domingo, 16 de dezembro de 2007

As "pérolas" da censura no Brasil

Aos que porventura tenham saudades da ditadura militar brasileira ou os que, por outro lado, não viveram aqueles anos, mas acreditam que a seriedade e a moralidade eram maiores, coloco neste espaço alguns dados interessantes colhidos pela pesquisadora Leonor Souza Pinto em torno da atuação da censura no Brasil entre 1964 e 1988. Após 10 anos de análises nos processos de censura guardados no Arquivo Nacional de Brasília, as suas pesquisas em uma amostra de 269 filmes estão expostas no site http://www.memoriacinebr.com.br/, onde os leitores que queiram mais detalhes poderão obtê-los.

Algumas curiosidades: o cineasta mais perseguido pelos censores não foi nenhum grande contestador político (ao menos de forma mais direta) e sim ninguém menos que José Mojica Marins, o "Zé do Caixão", tendo enfrentado interdições em sete dos seus filmes. Caso extremamente curioso é relatado por ele quando afirma que várias cenas anteriormente cortadas pela censura foram por ele recolhidas e expostas no filme "Delírios de um Anormal" e - pasmem - este último foi liberado sem cortes (para se ver como a censura era "lógica e coerente" em sua atuação). Vejamos outras curiosidades pelo gênero e os porquês de suas reprovações pelos censores.

1) DRAMAS ERÓTICOS

A ILHA DOS PRAZERES PROIBIDOS, de Carlos Reichenbach

Síntese: aventuras de uma jornalista em uma ilha, liberadas com cortes em uma cena de sexo.

Avaliação da censura em 08/01/1979: "(cortar) relação sexual entre Sérgio e Ana (...). Retirar tomada em que Sérgio deitado sobre Ana rola e a coloca por cima (...). Retirar tomada que apresenta Ana montada sobre Sérgio, permanecendo as tomadas que ele a despe".

OS HOMENS QUE EU TIVE, de Tereza Trautman

Síntese: filme de 1973 em que uma mulher (Darlene Glória) tem relacionamento com vários homens. Após 3 semanas em cartaz, foi proibido pelo General Antonio Bandeira, então Diretor Geral da Polícia Federal, sendo liberado somente seis anos depois.

Avaliação pelo Censor José Ferraz em 23/05/1975: "Filme amoral, pornográfico, debochado, cínico, obsceno, que tenta com enredo mal feito justificar a vida irregular da mulher prostituída. É um libelo contra a instituição do casamento, considerando como tal as investidas desregradas da insaciável mulher".

2) TERROR

ESTA NOITE ENCARNAREI NO TEU CADÁVER, de José Mojica Marins

Síntese: estória de um homem que seqüestra mulheres em buca da companheira perfeita. Proibido em 1966, liberado apenas em 1987, com cortes e classificação etária 14 anos.

Avaliação da Censora Jacira Oliveira em 18/11/1966: "Se não fugisse à minha alçada, seria o caso de sugerir a prisão do produtor pelo assassinato à sétima arte, pois não foi outra coisa que ele realizou ao rodar o presente "filme". (...) Nus, cenas de ataques sexuais, terror etc. são a constante que, a meu ver, não possibilitam a liberação da referida "película"".

O DESPERTAR DA BESTA, de José Mojica Marins

Síntese: psiquiatra que faz experiências regadas a drogas e sexo, foi rejeitado duas vezes pela censura, em 1970 (com o nome de "Ritual dos Sádicos") e em 1982.

Avaliação do censor Osmar Fialho em 09/10/1970: "A irrealidade do filme é manifesta e o seu apelo às manifestações sexuais anormais é evidente. A divulgação do vício e dos seus efeitos alucinatórios (...) resultam em mensagens de incitamento experimental. (...) O filme não apresenta atenuantes. (...) O mínimo que se pode sugerir para um espetáculo tão imoral e degradante é completa INTERDIÇÃO".

3) PORNÔS

O BEIJO DA MULHER PIRANHA, de Jean Garret

Síntese: aproveitando o sucesso de "O Beijo da Mulher Aranha", o diretor cria uma mulher que se excita com um peixe. Banido pela censura, conseguiu liberação por liminar judicial.

Avaliação do Censor Dalmo Paixão em 09/05/1986: "Trata-se de filme pornográfico em que seus realizadores se gabam de haver introduzido inovações no gênero: o emprego de peixes na excitação sexual e o uso de pênis artificial acionado por máquina de lavar roupa. (...) Opinamos pelo veto ao filme (...) por contrariar os bons costumes".

OSCARALHO - O OSCAR DO SEXO EXPLÍCITO, de José Miziara

Síntese: cenas de sexo são intercaladas com entrega de prêmios para atores pornô.

Avaliação da censura em 09/09/1986: "Variedade de seqüência de práticas libidinosas, as quais são mostradas em detalhes sob as mais diversas angulações, colocando em close os órgãos genitais masculinos e femininos".

Digo logo aos leitores que não assisti (nem pretendo) nenhum dos filmes acima. Acho até que devem ser de péssimo gosto e como há um monte de filmes bons que ainda não vi, prefiro não perder meu tempo.

Porém, não abro mão da minha liberdade em decidir fazê-lo ou não. Cada um deve decidir isso por si próprio e não sermos tutelados por quem quer que seja até no nosso bom ou mau gosto, com essas "pérolas" de falso moralismo (enquanto isso, opositores políticos eram perseguidos, torturados e mortos pelos mesmos guardiões da "moral e dos bons costumes").

Ainda bem que são tempos idos. CENSURA NUNCA MAIS.

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