quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Revista Veja, Che Guevara e os "marxismos"


Nesta manhã, meu amigo Eduardo Rabenhorst, Professor e Diretor da Faculdade de Direito da UFPB publicou em seu blog a seguinte reflexão:

"Como muitos, fiquei indignado com aquela reportagem da Veja, cujo título mais adequado seria Ignore. A revista conseguiu resgatar seu estilo anos 70, quando descaradamente tecia loas a ditadura. A reportagem (será mesmo uma reportagem?) sobre o Che é descaradamente cínica. Usar o testemunho do agente da Cia que matou Guevara a sangue frio para desmistificar a coragem do mesmo é um absurdo. Um herói não é menos herói por perder suas guerras, muito pelo contrário. É bem verdade que como qualquer revolucionário o Che deve ter cometido excessos, mas isso não invalida seu projeto de construção de um mundo mais justo e solidário. No mais, há muita coisa não esclarecida, principalmente o fato do Che ter abandonado o governo cubano para se meter em gerrilhas inviáveis. Contudo, chamar Guevara de assassino sanguinário é demais. As pessoas não conseguem entender o básico: não há nada de comparável entre os crimes cometidos pela barbárie nazista e os crimes praticados em nome do marxismo. Não há nada no pensamento de Marx que justifique tais práticas, já no caso do nazismo está tudo lá (doutrina da superioridade racial, desprezo pelos grupos vulneráveis etc.). Quanto aos liberais, não foram eles que bombardearam Dresden, Leipzig, Hiroshima e Nagazaki? Por isso, o único produto com o nome Veja que entra na minha casa é o desinfetante..."

Concordo integralmente com o que diz. Há muito deixei de ler a Veja, assim como de ouvir os comentários econômicos e políticos de Miriam Leitão. Qualquer veículo de comunicação possui, a meu ver, todo o direito de ter suas próprias posições políticas, ideológicas etc., assim como defendê-las. Entretanto, quando ele toma partido de um lado só (Veja e Leitão são extremistas anti-Lula, anti-PT etc.) e passa a condicionar todo o seu jornalismo a um libelo contra o outro lado, ainda que com falseamento e distorção da realidade em suas reportagens supostamente isentas, a qualidade jornalística cai, e com ela a necessária credibilidade que um meio de comunicação sério deve ter e preservar diante da sociedade. Desde o Caso PC Farias, em que a Revista defendeu a inverossímil versão de que a amante do ex-tesoureiro de Collor o assassinou e depois se suicidou, até as eleições recentes em que se comportou como peça de propaganda eleitoral anti-Lula, Veja decepciona mais e mais.

É preciso que se compreenda que o fato de Guevara e seu idealismo honesto (assim como o próprio Marx) serem utilizados como ícones por oportunistas políticos não justifica distorcer a realidade e tentar apresentar inverossimilhanças construídas com o único propósito de denegrir a sua imagem.

Também não posso deixar de concordar que não se pode igualar marxismo e nazismo. A teoria de Marx, embora eu não seja adepto da mesma, é generosa e otimista, pregando a revolução e a ditadura apenas como meios transitórios de condução a uma sociedade justa e igualitária, sem distinção entre os seres humanos em relação a classe, raça, etnia, nacionalidade etc. As teorias nazi-fascistas, ao contrário, eram excludentes, racistas e intolerantes na sua própria essência.

Contudo, faria uma observação adicional com a qual não sei se meu amigo concorda: embora de matiz teórica profundamente diversa, os resultados concretos da aplicação das idéias marxistas e nazi-fascistas foram muito parecidos. Os nazistas assassinaram 6 milhões de judeus, fora outros grupos sociais discriminados como ciganos, homossexuais e comunistas. Mas em nome da generosa idéia comunista, Stalin assassinou mais de vinte milhões de soviéticos, sendo o maior genocida da História em números absolutos. Mao Tsé-Tung e seus Guardas Vermelhos executaram mais de um milhão de chineses somente durante a famigerada "Revolução Cultural", afora os templos, teatros e monumentos destruídos em nome da eliminação definitiva da burguesia e de suas "quatro velharias" (velhas idéias, velhas culturas, velhos costumes, velhos hábitos). Pol Pot e os Khmers Vermelhos no Camboja, também em nome do marxismo, foram responsáveis diretos pela morte de um quarto da população daquele país entre 1975 e 1979 (o maior genocídio da História em termos percentuais).

Ou seja, nem sempre o fato de que a ideologia seja mais humana e generosa signifique um resultado compatível com a mesma.

Falo isso, caro Eduardo, como democrata e humanista. Para mim, a democracia e os direitos humanos são valores universais, embora esse universalismo deva ser a posteriori, a partir de um debate necessariamente intercultural e tolerante e não, como alguns podem pensar, como uma imposição euro-americana de concepções políticas ocidentais.

Em virtude disso, não compreendo, por exemplo, certas atitudes de muitos dos militantes de direitos humanos, que condenam as suas violações nos países capitalistas e (neo)liberais, mas fazem vista grossa e por vezes até apóiam abertamente tais violações quando efetuadas por regimes comunistas ou socialistas (a exemplo do castrismo em Cuba e de Hugo Chávez na Venezuela, a grande vedete atual de uma parte da esquerda brasileira).

Violações de direitos humanos são sempre condenáveis, ocorram onde ocorrerem e sob qualquer bandeira ideológica que seja. A condenação dessas violações deve ser feita sempre, independentemente do regime político. Um genocídio é absolutamente injustificável, seja contra "inimigos da raça", seja contra "inimigos do povo".

A meu ver, há uma profunda incompatibilidade entre ser humanista e defender Stalin e Mao Tsé-Tung, embora, é claro, Marx e Guevara não possam ser responsabilizados pelo que aqueles fizeram.

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