sábado, 20 de outubro de 2007

Scarface e Tropa de Elite: anti-clichês contra o maniqueísmo do cinema fácil



O filme "Tropa de Elite", por mim já comentado em post anterior, continua dando o que falar. Pelo fato de humanizar os membros da "tropa" (não são simplesmente agentes implacáveis desumanos de um sistema opressor dos pobres e oprimidos, mas sua própria crueldade e desumanização é oriunda de uma complexidade muito maior) e não glamourizar o bandido (este não é uma simples vítima do sistema, mas também se alimenta do mesmo), já acusaram o diretor de fascista e coisas do gênero. Por outro lado, tal crítica não é totalmente inverossímil, considerando os aplausos e a satisfação das platéias com as cenas de tortura e em especial a recente reportagem da Revista Veja, que analisa o filme sob uma ótica de fato neofascista - diz a reportagem da Veja: "o filme mostra que polícia é polícia, bandido é bandido" - e que me parece completamente equivocada, pois o que se poderia dizer então, para ficar somente em um exemplo, da quantidade de policiais corruptos que aparecem no filme?

O fato é que a maioria das pessoas prefere analisar de forma simplista e maniqueísta e parece ter preguiça de pensar e fazer uma reflexão mais profunda. É muito fácil dizer "este é o mocinho" e "este é o bandido", é o bem contra o mal, e esquecer toda a complexidade que envolve tramas como estas. A meu ver, um filme como "Tropa de Elite" é um filme sem mocinhos, mas também não há pessoas completamente desumanas e malvadas; por trás de cada PM, membro do BOPE, traficante, morador de favela ou pequeno burguês da classe média e alta carioca existe um ser humano com todas as contradições que isso encerra. E o filme está longe de ser maniqueísta como a Revista Veja pretende afirmar com sua interpretação neofascista do mesmo. "Tropa de Elite" é profundamente ambíguo, como ambígua e contraditória é a realidade que ele aborda. Para que alguém diga algo realmente importante neste blog sobre a produção de Padilha, transcrevo abaixo artigo do Jorge Coli, intitulado "A Caveira da Elite" que traça uma interessante analogia entre "Tropa de Elite" e "Scarface", cuja versão mais conhecida é a de Brian de Palma, de 1983, com Al Pacino no papel principal:

""Scarface", filme de Brian de Palma (1983), expõe os mecanismos do tráfico internacional de cocaína. Conta a trajetória de um chefão da máfia que começou de baixo e passou por todas as etapas. Indica, em níveis progressivos, as articulações dessa grande rede criminosa.

Brian de Palma retoma, atualizando e dilatando, o outro "Scarface", de 1932, mítico, dirigido por Howard Hawks. Há um paralelismo de situações. Brian de Palma fala da cocaína; Hawks das bebidas alcoólicas, já que sua trama se passa nos tempos da Lei Seca norte-americana.

"Tropa de Elite", dirigido por José Padilha, inscreve-se nessa linhagem. Com, pelo menos, duas diferenças importantes. Primeiro, seu eixo centra-se na polícia, e não nos bandidos. Segundo, o vetor vertical, conduzido por um protagonista, é abandonado. O filme se espraia horizontalmente.

Enfrenta circunstâncias intrincadas no meio policial, graças a diversos personagens e situações. Seu objetivo não é alcançar a esfera dos manda-chuvas maiores, nacionais ou internacionais, nem do lado da lei nem do lado do crime.

Aqui e ali, surge alguma alusão a um oficial superior ou a um deputado.

Do combate violento à corrupção, o filme insinua-se pela vida privada, evitando todo clichê ou simplificação. Ao caracterizar ambientes complementares, festa de gente rica, aula na faculdade, a convicção permanece.

"Tropa de Elite" é como uma polifonia coral. Cada voz tem seu percurso justo, individualizado, mas confere sentido às outras vozes que cantam ao mesmo tempo, sem nunca entrar em uníssono.

Modulação

Esse modo de filmar, expondo vários enfoques, dando humanidade, por vezes contraditória, à trama de relações humanas, tende a diminuir o maniqueísmo. Há, de início, os bons e os maus policiais. Há a classe média, acusada de consumir drogas e, assim, de ser a verdadeira responsável pelo tráfico. Mas o bom soldado se transforma pouco a pouco num animal feroz. Na última cena, ao assassinar o líder dos criminosos, sua arma aponta, ameaçadora, para a câmera, ou seja, para a própria classe média que constitui a platéia. A mensagem moralista ("ao usar drogas vocês, os ricos inconseqüentes, estão matando meninos no morro") dissolve-se na fúria violenta.

Bemol

Uma passagem em "Scarface", de Brian de Palma, diz que, de cada 10, apenas 1 carregamento contrabandeado de drogas é apreendido. Essa proporção pequena estaria prevista na contabilidade dos traficantes. No mundo inteiro, quem quiser consegue facilmente a maconha, o ecstasy, a cocaína que desejar. Sinal de que o combate está perdido de antemão.

Maior

Emana uma lição implícita do "Scarface" de 1983 e do antigo, de 1932, quando são postos lado a lado. A Lei Seca, nos EUA, serviu apenas para que os criminosos se organizassem e se fortalecessem.

Em escala muito maior, a criminalização das drogas, hoje, não faz outra coisa. Em "Tropa de Elite", a voz "off" fala num "sistema" para caracterizar as relações de corrupção inerentes ao funcionamento policial.

As tropas de elite querem sair desse sistema pela honra, pela coragem, pela honestidade.

Elas conseguem apenas cair num outro, muito maior, que as ultrapassa. Um sistema cujas determinantes estão fora da legalidade, mas que tem leis próprias indestrutíveis e impõe uma guerra terrível, crônica, com milhares de vítimas, diretas ou colaterais, e destinada sempre ao fracasso."

Um comentário:

Fernando disse...

Grande Bruno

Concordo com vc com relação à ambiguidade que permeia o filme e a realidade social brasileira. No entanto, só discordo de uma coisa: É bem verdade que não foi intenção do diretor fazer apologia da tortura( basta ver sua entrevista ao Roda Viva, na qual ele nega veementemente essa acusação). Mas se prestarmos atenção no filme, e é nesse ponto que se abre margem para a discussão, é mediante a tortura que o Capitão Nascimento atinge todos os seus objetivos. Não é de se espantar que como noticiou o Diário de Pernambuco de Domingo passado(21/10) que crianças nas escolas utilizam-se da expressão "botar o saco" em brincadeiras de polícia e ladrão. Se, por exemplo, o filme mostrasse apenas uma cena na qual a tortura fosse mostrada como um instrumento cruel e ineficaz, não haveria tanta celeuma em torno dessa dita apologia. No mais, grande abraço!