quarta-feira, 11 de julho de 2007

Japoneses, religião e "deuses"

Sempre fui um admirador da cultura do extremo oriente em geral e do Japão em particular. Enquanto não volto aos treinos de kenjutsu, deixo aos leitores um texto intitulado "A vantagem de ter oito milhões de deuses", do jornalista norte-americano Boyé Lafayette, que há mais de 6 décadas visita o país dos samurais praticamente todos os anos e estuda a respectiva cultura, tendo escrito vários livros sobre a mesma (o texto em questão foi publicado no livro "O Código Samurai - Princípios da Administração Japonesa", da Ed. Landscape). Aqui fala um pouco da religiosidade japonesa, principalmente dos fundamentos do xintoísmo, em contraste com a religiosidade militante do ocidente e do oriente médio. É longo, mas vale a pena, pela reflexão que desperta:

"Diz-se que há oito milhões de "deuses" no xintoísmo, a religião nativa do Japão, e eu considero isso uma das sortes com que os japoneses contam.

Com poder e autoridade gerados por tantas divindades - nenhuma delas vista, todas conhecidas e todas poderosas - não surpreende que os japoneses nunca tenham sido religiosos no sentido ocidental do termo, e nunca tenham perdido de vista o aspecto físico da realidade.

O budismo chegou ao Japão por volta do século VI e aos poucos espalhou-se entre o povo. Mas, com uma exceção importante: ele não prega nem pratica a violência no sentido físico ou metafísico.

O cristianismo militante foi introduzido no Japão em 1540 e teve algum sucesso inicial (principalmente porque alguns dos senhores feudais do sudoeste queriam as armas e comercializar com quem tivesse uma), mas alcançou o poder somente sobre uma pequena porcentagem de pessoas e foi, praticamente, erradicado, algumas centenas de anos mais tarde, em um massacre sangrento no castelo Shimabara, perto de Nagasaki.

Uma nova corrente de missionários chegou ao Japão na segunda metade do século XIX, certa de que seria capaz de converter milhões de japoneses ao cristianismo. Eles também tiveram algum sucesso disseminando seus princípios sociais e humanistas, mas não com sua teologia, que é infantil se comparada com o xintoísmo e o budismo, e com seus dogmas sobre mulheres e sexualidade humana, irracionais e desumanos.

Como resultado da resistência do povo japonês ao cristianismo, como grupo nacional nunca sofreu a angústia do pecado original, nunca foi flagelado por padres criminosos, nunca foi atacado por suas crenças religiosas e nunca foi torturado física e psicologicamente para reprimir seus impulsos sexuais.

Umas das vantagens culturais, econômicas e políticas que o Japão tem, hoje em dia, é que não sofre conflitos religiosos. Isso, acrescentado ao resistente legado de sua herança dos samurais, dá ao país uma oportunidade de transmitir ao mundo uma influência positiva que vai além de sua destreza econômica.

As referências ao xintoísmo por ter 8 milhões de deuses e pelo elemento escandaloso de alguns de seus festivais passam uma falsa impressão de sua profundidade e âmbito. Quero afastar imediatamente essa imagem. O xintoísmo é a mais profunda e sábia de todas as religiões. Ela se baseia em parte no fundamento científico da origem da vida, da natureza e da atividade da matéria e antimatéria que só agora começa a ser entendido pelos mais avançados profissionais nos campos da física e física quântica - assunto que a maior parte da população japonesa desconhece.

Se alguém duvidar dessa afirmação, recomendo que leiam The Looking Glass God: Shinto, Yin-Yang, and a Cosmology for Today, escrito pelo jovem filósofo Nahum Stiskin, e publicado como um Autumn Press Book pela Weatherhill em 1971-72. Stiskin escreve que o antigo princípio chinês do yin e yang é uma das polaridades assimétricas, e ela e o monismo dualístico constituem a base do xintoísmo.

O xintoísmo relata a criação do cosmo como produto do vazio, diz como a matéria consiste em partículas de energia que vibra e como essa matéria se comporta no nível atômico e subatômico, explica como a vida evoluiu e como todas as formas de vida são feitas da primordial energia da criação, afirma que toda a matéria, das estrelas e planetas aos seres humanos, está em constante estado de reciclagem.

Para colher alguns desses pensamentos do xintoísmo, Stiskin foi até o Kojiki ou "Relato dos Assuntos Antigos", a crônica mais velha do Japão que traz acontecimentos desde a idade mítica dos deuses da criação ao tempo da imperatriz Suiko (593-628). O Kojiki consiste em três partes. A primeira cobre a criação do cosmo (com a Terra e o Japão!). As outras duas partes cobrem fatos históricos da era Suiko.

A razão do xintoísmo não ser reconhecido pelo que realmente representa é porque os seus fundamentos estão expressos em termos de deuses disso e deuses daquilo, e em outras referências simbólicas, porque os termos científicos para expressar suas bases na física não existiam naquele tempo. O extraordinário conhecimento científico no xintoísmo foi aparentemente colhido em tímidas pesquisas sobre o cosmo.

Entre outras coisas profundas, Kojiki refere-se à coluna espiral, que se apresenta no DNA, no corpo de outras células, no cabelo e nos elos da Terra com o cosmo. O xintoísmo também inclui uma fórmula precisa para os seres humanos manterem a harmonia entre suas metades, a física e a espiritual, que inclui manter a energia do corpo fluindo de forma apropriada.

Essa fórmula consistente em banhos de água fria, dieta apropriada (vejam isso, fãs de Atkins), o uso do sal e a meditação.

Stiskin diz: "O xintoísmo nunca teve um dogma social ou ético com que doutrinou seus seguidores. Ele se apóia apenas na intuição e juízo dos indivíduos e vê a sociedade como um produto da combinação desses tantos indivíduos".

"A ênfase encontra-se na conquista individual do equilíbrio entre a lei natural e a vida pessoal dentro da família e, conseqüentemente, dentro da nação inteira e da comunidade mundial. Uma vez que a mente e a harmonia física se encontram no indivíduo, a harmonia em uma escala social maior deve emergir naturalmente.""

Um comentário:

neide almeida disse...

Kenjutsu - a técnica da espada

um site bem interessante sobre essa técnica é o :

http://www.kenjutsu.com.br/