quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Luciano Huck, Mônica Veloso e o inconsciente coletivo brasileiro

Sou um crítico contumaz do cinismo da sociedade brasileira. Pode parecer incrível, mas tenho a impressão de que a indignação que os brasileiros generalizadamente demonstram contra a violência urbana e a corrupção dos políticos não tem nada a ver com republicanismo, civismo ou defesa da moralidade pública e da seriedade das instituições; é simplesmente uma profunda inveja dos que lá estão mamando e usufruindo das benesses da "república-mãe". Parece que o desejo da maioria dos compatriotas é que as coisas fiquem exatamente como estão, mas com eles no lugar dos Renans e Salgados de Oliveira, "traçando" mulheres como Mônica Veloso e aumentando em progressão geométrica as suas fortunas e tudo de bom que elas propiciam. Poucos parecem preocupados em construir um Estado democrático de direito que trabalhe efetivamente para a sociedade como um todo, apesar disso estar tão freqüentemente presente nos discursos. Obviamente, não possuo dados científicos sobre isso para afirmar se tenho ou não razão, mas me deparei com um interessante artigo de Renato Mezan, Psicanalista e Professor da PUC/SP, intitulado "Prazeres Expressos" (publicado no caderno Mais, da Folha de SP de 14/10/2007), cujo teor transcrevo aqui para reflexão dos leitores deste blog:

"O artigo em que o apresentador Luciano Huck protesta contra a insegurança nas cidades brasileiras [publicado na Folha em 1º/10] desencadeou uma polêmica considerável. Nela, porém, uma pergunta brilha pela ausência: por que um povo conhecido por sua impontualidade dá tanto valor a um relógio? E não se diga que é apenas a "elite" que o cobiça: os ladrões provavelmente o venderam a um receptador, mas nada impede que ele venha a adornar o pulso de um chefão da periferia.

O Rolex foi o primeiro relógio de pulso de precisão, fabricado na Inglaterra por um alemão chamado Wilsdorf; somente depois da Primeira Guerra é que a empresa se transferiu para Genebra. Wilsdorf era um ótimo artesão, e também um gênio da publicidade. Tendo aperfeiçoado um sistema à prova d'água, colocou um aquário na vitrina e ali deixava suas máquinas funcionando; num golpe de audácia, ofereceu uma delas a uma nadadora que iria cruzar o canal da Mancha -e o mecanismo agüentou firme as muitas horas no mar.

Função e imaginário

Desde o início, portanto, a marca ficou associada à excelência, mas igualmente à resistência, à elegância e à aventura. O curioso é que a mesma combinação de realidade e imaginário aderiu ao bisavô do Rolex: o relógio de bolso, inventado no século 18. Bárbara Soalheiro ("Como Fazíamos sem...", Panda Books, 2006), explica que os primeiros a ser fabricados custavam pequenas fortunas: assim, chegar na hora a um compromisso se tornou símbolo de status, já que indicava que o cidadão pontual era rico o suficiente para possuir um "watch".

A autora conta que era comum as pessoas comprarem um em sociedade, reservando um dia da semana para cada proprietário: nos outros, na ponta da corrente não havia nada -mas ninguém precisava saber disso...

Assim, no simples ato de usar um relógio coexistiram desde sempre funcionalidade e imaginário. Os meios de comunicação -pinturas e gravuras, depois romances e jornais- se encarregaram de o transformar num objeto de desejo. Mas o que, exatamente, se deseja nesse desejo?

A palavra "griffe" significa garra: é o leão que deixa na presa morta a marca do seu poder.

Como os poderosos são em pequeno número, usar um objeto de marca prestigiosa é também sugerir que pertencemos ao conjunto seleto dos que "podem" -e mandam. Eis por que, além de servir a fantasias de exibição fálica, a roupa, a caneta, o carro (e o relógio) se tornaram ícones identificatórios, indicando que seu portador faz parte de um grupo valorizado, do qual a maioria está excluída.

Nesse sentido, cumprem a mesma função que as marcas tribais, a circuncisão, os símbolos religiosos e políticos etc.

Ora, aquilo que começa nas altas rodas é rapidamente imitado pelas outras camadas da sociedade. Pense-se no terno de linho branco em voga no início do século passado: pouco importava que fosse leve e confortável. Tornou-se rapidamente símbolo de ócio -quem o usava não se sujava trabalhando-, e era esse o recado que passava quando vestido por um boêmio carioca. Curiosamente, no Brasil, a mensagem "sou importante" não é veiculada pela pontualidade, mas pelo seu oposto. Bárbara Soalheiro explica por quê: como aqui o tempo não era marcado por relógios particulares, mas pelos sinos da igreja, chegar atrasado (à missa ou a um encontro) era sinal de desprezo pelas obrigações -portanto, privilégio senhorial.

Episódio revelador

Se o Rolex está do lado do que a psicanálise chama exibicionismo (termo que não tem caráter pejorativo, apenas designando um dos destinos possíveis da libido), outro "fait-divers" da semana parece ligar-se ao seu par complementar: o voyeurismo. As fotos de Mônica Veloso despida excitaram a imaginação de muitos brasileiros (e talvez a inveja de muitas brasileiras). Mais uma vez, funcionalidade e aura se entrelaçam num episódio revelador.

À primeira vista, o que torna a jornalista desejável são as curvas sedutoras do seu corpo, que inspiram fantasias nas quais se oferece a quem a contempla. Mas inúmeras modelos adornam as páginas das publicações masculinas: por que então o auê em torno dessa?

Talvez haja aqui outro fator: ao nos entregarmos ao deleite de a olhar, colocamo-nos na mesma posição daqueles com quem ela teve relações. Ora, Mônica Veloso certamente teve outros namorados, mas é com o enlameado senador Calheiros que se identifica quem compra a "Playboy" ou acessa o site da revista. E que benefício nos traz essa identificação com Sua Excrescência? A resposta não é difícil: todos gostaríamos de poder exibir impunemente aquela postura arrogante, de poder pisotear impunemente as regras do convívio civilizado e de impor nossa vontade aos outros com a mesma truculência que o representante de Alagoas.

Ao comer com os olhos a mulher que foi dele, usufruímos por um instante dos prazeres que ele desfrutou. Mas apenas vicariamente: para nossa frustração, o superego, a polícia e o olhar reprovador dos outros limitam a realização desses desejos à esfera do devaneio.

Muitas outras questões, é claro, podem ser levantadas a partir de cada um desses episódios. Mas não deixa de ser interessante a perspectiva que eles abrem sobre nosso inconsciente. Ali, não nos basta ser amigos do rei: somos o próprio rei, o herói, o caubói -e nosso cavalo nem precisa falar inglês."

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