sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Tropa de Elite: "não existem mocinhos" - o dedo na ferida da sociedade brasileira




Tive oportunidade essa semana de ver o tão badalado filme "Tropa de Elite", de José Padilha. Nunca antes vira um filme ser tão assistido antes mesmo da estréia oficial (as cópias estão aos milhares, quiçá milhões, por aí). Talvez um retrato mesmo do que o próprio filme mostra.

A crítica está bastante dividida quanto a ele: uma parte dela tem elogiado a forma como ele aborda sem retoques a violenta realidade que envolve os diversos lados em confronto velado ou aberto; outros têm criticado o roteiro e a montagem das cenas, afirmando que as mesmas, dentre outras coisas, fariam apologia da tortura policial como método eficiente para o combate ao crime. Essa última percepção mostrar-se-ia mais plausível ainda diante de um episódio inusitado ocorrido em uma das salas onde foi exibido como pré-estréia, em que as pessoas aplaudiram as cenas de tortura, talvez expressando profunda revolta contra os bandidos e a violência que empreendem.

Apesar disso, creio não ter sido essa a intenção de Padilha e o diretor não tem culpa dos sentimentos raivosos e vingativos das platéias que porventura assistam ao filme. Em verdade, gostei bastante do "Tropa de Elite" e discordo da análise de que ele faria apologia da tortura. De fato, as cenas de tortura de supostos criminosos são fortes, mas parecem apenas retratar sem retoques uma realidade concreta e não fazer qualquer juízo de valor positivo quanto àquele ato.

O filme aborda o que vem a ser o BOPE (Batalhão de Operações Especiais) da Polícia Militar do Rio de Janeiro e o seu papel no combate ao crime, passando a enfocar as relações do narcotráfico com a polícia e os usuários de entorpecentes, assim como o âmbito de ONGs suspeitas e a corrupção adjacente envolvendo outros setores da sociedade, do crime e da própria polícia.

A estória se passa no Rio de Janeiro quando da visita do Papa João Paulo II na década de 90 passada e é abordada a partir da ótica do Capitão Nascimento (magistralmente interpretado por Wagner Moura) que busca sair do comando das operações do BOPE mas necessita encontrar um substituto à sua altura. Avalia o referido Capitão que as atitudes dos policiais frente ao pesado esquema de circulação de armas e drogas feito pelo narcotráfico se resumiriam a 3: 1) se corromperem; 2) se omitirem; 3) entrarem em guerra total contra ele. As duas primeiras fariam parte da ação da PM convencional; a última, da ação do BOPE. Para tal, os integrantes desta "tropa de elite" eram escolhidos a dedo e de forma minuciosa. Precisam ser antes de tudo incorruptíveis e extremamente violentos e o treinamento ao qual são submetidos é exaustivo no incentivo a esses dois requisitos. O Capitão chega a dizer que o BOPE seria quase uma seita.

Parece que as vísceras da sociedade brasileira são mostradas de forma nua e crua no filme: policiais militares de altas e baixas patentes utilizando a prerrogativa estatal que possuem para promover esquemas ilícitos e criminosos e ganhando muito dinheiro com isso; os narcotraficantes, apesar de superarmados, preferem, em princípio, negociar com os PMs, subornando-os para que estes não atrapalhem os lucros do bilionário mercado das drogas; a classe média e a classe alta carioca hipocritamente fazendo passeata contra a violência, enquanto seus jovens fumam e cheiram as drogas que compram dos traficantes, financiados, portanto, pelas mesmas classes que se dizem indignadas com a violência urbana (seus "anjinhos" pseudo-politicamente corretos são os consumidores da mercadoria "desses caras"); os homens do BOPE, apesar de realmente não se corromperem, no filme são assassinos fanáticos e ultraviolentos, profundamente desumanos, torturando, batendo e matando criminosos, mas às vezes também inocentes e até vítimas do próprio tráfico, cujo único pecado é serem pobres e morarem na favela (me chama a atenção a cena em que os homens do Capitão Nascimento, para vingarem a morte do soldado Neto, assassinado pelos narcotraficantes da quadrilha do Baiano, entram nas casas da favela sem qualquer cerimônia e respeito - nem precisa dizer que também sem mandado judicial - mostrando, dentre outras coisas, que a inviolabilidade de domicílio prevista na CF, art. 5o., XI, só existe para uma parte mais abastada da sociedade brasileira). Com o BOPE, não há negociação ou corrupção: é guerra total, carnificina sem piedade.

Decididamente é um filme sem mocinhos. Os homens do BOPE não são mostrados como heróis. Mas também não são os vilões, como talvez muitos dos críticos do filme em um raciocínio maniqueísta pudessem desejar. Simplesmente são fruto de um contexto sócio-político e cultural profundamente perverso e a complexidade dessa realidade não permite simplificações do tipo amigo/inimigo (recordando o velho Carl Schmitt). Uns e outros não são necessariamente melhores ou piores, apenas são o que são e é isso que o filme parece querer mostrar.

O filme de Padilha parece dar um soco na cara da sociedade brasileira. Não adianta florear, fingir que não existe, pois o problema está aí e, uns mais, outros menos, mas todos de algum modo somos responsáveis por ele. Diagnosticá-lo precisamente é o primeiro passo para resolvê-lo ou pelo menos minimizá-lo.

Não tenho opinião formada sobre o assunto, mas fico pensando se a descriminalização e a regulamentação do comércio das drogas (como fizeram os holandeses) não seria uma possibilidade de acabar com o tráfico. O grande problema deste termina nem sendo a droga, mas as poderosas armas letais que esse mercado obscuro permite cair nas mãos de bandidos perigosos, cruéis e quase incontroláveis, subsidiando solidamente argumentos para a existência de BOPEs e congêneres. A regulamentação desse mercado talvez propiciasse uma fiscalização mais intensa do Estado em relação a tais negócios, maior arrecadação tributária, limitações concretas e objetivas ao uso de entorpecentes e controle mais rigoroso dos efeitos destes na sociedade. É incrível vermos a hipocrisia reinando, sendo a cara de nossa sociedade com "orgulho de ser brasileiro" (e ainda somos pentacampeões de futebol, que maravilha!): assim como os CDs e DVDs piratas do próprio "Tropa de Elite", apesar da proibição legal, pessoas das mais variadas classes sociais adquirem drogas ilícitas com a maior facilidade.

O álcool e o tabaco são drogas lícitas e socialmente aceitas. A quantidade de mortes provocadas pelo álcool, seja de acidentes ou de homicídios, é assustadora nas estatísticas e nem por isso se proíbe o mesmo. As mortes por câncer de pulmão e outras razões associadas ao cigarro são também bastante elevadas numérica e estatisticamente e também não se proíbe a nicotina.

Enfim, não sei se seria uma boa solução, tenho sérias dúvidas a respeito, mas vejo a necessidade de se discutir com seriedade e responsabilidade o tema.

Ficam, portanto, tais angústias e incertezas para a reflexão de vocês.

Um comentário:

Alexandre Costa disse...

Caro Bruno, ainda nâo assisti ao filme de Padilha porque prefiro vê-lo no cinema, mas concordo com tudo o que você diz. A violência aqui é uma farsa, com a classe média protestando e consumindo as drogas que financiam o tráfico.
Acho que os aplausos aos torturadores de pobres sâo deslocados: a plebe gostaria mesmo de aplaudir quem torturasse renans, salgados de oliveiras e outros criminosos ainda mais perniciosos do que fernandinho beira-mar ou abadia.
SExta feira verei no cinema e então farei comentários pertinentes. Uma abraço Alexandre Costa