sábado, 22 de dezembro de 2007

Religião também se discute: Jesus para além do cristianismo


Final de ano, festa natalina, supostamente religiosa (nascimento de Jesus), com poucos lembrando do aniversariante (que tudo indica, também não aniversaria nesta data), mas todos aguardando o Papai Noel, os presentes e o lado profano da comemoração. Tudo isso me inspirou a refletir sobre o diálogo interreligioso para além do próprio cristianismo ocidental.

É comum se dizer que futebol, religião e política não se discute. Embora eu admita que cada um tenha suas preferências e tendências (e eu não sou diferente nisso), creio que se discute sim. Já falei das três coisas aqui, embora pela natureza do blog os debates versam mais sobre política, uma ou outra discussão futebolística, mas raras discussões religiosas. Talvez isso ocorra por que como religião é algo que diz respeito a fundamentos do próprio ser espiritual de cada um, o que ocasiona por vezes extremismos e fundamentalismos de toda ordem quando a religião deixa de ser vista como um caminho para Deus e para a realização do espírito e passa a ser encarada como a própria lei divina a ser implementada à força. Por isso debater religião é sempre mais delicado, todavia nem por isso menos necessário.

Creio que o pressuposto de todo debate religioso fecundo deva ser a humildade e a tolerância recíprocas. Se eu considero uma determinada religião superior às demais nos seus fundamentos, é normal que eu a professe. Entretanto, é necessário que eu também admita a possibilidade de estar equivocado e que meu irmão de outra religião ou até sem religião possa estar certo. Dificilmente estamos certos ou errados em tudo e a disposição socrática ("só sei que nada sei") de admitir isso é o primeiro passo para avançarmos em fraternidade e compreensão mútuas.

A religião, qualquer que seja ela, pode conduzir a muitas coisas boas, quando, por exemplo, ao abraçar causas religiosas, as pessoas fazem da solidariedade e do amor ao próximo a razão de sua própria vida e agem de acordo com isso. Veja-se o belo trabalho de missionários religiosos que, ao levarem alento espiritual aos seus irmãos sofridos, levam também alimentos, remédios, esperança e calor humano.

Por outro lado, a religião, qualquer que seja ela, quando se torna uma prática extremista e intolerante do tipo "só a minha religião é a correta", "quem não é da minha religião irá para o inferno" ou ainda "você tem que se converter" (e tem gente que esgota a paciência de qualquer um com isso) pode produzir as piores coisas. É justamente esse tipo de religião militante extremada que produz, por exemplo, os terroristas islâmicos suicidas. Mas não somente o Islã possui tais fanáticos. O cristianismo medieval e contemporâneo produziu e produz muitos desses, embora raramente suicidas. A intolerância da inquisição católica e a caça aos "idólatras demoníacos" por parte do protestantismo são exemplos disso no cristianismo, assim como a ortodoxia de muitos judeus exclusivistas levando a extremos as teorias do "povo eleito". Até mesmo o ateísmo militante de um Christopher Hitchens, por exemplo, se torna uma espécie de religião às avessas, como se viu em países socialistas que, ao mesmo tempo em que repetiam Marx afirmando ser a religião o "ópio do povo", criavam novos ícones em lugar dos velhos com os cultos à personalidade dos líderes, sendo uma verdadeira religião sem Deus.

Daí eu ter feito referência à importância de se ter humildade e tolerância. Ser humilde para reconhecer que posso estar errado e ser tolerante para, ainda que eu esteja certo e convicto disso, o meu irmão tem todo o direito de estar errado e eu não posso condená-lo por isso.

A religião é ambígua como a própria humanidade. Ao lado de belas páginas de sabedoria e espiritualidade, vejo na Bíblia e no Alcorão muitas outras de violência e intolerância. Enquanto alguns utilizam esses escritos para demonstrar que seu humanismo e sua solidariedade emanam de Deus, outros fundamentam suas "guerras santas" nos mesmos escritos. Por isso que os mesmos não podem ser interpretados de forma literal, até por que os originais se perderam no tempo e só para ficar em um exemplo, as cópias mais antigas dos textos bíblicos datam do século IV depois de Cristo, o que significa que temos pelo menos 300 anos de distância temporal entre os acontecimentos e o que está nos textos, para não falar nas sempre possíveis manipulações ao longo do tempo e, ainda que os tradutores tenham tido extrema boa-fé, nas mudanças semânticas e pragmáticas que tais palavras sofrem no tempo e na tradução de um idioma para o outro.

Já fui católico, hoje não professo nenhuma religião específica, embora atualmente tenha grande admiração por muitos dos ensinamentos do budismo e do xintoísmo, sem, no entanto, me sentir à vontade de me rotular como fiel de uma delas (aliás, não me aprisiono muito a rótulos). Mas já que o Natal é, em tese, a comemoração do aniversário de Jesus, vale a pena considerar seu exemplo: embora nascido judeu, sua mensagem foi universalista e holística sem fazer acepção de pessoas; tratou com a mesma consideração judeus, romanos, samaritanos e demais nacionais, homens, mulheres, crianças, olhando o valor espiritual de cada um deles e não se estavam indo ao templo ou cumprindo os rituais dos cultos religiosos; se agiam conforme a própria fé ou se esta era só da "boca para fora" ("nem todo o que diz: "Senhor! Senhor!", entrará no Reino dos Céus, mas o que faz a vontade de meu Pai, este entrará no Reino dos Céus" - Mt 7, 21).

Se o cristianismo histórico deturpou muito a mensagem de Jesus de Nazaré, penso que muito do exemplo e das palavras sábias desse grande Homem (sem adentrar o mérito se ele era ou não filho de Deus) deveriam ecoar como alento espiritual de encontro pessoal com Deus e o Infinito, mais do que promoverem ritualismos estéreis ou militâncias religiosas arrogantes.

"Esse povo me louva com os lábios, mas o seu coração está distante de mim" (Mt 15, 8).

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