quarta-feira, 12 de setembro de 2007

A necessária interculturalidade

Tenho defendido, em debates acadêmicos nos quais tenho tido a oportunidade de participar, uma compreensão intercultural do direito e da vida em sociedade (embora meu trabalho seja mais adstrito ao direito constitucional, minha especialidade), implicando isso em considerar a falibilidade das teorias e concepções culturais nas quais estamos imersos e a incompletude das diversas culturas (ocidente e oriente em suas diversas manifestações), o que denota uma premente necessidade de aceitarmos que nenhuma cultura política, jurídica ou social se afigura completa e que o diálogo intercultural e aberto entre elas é vital. Para mim, isso não significa cair em um relativismo cultural pós-moderno de aceitar qualquer expressão de uma ou outra cultura como válidas, mas, sem imposições absolutas, tentarmos perceber os denominadores comuns que possam culturalmente nos aproximar, principalmente em termos de concepções de democracia e de direitos humanos. Daí minha aproximação metodológica com a hermenêutica diatópica de Raimundo Pannikar e Boaventura de Sousa Santos, assim como com o racionalismo crítico preconizado por Karl Popper (cf. meu livro TEORIA INTERCULTURAL DA CONSTITUIÇÃO, Ed. Livraria do Advogado).

Perceber e respeitar a diversidade sem entrar em um relativismo completo é um dos grandes desafios dos que, como eu, ainda se consideram modernos e acreditam nos ideais humanistas da modernidade sem deixar de ter um olhar crítico sobre esta e suas deficiências e incapacidades. Para dar um exemplo de uma visão cultural diversa das que nos acostumamos, mas bastante razoável e aceitável, transcrevo abaixo o artigo do escritor nigeriano Uzodinma Iweala, intitulado "Buraco Negro" e publicado nos Jornais Le Monde e Folha de São Paulo (Caderno Mais, 09/09/2007). Mostra o referido escrito como nossa visão (ocidental) da África (o "continente perdido") é estereotipada (Hollywood e a mídia em geral tem parte de culpa nisso). Compreender adequadamente é um primeiro passo para a interculturalidade. Espero que este escrito possa suscitar reflexões mais maduras sobre a África e os africanos:

"No outono de 2006, pouco após meu retorno da Nigéria, fui interpelado por uma estudante loira e graciosa cujos olhos azuis pareciam combinar com as contas da pulseira "africana" que usava. "Salve Darfur!", ela gritava atrás de uma mesa recoberta de folhetos exortando os estudantes a "agir já!", a "acabar com o genocídio em Darfur!" [área do Sudão onde a guerra civil matou pelo menos 180 mil pessoas desde 2003].

Minha aversão a esses estudantes que se engajam incondicionalmente nas causas que estão na moda quase me levou a dar meia-volta, mas o grito que ela lançou em seguida me imobilizou. "Quer dizer que você não quer nos ajudar a salvar a África?", vociferou a garota.

Parece que, de algum tempo para cá, oprimido pelo sentimento de culpa pela crise humanitária que provocou no Oriente Médio, o Ocidente vem se voltando para África para ali buscar sua redenção.

Estudantes idealistas, celebridades como Bob Geldof [músico e ativista] e políticos como Tony Blair [ex-primeiro-ministro britânico] se atribuíram como missão levar a luz ao continente negro.

Chegam de avião para passar um período na África ou participar de uma missão de investigação ou, ainda, para adotar uma criança -um pouco como meus amigos e eu, em Nova York, tomamos o metrô para ir adotar um cachorro abandonado no canil municipal.

Geração sexy

É a nova imagem que o Ocidente quer adotar: uma geração sexy e politicamente ativa cujo método preferido para divulgar sua mensagem é publicar anúncios de página inteira em jornais, com celebridades no primeiro plano e pobres deserdados da África ao fundo.

Mas o que talvez ainda seja mais interessante é a linguagem empregada para descrever a África que se pretende salvar.

Por exemplo, a campanha lançada pela organização Save the Children (Salve as Crianças), intitulada "I Am African" (sou africano), apresenta retratos de celebridades ocidentais, em sua maioria brancas, com "marcas tribais" pintadas no rosto, sobre o slogan "sou africano" escrito em letras garrafais. Abaixo, em letras menores, vê-se a frase: "Ajude-nos a frear a hecatombe".

Por mais que sejam bem-intencionadas, essas campanhas propagam o estereótipo de uma África que seria um buraco negro de doença e morte.

Artigos e reportagens não param de falar de dirigentes africanos corruptos, senhores de guerra, conflitos "tribais", crianças exploradas, mulheres maltratadas e vítimas de mutilação genital.

Tempos coloniais

A relação entre a África e o Ocidente não é mais fundamentada em preconceitos abertamente racistas, mas esses artigos lembram os tempos do colonialismo europeu, quando se enviavam missionários à África para nos levar educação, Jesus e a "civilização".

Todo africano, incluindo eu mesmo, não pode deixar de se alegrar com a ajuda que o mundo nos dá, mas isso não nos impede de perguntar a nós mesmos se essa ajuda é realmente sincera ou se ela é dada com a idéia de afirmar sua superioridade cultural.

Cada vez que uma estudante -embora sincera- fala dos moradores de aldeias que dançaram para ela para agradecer sua ajuda, faço uma careta.

Cada vez que um diretor de Hollywood produz um filme sobre a África cujo herói é ocidental, eu faço "não" com a cabeça -porque os africanos, apesar de sermos pessoas muito reais, não fazemos mais que servir de validação da imagem imaginária que o Ocidente tem de si próprio.

E não apenas essas descrições tendem a ignorar o papel às vezes essencial que o Ocidente desempenhou na gênese de muitas situações deploráveis que afligem o continente como elas também ignoram o trabalho incrível que os próprios africanos fizeram e continuam a fazer para resolver esses problemas.

Dois anos atrás eu trabalhei num campo de pessoas deslocadas na Nigéria, sobreviventes de um levante que provocou a morte de mil pessoas e o deslocamento de outras 200 mil.

Fiéis a seu hábito, os órgãos de imprensa ocidentais falaram longamente das violências, mas não do trabalho humanitário realizado pelas autoridades locais e nacionais em favor dos sobreviventes -com muito pouca ajuda internacional.

Funcionários sociais dedicaram seu tempo e, em muitos casos, doaram seus próprios salários para socorrer seus compatriotas. São eles que salvam a África, e, como acontece com muitos outros em todo o continente, seu trabalho não encontra reconhecimento nenhum no exterior.

Em junho o grupo dos oito países mais industrializados reuniu-se na Alemanha com várias celebridades para discutir, entre outros temas, como salvar a África. Espero que antes da próxima cúpula do G8 o mundo tenha finalmente compreendido que a África não quer ser salva.

A África quer que o mundo reconheça que, por meio de parcerias eqüitativas com outros membros da comunidade internacional, ela será capaz de alcançar um crescimento inusitado, por conta própria."

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