilo minimalista e um tanto melancólico, lembra um pouco a música de Yanni, mesclada com elementos de rock e música européia em geral. Há momentos que parece uma reencarnação de Chopin compondo nos dias atuais. E apesar de ainda relativamente jovem (37 anos), o músico francês já possui 13 CDs lançados e várias músicas em trilhas sonoras de filmes (a de "Adeus Lênin" é lindíssima), além de parcerias musicais muito boas. Quem quiser conferir, veja http://www.youtube.com/watch?v=o8lPEgqE16o e também http://www.youtube.com/watch?v=8nrI2ttkM-U&feature=related.

Enfim, músicas de qualidade sempre existem em todo tempo e lugar e são as vozes dos anjos/deuses para os ouvidos, o espírito e a alma.

CPMF: um tributo justo

Em algumas oportunidades, já critiquei a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF), principalmente por aumentar a carga tributária brasileira, que é demasiadamente alta para o Estado que nós efetivamente temos e os serviços prestados por ele aos cidadãos que dele necessitam. Em um país com o perfil do "Ingana" (expressão de Roberto Campos para afirmar que o Brasil possui tributação da Inglaterra com serviços públicos de Gana), qualquer aumento na tributação é mal visto. De fato, a relação carga tributária/PIB no Brasil chega próxima aos 40%, tendo aumentado mais de 10% nos anos FHC/Lula. Essa relação é um pouco inferior à existente nos Estados sociais europeus, mas a diferença quanto à prestação dos serviços públicos... creio ser desnecessário falar, isso todos nós sabemos e sentimos na pele.

Entretanto, revi minha posição inicial. Outrora quando reclamei da CPMF, parece que estava equivocado, pois se tratava de uma reclamação contra a excessiva carga tributária em geral e não em relação ao referido tributo em particular. De fato, para quem já paga tantos tributos, ainda ter que pagar CPMF é terrível. Mas analisando de forma mais ponderada, a CPMF não é um tributo ruim. Ao contrário, estou convencido atualmente de que ela é um tributo bem mais justo do que a maioria dos existentes no nosso sistema e possui inúmeras vantagens: é difícil de sonegar, atinge a circulação de renda formal e informal, tributa mais quem movimenta mais recursos, propicia boa e simplificada arrecadação para o Estado e permite à Receita Federal um maior acesso a possíveis movimentações ilegais de recursos, facilitando as investigações não somente em relação à sonegação fiscal, mas ao cometimento de crimes os mais diversos, notadamente contra o sistema financeiro, a economia popular, "lavagem de dinheiro" e congêneres.

Através do cruzamento de dados da declarações tributárias com a movimentação financeira, a Receita Federal apurou por exemplo que dos 100 maiores contribuintes da CPMF, 62 jamais haviam pago Imposto de Renda e que existia microempresa - que para ser micro, não poderia movimentar mais de R$ 120 mil/ano - movimentando R$ 100 milhões/ano. O simples cruzamento de tais informações quase triplicou a arrecadação.

Na verdade, adequado seria discutirmos uma ampla reforma do sistema tributário nacional no sentido de uma simplificação do sistema, diminuição da carga tributária em geral sem comprometimento da arrecadação necessária à melhoria da prestação dos serviços públicos. Infelizmente, esse debate não avança, pois cada um que defenda uma reforma apenas para contemplar seus próprios interesses e não em razão de uma racionalização do sistema. Nesse contexto, seria razoável manter a CPMF, talvez até tornando-a permanente, e reduzir alíquotas de outros tributos, por exemplo, desonerando a tributação em torno das folhas de pagamento das empresas (o que, em tese, poderia tornar menor o custo de um trabalhador para o empresário e incentivar a contratação formal), além do próprio Imposto de Renda que poderia ter mais alíquotas diferenciadas em relação à faixa de renda, observando a questão da progressividade.

Atualmente, penso que a CPMF é um tributo mais justo do que a maioria deles e que o grande problema da tributação no Brasil não é a CPMF e sim que pagamos muitos tributos (de cabeça: II, IE, IR, IPI, IOF, ITR, ICMS, IPVA, IPTU, ITCMD, ITBI, ISS, CSLL, PIS, COFINS, CIDEs etc.), considerando os serviços que o Estado nos presta. Interessante que não vejo o grande empresariado se mobilizar com a mesma veemência em relação ao IRPJ (Imposto de Renda de Pessoa Jurídica) ou as contribuições sobre as folhas de pagamento como o fazem contra a CPMF. Sem querer dizer que todos sejam sonegadores, mas que dá essa impressão diante da dificuldade de se sonegar CPMF em detrimento da relativa facilidade em relação a esses outros tributos, isso dá.

De minha parte, preferiria pagar CPMF e ver reduzida a alíquota do IR, assim como daqueles outros tributos que oneram as folhas de pagamento das empresas. Mas isso só com uma reforma tributária efetiva que, ao que parece, nenhum governo deseja fazer, pois desde FHC se fala nela e tanto o anterior Presidente como o atual parecem querer apenas "tocar o barco", sem criar de fato uma solução mais definitiva e racional para os problemas tributários brasileiros.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Em seu blog Acerto de Contas (http://www.acertodecontas.blog.br/), o meu amigo e colega Prof. da UFPE Pierre Lucena postou a seguinte indagação acerca do resultado do referendo na Venezuela:

"ditador?
Perguntar não ofende

Se Hugo Chavez era um ditador, por que submeteu e aceitou um resultado desfavorável em um plebiscito?
Será que a imprensa vai continuar insistindo nisso?"

Não resisti e lá fiz o seguinte comentário:

"Amigo Pierre, permita-me a discordância: submeter-se a um referendo não desnatura o autoritarismo presente nas ações do Governo Chávez. O mesmo buscava legitimar uma ampla mudança constitucional que tinha por escopo fortalecer desmedidamente o poder executivo em detrimento dos demais. Escrevi sobre isso em meu blog. A Venezuela estava caminhando para uma ditadura cesarista (conceito que tb. já discuti no blog e em artigo publicado em periódico científico - Revista da Faculdade de Direito de Caruaru, vol. 36, 2005, intitulado "Entre os Sonhos de Rosa Luxemburg e a Realidade de Erich Honecker - Para Não Esquecer as Lições da Antiga República Democrática Alemã"), talvez ainda esteja, mas o resultado do referendo demonstrou que o regime democrático ainda subsiste lá e que, embora a maior parte da sociedade apóie as políticas sociais de Chávez (o que explica a sua popularidadediante de tantas décadas de desmandos e concentração de renda perpetradas pelas elites da Venezuela - parece sina da América Latina), discorda entretanto da perpetuação de sua figura no poder.

No Brasil, recente pesquisa do Datafolha afirma o mesmo em relação ao Presidente Lula: a maioria da população aprova seu governo, mas não concorda com a alteração da Constituição para permitir-lhe um 3o. mandato. Lembrando Bobbio, são as regras do jogo, meu caro, e merecem ser preservadas.

Chávez é autoritário, a Venezuela não. Por enquanto, com todos os problemas, permanece uma democracia. Ao menos eleições livres e liberdade de manifestação do pensamento como componentes básicos de um Estado democrático de direito ainda compõem o arquétipo político venezuelano."

Em tempo: o Acerto de Contas é um dos melhores blogs sobre atualidades em política e economia, mantido pelos meus amigos Pierre Lucena e Marco Bahé. Vale a pena acessar e conferir.

domingo, 2 de dezembro de 2007

Bobbio, futebol e regras do jogo no Brasil


Depois de uma semana sem postar e ainda buscando algumas horinhas de sono reparador após tantas trocas de fraldas, volto à tona para o deleite ou desespero dos meus leitores, comentando um pouco o final do Campeonato Brasileiro da Série A e suas possíveis analogias cognitivas com a realidade brasileira. Por isso, inicio com uma citação do grande jurista e filósofo político italiano Norberto Bobbio, extraída do final de seu livro O FUTURO DA DEMOCRACIA - UMA DEFESA DAS REGRAS DO JOGO, lançado na década de 80 passada:

"Se então, na conclusão da análise, pedem-me para abandonar o hábito do estudioso e assumir o do homem engajado na vida política do seu tempo, não tenho nenhuma hesitação em dizer que a minha preferência vai para o governo das leis, não para o governo dos homens. O governo das leis celebra hoje o próprio triunfo na democracia. E o que é a democracia se não um conjunto de regras (as chamadas regras do jogo) para a solução dos conflitos sem derramamento de sangue? E em que consiste o governo democrático se não, acima de tudo, no rigoroso respeito a estas regras? Pessoalmente, não tenho dúvidas sobre a resposta a estas questões. E exatamente porque não tenho dúvidas, posso concluir tranqüilamente que a democracia é o governo das leis por excelência. No momento mesmo em que um regime democrático perde de vista este seu princípio inspirador, degenera rapidamente em seu contrário, numa das tantas formas de governo autocrático de que estão repletas as narrações dos historiadores e as reflexões dos escritores políticos".

Hoje, pela primeira vez em sua história, o Corínthians foi rebaixado para a Série B. Não vou dizer que fiquei feliz com isso, já que não tenho absolutamente nada contra os corinthianos (como já disse aqui, sou torcedor do Náutico e nossa grande rivalidade é local com o Santa Cruz e o Sport), mas é bom que os clubes considerados "grandes" do Brasil possam passar pela experiência da 2a. divisão.

Assim como em outros setores, historicamente o futebol brasileiro sempre foi meio bagunçado no que diz respeito ao cumprimento efetivo das regras estabelecidas. Prevaleceu na maioria das vezes aquela máxima de "aos amigos, tudo, aos inimigos a lei". Quando um clube nordestino, por exemplo, era rebaixado, aplique-se o regulamento. Mas quando um dos "grandes" o era, havia viradas de mesa, arrumadinhos de toda ordem, "descobriam" um árbitro que houvera sido subornado para favorecer o time A ou B, enfim, os clubes em questão eram intocáveis, mesmo quando deficientes tecnicamente. Lembro até que dirigentes do futebol brasileiro chegaram a pregar que clubes como Flamengo, Corínthians e São Paulo não deveriam ser rebaixados em nenhuma hipótese, uma espécie de "vitaliciamento" na 1a. divisão para essas agremiações, membros perpétuos da Série A.

A partir da década passada, isso começou a mudar: Fluminense, Palmeiras, Botafogo e Grêmio foram efetivamente rebaixados para a segundona e tiveram que disputar e vencer nos respectivos campeonatos para voltarem à elite do futebol brasileiro. Durante esse brasileirão, com a má campanha dos alvinegros paulistas, muitas vezes se ouvia comentários do tipo "não podemos deixar o clube que possui a 2a. maior torcida do Brasil cair, seria um desastre". Ora, desastre para quem? O Corínthians fez péssima campanha, esteve envolvido com graves problemas extra-campo (a ponto de ser discutida no Congresso uma CPI do Corínthians) e o rebaixamento parece ter sido simplesmente conseqüência de tudo isso. A regra é a mesma para todos: não conseguiu os pontos e a colocação suficiente para estar na 1a. divisão, tem mais é que ser rebaixado mesmo. Isso é óbvio, mas o óbvio no Brasil tem que ser dito e feito de forma muito clara, senão "aos amigos tudo".

Percebam o que digo: hoje em Porto Alegre no jogo contra o Grêmio, o time do Corínthians atrasou em 20 minutos sua entrada em campo. Não posso julgar, mas isso me parece uma manobra antiética para saber antecipadamente os resultados das partidas do Goiás e do Paraná que aconteciam na mesma hora. Que bom que o tiro foi pela culatra: 2 minutos de jogo, 1x0 Grêmio. Mesmo o posterior gol de empate não serviu, pois o Goiás venceu o Internacional por 2x1 e ficou com a última vaga na Série A.

Espero que as regras do jogo sejam realmente cumpridas e que não inventem manobras para virarem a mesa e fazerem fora de campo aquilo que o Corínthians não fez dentro.

Nos últimos anos, o futebol brasileiro tem feito progressos visíveis em relação ao cumprimento das regras e deve continuar assim. É verdade que ele ainda é bastante assimétrico e desigual na repartição dos recursos em relação a quem pertence ou não ao denominado Clube dos 13: aqui em Pernambuco, por exemplo, ouvi há alguns dias na resenha esportiva que o Sport, membro do referido "Clube", recebeu R$ 25 milhões para disputar a Série A deste ano; o Náutico, mesmo estando na mesma divisão, pelo simples fato de não integrar aquela instituição exclusivista, recebeu somente R$ 3 milhões, ou seja, quase dez vezes menos. Não vejo justificativa para tal e não acharia justo, mesmo que fosse invertida a situação. Todavia, não posso negar que o fato dos "grandes" terem que passar por dificuldades semelhantes a dos "pequenos" ajuda a moralizar o nosso futebol.

Que bom seria se fizéssemos avanços mais significativos também em relação à vida política e social do país. O governo das leis em vez do governo dos homens, república como verdadeira res publica, e regras do jogo estáveis e efetivamente cumpridas. Se evoluímos no futebol, por que não no restante? A esperança continua.