sábado, 25 de agosto de 2007

Stanley Kubrick IV: 2001- Uma Odisséia no Espaço


Dando seqüência aos comentários sobre os filmes de Kubrick, hoje desejo tecer considerações sobre essa magnífica obra-prima do cinema, bastante conhecida por sinal, intitulada "2001- Uma Odisséia no Espaço". Para mim, um dos melhores do velho Stanley e uma das mais belas páginas da história da sétima arte.

Muito assistido, mas pouquíssimo compreendido, 2001 é um tipo de filme que desperta emoções contraditórias. Alguns acham extraordinário, outros ininteligível. É uma das marcas de Kubrick levada aqui ao extremo. Mais do que qualquer outro do cineasta norte-americano, esse filme é completamente inconclusivo, exigindo do espectador uma profunda reflexão pessoal. A película mostra uma saga sobre a evolução da humanidade, repleta de imagens significativas e impactantes acerca da nossa pequenez existencial diante de um universo tão assombrosamente infinito e enigmático. Kubrick explora as imagens à exaustão e reduz os diálogos do filme ao estritamente necessário. Há cerca de meia hora de diálogos em um filme de quase duas horas e meia. Talvez corroborando com aquela máxima de que "uma imagem vale mais que mil palavras", o diretor nos deixa intrigados com as próprias conclusões que podemos tirar ao assisti-las.

O filme é de 1968, antes mesmo da chegada do homem à Lua, escrito em parceria por Kubrick e o autor de ficção científica, Arthur Clarke. Inicia por mostrar a vida primitiva dos hominídeos, prováveis ancestrais nossos, não sem antes ter uma bela abertura com o "Assim Falava Zaratustra", de Richard Strauss, que desde então é associada ao filme. Os primatas terminam por ter um contato com um estranho monolito (que é o grande enigma do filme) e suas vidas passam a se transformar: a partir de então, a capacidade intelectiva parece aumentar, com o homem aprendendo a matar animais e comer sua carne, criando alternativas à alimentação vegetal até então preponderante. A rivalidade dos hominídeos entre si também parece surgir, com lutas até a morte para definir liderança. Subitamente somos transpostos para o ano de 2001, quando, na visão dos autores, já estaríamos com estação espacial na Lua e enviando a primeira missão tripulada a Júpiter.

A viagem do Dr. Floyd à Lua mostra as maravilhas do que seria a evolução da tecnologia espacial, tudo ao som do Danúbio Azul do outro Strauss (Johann), que se encaixa com perfeição nas cenas. Os motivos da viagem estão associados à descoberta na Lua de um monolito idêntico ao dos primatas, o que seria para alguns a primeira evidência de vida inteligente fora da Terra. Um ano e meio depois, uma missão tripulada a Júpiter vai tentar desvendar tal mistério, já que o monolito lunar emitia sinais de rádio ao planeta em questão. Entretanto, somente o computador HAL 9000, o mais avançado até então inventado e considerado incapaz de errar, sabia do real motivo da viagem, ignorado até pelos próprios astronautas. O infalível HAL, no entanto, falha e quando David e Frank decidem desligá-lo em razão disso, o computador passa a lutar contra eles, quase como um ser humano, o que propicia inúmeras surpresas e reflexões sobre até que ponto o homem pode realmente "brincar de Deus" ao criar uma máquina que reproduz com aparente perfeição as emoções humanas (a ponto de sentir orgulho de sua infalibilidade) e se um computador teria, sem comprometer sua capacidade operacional, aptidão para dissimular, mentir e omitir, como parece ser o caso.

O final do filme é profundamente psicodélico e enigmático. Após conseguir desligar HAL, David Bowman sai da nave com a pequena cápsula espacial e parece entrar em uma espécie de universo paralelo, uma outra dimensão, com imagens a princípio incompreensíveis, tudo ao som da misteriosa música do compositor húngaro György Ligeti. Para mim, demonstram o ciclo da vida e a nossa profunda incapacidade de lidar com ele quando nos deparamos com nosso próprio eu. O assombro diante de um universo tão gigantesco e incompreensível e a angústia de nos depararmos com nossa finitude existencial e cognitiva em relação a ele, por mais que nos adentremos na ciência e descubramos coisas tão magníficas. O embrião do final pode significar a possibilidade de renascermos, talvez, se budistas e espíritas estiverem certos, reencarnando, ou ainda, vivendo em outra dimensão da existência que não a vida humana na Terra. Bom, são minhas impressões. Os autores deixam isso completamente em aberto.

Uma cena me chama especialmente a atenção: quando os astronautas vão consertar o suposto defeito da nave e que o som desaparece por completo significando o vácuo espacial e, como se sabe, no espaço o vácuo não permite que o som se propague. É incrível a atenção de Kubrick com os pequenos detalhes.

Outra questão de menor importância, mas curiosa: interessante notar como no final da década de 60 do século passado as pessoas imaginavam que no início do século XXI já estaríamos com avanços tecnológicos daquela ordem. Futurologia, decididamente, é algo muito difícil. Embora tenhamos avançado em muitos setores, dentre os quais a própria computação, em termos de tecnologia aeroespacial, pouco progredimos desde então. Quando vejo a crise do apagão aéreo no Brasil, penso que, entre nós, talvez tenhamos até retrocedido.

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