quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Comentando os comentários sobre a CPMF

Semanas atrás opinei neste blog sobre a CPMF antes de sua prorrogação ser derrotada no Senado Federal. Acreditava e continuo acreditando que o problema tributário no Brasil é a sua alta carga fiscal como um todo e não a CPMF como tributo em particular, considerando que a última é um dos tributos menos injustos, considerando seu alcance e sua praticamente impossibilidade de sonegação. Dois leitores fizeram comentários, ambos contrários à minha opinião e nenhum dos dois quis se identificar. Gostaria de utilizá-los como exemplo para o que sempre digo aqui em defesa da aceitabilidade e tolerância com o dissenso e a divergência de posicionamentos, para mim, essência da democracia.

O primeiro leitor discordou de minha opinião de forma civilizada e sem qualquer ataque à minha pessoa, rebatendo meus argumentos com outros igualmente sólidos (quiçá até mais do que os meus), refletindo, como procuro aqui fazer, não em relação a este ou aquele governo específico, mas se o referido tributo é institucionalmente bom ou não para o país. O segundo, ao contrário, partiu para o ataque pessoal e corporativo (já que disse que os professores da Faculdade são todos "chumbetas" de Lula) sem apresentar qualquer argumento consistente ou até mesmo infundado.

Como podem perceber, este blog é um espaço de liberdade de expressão, inclusive dos que discordam de mim e é por isso que publico seus comentários. Para mim, isso é essencial, democracia é sobretudo administrar o dissenso. Porém, infelizmente, nem todos possuem o mesmo espírito de tolerância e diálogo e tentam logo desqualificar o interlocutor, posto que não conseguem rebater seus argumentos. Partem logo para o maniqueísmo puro do tipo "quem não é por mim, é contra mim", distorcendo o contexto bíblico e transformando-o nas razões do lobo da fábula de Fontaine.

Ora, todos os que acompanham este blog sabem que votei em Lula e nunca escondi isso. Todavia, isso não me coloca como alguém que tenha que aceitar tudo o que seu governo faça. Como sou apenas um simples Professor universitário e não tenho quaisquer pretensões de candidatura nem mesmo a síndico do meu prédio, analiso os fatos políticos e jurídicos a partir de uma visão institucional republicana, democrática e humanista e não associada a um ou outro governo. Se observarem as postagens anteriores, paradoxalmente, há muito mais delas criticando o governo Lula do que o aplaudindo, só que sem maniqueísmos. Reconheço muitas virtudes em seu governo, assim como também vejo inúmeros defeitos. O mesmo vale para o governo FHC que, aliás, foi o criador da CPMF (acho que o segundo leitor deve estar convenientemente "esquecido" disso). Ou seja, não sou nem lulista, nem anti-Lula, tenho minhas próprias opiniões (as opiniões não me têm) e se convencido do oposto, não hesito nem um pouco em mudá-las.

É preciso, caro amigo, analisar os fatos sem preconceitos e ter humildade de reconhecer que nem sempre acertamos e só o diálogo franco e aberto, tolerante e respeitoso quanto ao dissenso, pode fazer avançar uma sociedade realmente democrática. Se não aceita minhas palavras, reflita sobre o que escreveu Igor Gielow, em sua coluna de hoje no Jornal Folha de São Paulo:

"Apocalípticos e integrados

O maniqueísmo é um traço perene da humanidade, fazendo companhia à compaixão e à crueldade, por mais que seja açoitado por sistemas filosóficos aqui e ali. De que adiantaram contra ele todas as cabalas, os iluminismos, os tratados alquímicos, toda uma Era da Razão? Pouco, e ganhamos de brinde bastardos desses movimentos, como o obscurantismo religioso e o materialismo histórico. Com isso, avançamos a primeira década do novo século montados sobre os cadáveres que o "se não está comigo, é contra mim" nos legou.

Ou somos partidários da "guerra ao terror", ou defendemos o multiculturalismo e a soberania dos povos. Só que a primeira posição pode significar tanto a defesa de algum dos melhores valores que o homem concebeu quanto aplaudir Abu Ghraib. E apoiar a segunda leva tanto à crença na diversidade do processo histórico quanto à elegia do Taleban.

O cinza não é bem-vindo ao debate, e o que se vê é a redução do mundo aos prós e contras. A Europa federal é para uns um polvo kafkiano emanando tentáculos burocráticos de Bruxelas para cada instância da vida civil; para outros, um manancial de civilização com euros suficientes para pagar os eventuais estragos. Putin é o salvador da Rússia ou uma espécie de anticristo. A China, um monstro ou um modelo. Os EUA, o império decadente ou o farol do mundo.

E o Brasil? Como grandes questões passam só de raspão por aqui, nos contentamos com uma versão comezinha do maniqueísmo: ou somos lulistas, ou não o somos. Ser leva a acreditar que "nunca antes na história deste país" estivemos tão bem. Não ser significa negação sistemática de eventuais méritos. Lula ou é visto como um parvo, ou como "nosso guia". Tentar achar o meio-termo, que costuma ser a medida ideal, é um esforço quase inútil. O consolo residual é que miséria gosta de companhia: não estamos sós."

É isso aí.

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