sábado, 17 de novembro de 2007

Ainda o "Tropa de Elite": a culpa é do termômetro?


Transcrevo aqui a análise sobre o tão polêmico filme feita pelo meu amigo Alexandre Costa, Professor de Filosofia da ASCES. Achei-a brilhante e diz muito mais do que eu disse em posts anteriores acerca do trabalho do Padilha. Ei-la:

"Dentre as muitas qualidades do filme de José Padilha, está a do aspecto socrático de gerar polêmicas, isto é, de questionar o Brasil de modo cru e direto, sem a pasteurização da maioria dos filmes comerciais brasileiros. Ademais, o filme pretende ser e realmente é uma experiência que vem a ser a sua própria razão de ser, concedendo ao espectador uma experiência emocionante, algo raro no cinema-vitrine dominante. E, apesar da pirataria, o filme continua levando muita gente ao cinema para ser apresentada ao país real. Isso prova que a apologia da ignorância e do conformismo, marca inconfundível da Globo Filmes, não é a única maneira de se fazer cinema. Eis um outro mérito do filme!

Numa entrevista à revista Carta Capital, Padilha diz que apenas colocou o termômetro no paciente com febre e constatou uma temperatura muito alta. Concordo com ele e penso que o filme se esforçou para não ter um ponto de vista, deixando ao espectador o juízo ético sobre o que acontece na tela. Ademais, fez aflorar as altas doses de violência até então latentes nas platéias brasileiras. Ter escolhido o capitão Nascimento (Wagner Moura) para narrar a obra não implica a concordância com as afirmações do personagem (alguém diria que Dostoievsky fez o elogio do assassinato ao expor o fluxo de consciência do estudante homicida em “Crime e Castigo”?) No filme, era necessário um narrador para expor a ação e a escolha recaiu sobre o capitão.

Ora, no país dos renans e dos malufs, dos juízes rocha matos e dos carreira alvins, a população sente-se impotente diante da impunidade da elite. O poder usa recursos infindáveis para garantir a prescrição de crimes, e a imunidade parlamentar, ao invés de ser uma garantia da autonomia parlamentar, serve apenas para acobertar delitos. Só resta à choldra buscar bodes expiatórios entre os pobres. Renan impune: mate-se um “fogueteiro!” Roriz solto: fuzile-se um “vapor”! Aqueles traficantes das favelas são a arraia miúda, os gerentes da baixa baderna brasileira, mas que servem para pagar o pato no lugar dos gerentes da alta baderna.

O descrédito na democracia é diretamente responsável pelo fato de o torturador do BOPE tornar-se herói nacional. O pobre cidadão, explorado e enganado, bem que gostaria de ver o capitão Nascimento em Brasília apagando corruptos, mas estes são intocáveis!Quem assistiu ao filme apenas em dvd certamente perdeu muita coisa: a música é boa e a montagem é nervosa, quase documental, destacando-se bastante na tela do cinema. Será Tropa de Elite um documentário? Ao desenhar um retrato fiel do país, o filme estaria muito próximo do cinema/verdade, mas, ao recorrer à ficção, o filme mostra que simplesmente descrever a realidade brasileira exige esforços que superam a mais sombria imaginação.

A classe média lotou os cinemas e continuará lotando-os para se ver no espelho, uma feia elite que rejeita as regras de civilidade, que ignora as regras do trânsito, que adora as novelas e acredita na Veja e no Jornal Nacional. Sempre aberta à possibilidade da ditadura, desde que se garantam os seus pífios privilégios, é ela que nutre a violência, seja pelo consumo de drogas, seja pela indiferença que exibe diante da miséria. No Recife, por exemplo, casais em churrascarias almoçam placidamente enquanto as babás de seus filhos observam em pé, ao lado da mesa e com fome. Isto não é violência?Uma recente pesquisa da FGV mostrou que o consumidor de drogas no Brasil pertence à elite branca universitária, coisa que o filme de Padilha mostrou. O filme ataca também a hipocrisia de quem faz passeatas pela paz enquanto adquire cocaína no morro. O blog de Josias de Souza comentou a ausência desse “grande nariz” na equação das drogas.

Padilha é muito hábil ao levar as pessoas a enxergarem o lugar-comum da violência com outro olhar. Cada um viu o que quis, e mesmo não trabalhando no engarrafamento da Brahma, cada um rotulou o filme como quis. Uma coisa é verdade: nenhum espectador ficou indiferente e ninguém foi jantar no restaurante da moda com a tranqüilidade de quem acabou de assistir ao filme “O Primo Basílio ou o assassinato de Eça de Queiroz”. Pra isso serve a arte!"

2 comentários:

mvpb disse...

"Isso prova que a apologia da ignorância e do conformismo, marca inconfundível da Globo Filmes, não é a única maneira de se fazer cinema" (morri de rir)
ótima análise do Alexandre Costa, tenho uma única crítica:

"Uma recente pesquisa da FGV mostrou que o consumidor de drogas no Brasil pertence à elite branca universitária, coisa que o filme de Padilha mostrou"

Não culpemos os viciados, vou tocar na questão da maconha (por onde tudo começa) porque não liberar de vez? Cada um plantava seu pé de maconha em casa e não haveria mais tráfico (ou boa parte dele). Estava findo o problema, é meu caro, mas o tráfico da lucro, culpados mesmo são aqueles que, sem ninguém saber, se beneficiam, posando de falsos moralistas ora acusam os "pequenos" traficantes ora os viciados, ambos dos quais eu, particularmente, considero vítimas.

Anônimo disse...

Concordo absolutamente com cada palavra sua, Bruno! Parabéns pelo Blog, está bem bacana!

Abraços,
Alessandra Pinho.