segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Contra a intolerância e os fanatismos de qualquer espécie - parte XIV



"O filósofo anglo-austríaco Karl Popper, por sua vez, a partir de suas reflexões sobre a filosofia da ciência, desenvolve uma filosofia política da liberdade nas sociedades abertas. Popper refere a si próprio com um racionalista, porém, crítico e não cartesiano. Para ele, as teorias científicas, tanto nas ciências naturais, como nas ciências sociais, são essencialmente falíveis, o que dissipa qualquer certeza em relação a verdades científicas absolutas e abre um espaço importante para a permanente crítica. Somente com esta última é possível perceber as falhas das teorias e conseqüentemente substituí-las por outras mais adequadas. Isso é sintetizado por Popper na seguinte passagem:
“o racionalismo é uma atitude de disposição a ouvir argumentos críticos e a aprender da experiência. É fundamentalmente uma atitude de admitir que “eu posso estar errado e vós podeis estar certos, e, por um esforço, poderemos aproximar-nos da verdade””.

Em razão dessa concepção, Popper só concebe o desenvolvimento do saber e da ciência em uma sociedade aberta, consciente de suas próprias imperfeições e capaz de aprender e evoluir com os próprios equívocos. A idéia de sociedade aberta seria um antídoto contra as ilusões de realização de uma sociedade perfeita. Se a sociedade política é guiada por uma teoria holística e infalível, não há a sociedade aberta, mas uma sociedade fechada (o totalitarismo seria um exemplo desta), imune à crítica de suas imperfeições e conseqüentemente incapaz de tirar as lições necessárias dos erros cometidos. Daí a sua severa crítica às filosofias holísticas em geral, como o historicismo, e, em particular, os filósofos Platão, Aristóteles, Hegel e Marx.

Em termos substantivos, Popper reduz as formas de Estado existentes a duas: aqueles nos quais é possível livrar-nos do governo sem derramamento de sangue e aqueles nos quais isso não é possível, geralmente denominando os primeiros de democracia e os segundos de ditadura ou tirania (embora ele ressalve que o nome oficial dado ao Estado pode ser enganoso e cita expressamente a República “Democrática” Alemã como exemplo).

Em torno dessa premissa, a teoria popperiana da democracia nas sociedades abertas é calcada nos seguintes princípios:
a) democracia não é somente governo da maioria (esta pode governar de maneira tirânica), mas aquele regime em que os governantes podem ser dispensados pelos governados sem derramamento de sangue (possibilidade real de mudança pacífica e institucional);
b) regimes políticos são variações das democracias (sociedades abertas) e das tiranias (sociedades fechadas);
c) única mudança legal previamente excluída é aquela que possa abalar profundamente ou abolir a democracia;
d) proteção às minorias como regra geral (há exceções como os violadores contumazes da lei e os ativistas antidemocráticos);
e) destruição da democracia implica destruição dos demais direitos (apesar de possíveis vantagens econômicas e sociais temporárias);
f) apresentação de precioso campo de batalha para a realização de reformas sociais sem violência.

A violência física e/ou psicológica sofrida pelos cidadãos da RDA, aliada à impossibilidade institucional concreta de efetuar mudanças políticas e de governo naquele Estado faz com que a Alemanha Oriental tenha sido um dos mais célebres exemplos de sociedades fechadas, de acordo com o conceito popperiano. Com Arendt, podemos perceber o quanto a incapacidade para pensar levou a sociedade totalitária alemã oriental a se vigiar paranóica e permanentemente em nome do ideal socialista. Diante de um protótipo de sociedade idealizada pela teoria marxista como a sociedade do futuro (e o Estado socialista como etapa de transição para o comunismo, a verdadeira sociedade democrática e sem classes), foi criado um enorme e generalizado pesadelo para os alemães orientais, no qual vítimas e algozes se confundem a ponto de ser difícil a própria responsabilização das pessoas por seus atos, pois sempre havia outros a pensar por elas...

Em tempos de pretensos pensamentos únicos, entre o terror de George Walker Bush e o terrorismo de Osama Bin Laden, entre a pretensa hegemonia capitalista monopolista neoliberal e as alternativas autoritárias maniqueístas, é imprescindível lembrarmos dos alertas de Neumann, Orwell, Arendt e Popper, e das lições de experiências como a da RDA. A liberdade política vista como valor fundamental, embora nem sempre nos conduza ao melhor dos mundos possíveis, garante ao menos uma maior participação de cada cidadão na condução do destino da sociedade e do seu próprio. Por isso que nunca é demais lembrar as lições do velho filósofo anglo-austríaco:

“É errado pensar que acreditar na liberdade conduz sempre à vitória; devemos estar sempre preparados para poder conduzir-nos à derrota. Se escolhermos a liberdade, então devemos estar preparados para perecer com ela. A Polónia lutou pela liberdade como nenhum outro país. A nação checa estava preparada para lutar em 1938: não foi falta de coragem que ditou o seu destino. A Revolução Húngara de 1956 – empreendida por gente jovem que não tinha nada a perder a não ser as suas correntes – triunfou e depois acabou em fracasso.

A luta pela liberdade pode também falhar de outras formas. Pode degenerar em terrorismo, como nas Revoluções Francesa e Russa. Pode levar a uma sujeição extrema. A democracia e a liberdade não garantem uma futura idade de ouro. Não, não escolhemos a liberdade política porque ela nos promete isto ou aquilo. Escolhemo-la porque ela torna possível a única forma em que podemos ser totalmente responsáveis por nós próprios. Se concretizamos ou não as possibilidades que ela encerra depende de todo o tipo de factores – e acima de tudo de nós próprios” (Karl Popper: A Vida é Aprendizagem - Epistemologia Evolutiva e Sociedade Aberta)."

O artigo publicado encerra aqui. Contudo, continuarei tratando do tema neste espaço propiciado pelo blog.

Um comentário:

Amanda Karoline (ASCES) disse...

Olá Bruno
Só informando q continuo fazendo umas visitinhas por aqui, rsrsrs
Bjs