sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Stanley Kubrick V: Doutor Fantástico (ou de como parei de me preocupar e amar a bomba)



Já estava com saudades de falar sobre cinema. Nada melhor do que voltar à tona com mais um filme do grande Kubrick. Desta vez, fico com o genial filme intitulado "Dr. Strangelove (or How I learned to stop worrying and love the bomb)" que recebeu no Brasil o título de "Doutor Fantástico". Foi baseado no livro "Alerta Vermelho", de 1958, de autoria do ex-tenente da RAF (Royal Air Force) britânica Peter George.

Trata-se de uma comédia sarcástica, puro humor negro, e acima de tudo bombástica, considerando que aqui Kubrick brinca não somente com fogo, mas com armas nucleares. O filme é em preto e branco e data de 1963, em pleno auge da Guerra Fria e com a lembrança recente de episódios como a Crise dos Mísseis em Cuba. Fazer um filme como esses, satirizando com humor o horror e a insanidade de uma guerra do gênero somente com muita ousadia, o que nunca faltou ao célebre diretor novaiorquino.

No início dos anos 60, um general do alto comando das Forças Armadas norte-americanas enlouquecido com a paranóia anticomunista ordena um ataque à União Soviética. Ao fazê-lo, torna os aviões e a base militar incomunicáveis, o que gera um alerta de emergência na Casa Branca e no restante do alto comando militar. O Presidente dos EUA precisará entrar em contato com o premiê soviético com a finalidade de tentar fazer voltar ou mesmo abater seus próprios aviões para evitar a guerra nuclear, apesar da resistência de vários oficiais norte-americanos paranoicamente anticomunistas.

Tudo isso é mostrado com incrível bom humor e sarcasmo, principalmente pela atuação espetacular de Peter Sellers em três papéis distintos: o Capitão Mandrake, assistente do general enlouquecido, o Presidente dos EUA e o próprio Dr. Fantástico, um ex-cientista alemão nazista cooptado pelos norte-americanos e conselheiro da Casa Branca. A cena do Presidente estadunidense discutindo com o premiê soviético completamente embriagado é hilária, bem como a afetação do Dr. Strangelove. A cena final da destruição nuclear em massa com o acionamento da Máquina do Juízo Final é de uma ironia inteligentíssima, como poucos diretores souberam fazer na história do cinema.

Com a película, Kubrick traz à reflexão temas complexos e delicados para o tempo em que filmou: a insanidade de uma guerra nuclear, os riscos latentes e desesperadores da Guerra Fria, a cooptação de cientistas nazistas pelos EUA, o fanatismo dos anticomunistas capitaneados pelo macarthismo e o mais assustador: o perfil de muitos dos responsáveis por decisões tão drásticas a respeito. Oficias militares da época chegaram a comentar sem se identificarem, por óbvio, que muitos dos altos comandantes militares norte-americanos eram exatamente como exibido no filme. Isso para não falar nas convocações de Kubrick a prestar esclarecimentos ao Estado de como obtivera tantas e tão precisas informações sobre as forças armadas que, em tese, deveriam ser absolutamente sigilosas. O célebre diretor nunca se pronunciou publicamente a respeito.

Às vezes, confesso, possuo as mesmas apreensões de Kubrick sobre a (in)sanidade dos líderes e sua (in)capacidade para lidar com questões tão problemáticas. Será que o mundo mudou muito em relação a isso?

Enfim, mais um grandioso clássico da filmografia do velho Stanley, obra-prima e capítulo especial da história da sétima arte. Bom demais.

Um comentário:

Denis disse...

Sem contar com a semelhança do Major T. J. "King" Kong, um texano caipira que faz de tudo para lançar sua bomba, e um atual presidente de um certo país. Clarividência, antevisão, ou pura coincidência? ;)