domingo, 28 de outubro de 2007

Antikantismo à brasileira: Brasil como uma nação de idiotas pensando serem espertos


Estou realmente numa fase de profunda aversão à cultura do "jeitinho brasileiro". Já sou normalmente avesso a ela, mas há períodos em que fico mais intolerante ainda (logo eu que tanto falo em tolerância e diálogo). Mas, como afirma Paul Grice (citado por Eduardo Rabenhorst em seu blog), para que uma conversa possa ser chamada de diálogo, são necessários pelo menos três pressupostos: igualdade, sinceridade e efetividade do resultado dialógico. Não é possível se dialogar com alguém que se acha de antemão melhor que o outro. É igualmente difícil dialogar com os mentirosos; esses não argumentam, simplesmente mentem. E ainda não dá para dialogar com quem não quer em hipótese alguma efetivar o resultado do diálogo (lembro da fábula do lobo e do cordeiro, de La Fontaine, e as "razões do lobo"). O brasileiro em geral parece disposto a rejeitar de plano todos os pressupostos apontados por Grice. Se acha sempre melhor do que o outro, mente sem qualquer constrangimento e acredita que qualquer conduta é válida (seja ética ou antiética), desde que seja ele o beneficiado (cf. post anterior). Claro que há honrosas exceções (sempre me esforço para tentar ser uma delas, mas às vezes não é fácil), porém, me parece que não passam disso: exceções.

Semana passada, Gilberto Dimenstein fez uma afirmação no mínimo curiosa que demonstra esse estado de coisas: "O Brasil é uma nação de espertos que, juntos, formam uma multidão de idiotas" (http://www.acertodecontas.blog.br/). Concordo integralmente com o sentido da frase, embora inverteria os termos por pura precisão terminológica: trata-se de uma multidão de espertos formando uma nação de idiotas. Vejam se não tenho alguma razão: o brasileiro em geral é o cara que ultrapassa pelo acostamento quando enfrenta um engarrafamento na estrada (claro, ele é esperto e os que respeitam a fila são "otários"); é a mulher que entra na fila preferencial do supermercado (gestantes, idosos, deficientes físicos, mulheres com crianças de colo), mesmo com seu filho tendo ultrapassado os seis anos (claro, ela não vai ser "otária" de enfrentar uma fila enorme com carrinhos cheios); é o político que desvia verbas públicas para fazer caixa dois e enriquecer (claro, ele é esperto e vai aproveitar a "boquinha do poder" para se dar bem); é o juiz ou o deputado que utiliza o carro oficial para levar seus pertences à casa de praia no fim de semana (lógico, ele vai bem ser "otário" de gastar seu subsídio com gasolina e carro próprios, se tem à disposição carro e combustível financiado com os impostos da população). Os exemplos podem ser dados aos montes, de servidores públicos (o cara que "se garante" na estabilidade no emprego para nem aparecer na repartição, recebendo sem trabalhar - trabalhar pra quê? Ele é esperto o suficiente para ganhar seus vencimentos sem precisar fazer isso) a empregados privados (o sujeito que se apropria do que pertence ao patrão por que este é "rico" e ele "pobre"), passando também pelos empresários (o dono de empreiteira que suborna o agente público para vencer a licitação - ele vai bem ser "otário" de perder aquela compra pública superfaturada em 300 ou 400%? ou ainda o empresário que contrata estagiários para servirem à empresa como empregados, vai bem ser "otário" de assinar carteira de trabalho e pagar direitos trabalhistas?).

Fico refletindo. Embora eu não seja um kantiano, o célebre filósofo alemão escreveu na "Fundamentação da Metafísica dos Costumes", algo extremamente relevante do ponto de vista do agir concreto do cidadão civilizado: "Age segundo uma máxima tal que possas, ao mesmo tempo, querer que ela se torne lei universal. Age como se a máxima de tua ação pudesse ser erigida por tua vontade, em lei universal da natureza".

Imaginem vocês se esse conceito kantiano do imperativo categórico teria condições de ser aplicado às ações às quais fiz referência anteriormente (e a um monte de outras). Se aquele agir do brasileiro fundamentado no "jeitinho" se tornasse de fato uma premissa universal, o Brasil estaria ainda muito mais caótico. Mas parece que o antikantismo à brasileira é suficientemente danoso para produzir um enorme e monstruoso estrago. Que o diga a miséria e a violência que imperam no nosso injusto e desigual país.

Se todos os "espertos" brasileiros se esforçam ao máximo para se darem bem a qualquer custo (e danem-se os outros), o resultado é o que está aí: Brasil, nação de idiotas em que todos saem perdendo de alguma maneira. Ou será que o milionário preso em uma mansão ou um prédio de luxo, sem condições de sair às ruas por medo de seqüestro ou de levar um tiro, deixando seus filhos completamente trancafiados para não se exporem aos "perigos das ruas" é feliz dessa forma? A gaiola pode ser de ouro, mas continua a ser gaiola.

Não é à toa que o Brasil é o que é.

Um comentário:

mvpb disse...

Malgrado eu concorde com boa parte do que foi dito, que muitos brasileiros têm o "jeitinho"
para lidar com determinadas situações, não os culpo inteiramente, afinal atire a primeira pedra aquele que nunca ao menos pensou em dar um "jeitinho" para resolver alguma situação. InfeliZmente é uma atitude cultural, tanto que denomina-se "jeitinho brasileiro". Eu poderia sonhar e te diZer que ,um dia, quando o nosso país for um país digno isso não mais acontecerá, mas utopia não é o meu forte,não me entenda como pessimista, mas é que quando um câncer está em um estado muito avançado apesar da esperança ainda
existir, preferimos guardá-la bem no fundo conosco, de forma que se o mesmo não vier a ter cura a decepção seja menor. Enfim,este não vai ser nem o primeiro nem o último artigo que lerei com esta espécie de crítica, e espero que estas críticas virem idéias e de que dessas idéias surjam soluções. Abraços.