segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Revolução Russa: 90 anos depois

Não poderia deixar findar o ano sem comentar o noventenário de um dos mais importantes acontecimentos do século passado, quiçá da história da humanidade: a Revolução Russa de 1917. Para o bem ou para o mal, é impossível ignorar a influência e os importantes desdobramentos da história contemporânea diante desse grande movimento político que culminou na criação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e serviu como lumiar ideológico para milhões de pessoas em todo o mundo.

Trata-se de um grande levante popular que provocou uma drástica ruptura com o modelo de Estado então predominante. Tal movimento composto por diversas tendências ideológicas, terminou por ser capitaneado pelos bolcheviques, mais disciplinados e organizados, liderados por Vladimir Lênin que se tornaram a "vanguarda" revolucionária, tomando o poder para si. Com o esmagamento da contra-revolução, Lênin e os bolcheviques começaram a construção de um modelo de Estado calcado nos princípios socialistas marxistas interpretados e condicionados à teoria leninista.

Parecia que finalmente a burguesia sucumbira e era inaugurada a primeira experiência socialista no mundo. Um Estado voltado aos anseios da classe trabalhadora que promoveria a igualdade e a fraternidade entre os homens sem as odiosas diferenças de classes sociais, caracterizadoras do capitalismo liberal e dos demais sistemas político-econômicos. Uma sociedade sem opressores nem oprimidos.

Entretanto, a profecia marxista não se realizou. Ao invés de se encaminhar para uma extinção do Estado (que seria o verdadeiro comunismo), verificou-se o seu fortalecimento, até pela situação de isolamento que a Rússia, e posteriormente União Soviética, passa a sofrer (internacionalismo revolucionário de Trotsky x socialismo em um só país de Stalin). A vitória da revolução proletária não se deu em um país de capitalismo liberal avançado como Reino Unido ou França, mas na atrasada e semi-feudal Rússia, um dos países que, segundo o próprio Marx, menos teria condições de fazê-la. A revolução não se espalhou no mundo ("proletários de todos os países, uni-vos", dizia Marx) e o que tivemos foi a ascensão de tendências totalitárias de direita, como o nazi-fascismo que se alastrou pela Europa. Somente com a vitória na 2ª Guerra Mundial, a URSS pôde alastrar sua influência pelos países do leste europeu e de outros continentes (China de Mao Tsé-Tung, Cuba de Fidel Castro, Vietnã de Ho Chi Minh), no primeiro caso, devido ao importante papel do Exército Vermelho na libertação dos países dominados pelos nazistas.

Também a generosa utopia de Marx não foi alcançada pelos Estados socialistas. O sonho igualitário terminou por tornar-se tenebroso pesadelo totalitário, sufocando a crítica, a oposição e o dissenso. O que Lênin afirmara ser um estado transitório de terror revolucionário torna-se permanente com o gangsterismo político de Iosif Stalin, a partir do momento em que este ascende ao poder na URSS. O stalinismo é um dos períodos mais trágicos da história do comunismo, responsável diretamente pela morte de mais de 20 milhões de pessoas, nas estatísticas mais generosas para com seu mentor. O ditador soviético é, em números absolutos, o governante que mais matou seres humanos na História.

Depois vieram Mao Tsé-Tung na China com episódios terríveis como a Revolução Cultural, Enver Hoxha na Albânia, o tenebroso STASI alemão oriental, a tragédia humana no Camboja de Pol Pot (eliminou quase 20% da população cambojana entre 1975 e 1979).

A pergunta que nunca cala: como pôde uma doutrina generosa e humanista ter descambado na produção de tantas e tão freqüentes tragédias? Seria o caso de doutrina apenas aparentemente libertária, mas trazendo em sua essência novas formas de autoritarismo e opressão? Seria o caso de distorção da teoria marxista pelos marxistas "práticos"? O marxismo então não seria mais do que uma utopia?

Por ora, parece que sim. As revoluções feitas em nome do marxismo degeneraram em regimes políticos totalitários prometendo justiça social em lugar da liberdade e não alcançando afinal nem um dos dois. Trocar liberdade por igualdade não parece um bom negócio em nenhuma circunstância. Os regimes em questão formaram novas burocracias e novas classes dominantes em lugar das antigas, perpetrando a dominação classista, paradoxalmente disfarçada de Estado proletário. Quem dissentisse era simplesmente eliminado, como foi a quase toda a velha guarda bolchevique nos anos stalinistas.  No final, nem liberdade, nem igualdade, apenas o terror e o Estado policial.

Por outro lado, diferentemente do que ocorreu com o nazismo, em que já no Mein Kampf de Hitler havia claramente uma pregação anti-semita, nada nos escritos de Karl Marx justifica a carnificina feita pelos seus adeptos em nome dos seus ideais. Por essa razão é que vejo o marxismo como uma utopia, apesar da insistência em se afirmar como socialismo "científico".

De positivo, é importante frisar que a Revolução Russa trouxe concretamente para a agenda mundial o combate à desigualdade social. Keynes e os artífices do welfare state devem muito à célebre revolução cujos ventos influenciam o enfraquecimento do liberalismo econômico e sua substituição pela idéia de um Estado de bem estar social, ainda capitalista, mas não mais liberal ortodoxo. Nem os EUA escaparam incólumes do welfare state, que o digam as políticas sociais do New Deal de Franklin Roosevelt.

E é a partir daí que tais idéias associadas à autêntica social democracia promovem um modelo estatal que procura conciliar liberdade e igualdade e que até o momento são as experiências humanas mais bem sucedidas em alcançar progresso econômico e social com liberdade e qualidade de vida, haja visto o exemplo dos países nórdicos europeus como Suécia, Noruega e Dinamarca.

Aos socialistas saudosistas, ficam as imagens da antiga URSS ao som do hino russo-soviético, cuja melodia de tão bela que é, foi mantida pela atual Federação Russa, apesar da mudança na letra: http://www.youtube.com/watch?v=GChyobt8Cpo. A mim agrada mais o "vento da mudança" da linda canção dos Scorpions, em bela versão com orquestra (na Praça Vermelha/Moscou, palco da Revolução de 1917): http://www.youtube.com/watch?v=HxobuyB4H38&feature=related.

FELIZ 2008 A TODOS. MUITA PAZ, SAÚDE E FELICIDADE.

Um comentário:

Anônimo disse...

"Trocar liberdade por igualdade não parece um bom negócio em nenhuma circunstância".

Uma das frases mais felizes que li ultimamente. É isso mesmo.

Grande abraço,


Carlos Octaviano Mangueira.