domingo, 2 de dezembro de 2007

Bobbio, futebol e regras do jogo no Brasil


Depois de uma semana sem postar e ainda buscando algumas horinhas de sono reparador após tantas trocas de fraldas, volto à tona para o deleite ou desespero dos meus leitores, comentando um pouco o final do Campeonato Brasileiro da Série A e suas possíveis analogias cognitivas com a realidade brasileira. Por isso, inicio com uma citação do grande jurista e filósofo político italiano Norberto Bobbio, extraída do final de seu livro O FUTURO DA DEMOCRACIA - UMA DEFESA DAS REGRAS DO JOGO, lançado na década de 80 passada:

"Se então, na conclusão da análise, pedem-me para abandonar o hábito do estudioso e assumir o do homem engajado na vida política do seu tempo, não tenho nenhuma hesitação em dizer que a minha preferência vai para o governo das leis, não para o governo dos homens. O governo das leis celebra hoje o próprio triunfo na democracia. E o que é a democracia se não um conjunto de regras (as chamadas regras do jogo) para a solução dos conflitos sem derramamento de sangue? E em que consiste o governo democrático se não, acima de tudo, no rigoroso respeito a estas regras? Pessoalmente, não tenho dúvidas sobre a resposta a estas questões. E exatamente porque não tenho dúvidas, posso concluir tranqüilamente que a democracia é o governo das leis por excelência. No momento mesmo em que um regime democrático perde de vista este seu princípio inspirador, degenera rapidamente em seu contrário, numa das tantas formas de governo autocrático de que estão repletas as narrações dos historiadores e as reflexões dos escritores políticos".

Hoje, pela primeira vez em sua história, o Corínthians foi rebaixado para a Série B. Não vou dizer que fiquei feliz com isso, já que não tenho absolutamente nada contra os corinthianos (como já disse aqui, sou torcedor do Náutico e nossa grande rivalidade é local com o Santa Cruz e o Sport), mas é bom que os clubes considerados "grandes" do Brasil possam passar pela experiência da 2a. divisão.

Assim como em outros setores, historicamente o futebol brasileiro sempre foi meio bagunçado no que diz respeito ao cumprimento efetivo das regras estabelecidas. Prevaleceu na maioria das vezes aquela máxima de "aos amigos, tudo, aos inimigos a lei". Quando um clube nordestino, por exemplo, era rebaixado, aplique-se o regulamento. Mas quando um dos "grandes" o era, havia viradas de mesa, arrumadinhos de toda ordem, "descobriam" um árbitro que houvera sido subornado para favorecer o time A ou B, enfim, os clubes em questão eram intocáveis, mesmo quando deficientes tecnicamente. Lembro até que dirigentes do futebol brasileiro chegaram a pregar que clubes como Flamengo, Corínthians e São Paulo não deveriam ser rebaixados em nenhuma hipótese, uma espécie de "vitaliciamento" na 1a. divisão para essas agremiações, membros perpétuos da Série A.

A partir da década passada, isso começou a mudar: Fluminense, Palmeiras, Botafogo e Grêmio foram efetivamente rebaixados para a segundona e tiveram que disputar e vencer nos respectivos campeonatos para voltarem à elite do futebol brasileiro. Durante esse brasileirão, com a má campanha dos alvinegros paulistas, muitas vezes se ouvia comentários do tipo "não podemos deixar o clube que possui a 2a. maior torcida do Brasil cair, seria um desastre". Ora, desastre para quem? O Corínthians fez péssima campanha, esteve envolvido com graves problemas extra-campo (a ponto de ser discutida no Congresso uma CPI do Corínthians) e o rebaixamento parece ter sido simplesmente conseqüência de tudo isso. A regra é a mesma para todos: não conseguiu os pontos e a colocação suficiente para estar na 1a. divisão, tem mais é que ser rebaixado mesmo. Isso é óbvio, mas o óbvio no Brasil tem que ser dito e feito de forma muito clara, senão "aos amigos tudo".

Percebam o que digo: hoje em Porto Alegre no jogo contra o Grêmio, o time do Corínthians atrasou em 20 minutos sua entrada em campo. Não posso julgar, mas isso me parece uma manobra antiética para saber antecipadamente os resultados das partidas do Goiás e do Paraná que aconteciam na mesma hora. Que bom que o tiro foi pela culatra: 2 minutos de jogo, 1x0 Grêmio. Mesmo o posterior gol de empate não serviu, pois o Goiás venceu o Internacional por 2x1 e ficou com a última vaga na Série A.

Espero que as regras do jogo sejam realmente cumpridas e que não inventem manobras para virarem a mesa e fazerem fora de campo aquilo que o Corínthians não fez dentro.

Nos últimos anos, o futebol brasileiro tem feito progressos visíveis em relação ao cumprimento das regras e deve continuar assim. É verdade que ele ainda é bastante assimétrico e desigual na repartição dos recursos em relação a quem pertence ou não ao denominado Clube dos 13: aqui em Pernambuco, por exemplo, ouvi há alguns dias na resenha esportiva que o Sport, membro do referido "Clube", recebeu R$ 25 milhões para disputar a Série A deste ano; o Náutico, mesmo estando na mesma divisão, pelo simples fato de não integrar aquela instituição exclusivista, recebeu somente R$ 3 milhões, ou seja, quase dez vezes menos. Não vejo justificativa para tal e não acharia justo, mesmo que fosse invertida a situação. Todavia, não posso negar que o fato dos "grandes" terem que passar por dificuldades semelhantes a dos "pequenos" ajuda a moralizar o nosso futebol.

Que bom seria se fizéssemos avanços mais significativos também em relação à vida política e social do país. O governo das leis em vez do governo dos homens, república como verdadeira res publica, e regras do jogo estáveis e efetivamente cumpridas. Se evoluímos no futebol, por que não no restante? A esperança continua.

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