sexta-feira, 1 de junho de 2007

Stanley Kubrick III: De Olhos Bem Fechados



Como nunca mais falei de cinema, resolvi então continuar comentando os filmes de meu diretor favorito.

"De Olhos Bem Fechados", de 1999, foi o último filme de Kubrick, lançado uma semana antes de sua morte. É inspirado no conto Traumnovelle, de Arthur Schnitzler, traduzido por alguns como "Noites Vienenses". Não vejo esse filme como um dos melhores momentos do grande diretor novaiorquino, mas ainda assim é um filme brilhante. Com Tom Cruise e Nicole Kidman ainda casados (no filme e na vida real) e nos papéis principais, é a estória de um relacionamento conjugal aparentemente ideal que entra em crise diante do que Alice revela ao marido: já casada, tivera um ardente desejo por outro homem a ponto de cogitar até mesmo abandonar marido e filha e ir embora. Bill Harford, o médico interpretado por Cruise, até então seguro e autoconfiante em relação à esposa, fica transtornado com a inesperada revelação e, ao sair para um breve atendimento médico de emergência, resolve prolongar a saída e enveredar pela imprevisível noite novaiorquina em busca de aventuras sexuais, quase como uma insana tentativa de vingança psicossexual. O encontro com um antigo colega da Faculdade de Medicina o conduz a uma surpreendente e ritualizada megaorgia em uma misteriosa mansão e a apuros imprevistos, criando uma atmosfera de grande suspense. As cenas da mansão são bem picantes e um dos pontos altos do filme. Kubrick mais uma vez surpreende ao transformar uma simples crise conjugal numa trama extremamente complexa e cheia de assombrosas sutilezas.

Kidman está mais uma vez linda e maravilhosa, interpretando com extrema competência. Cruise, ao contrário, deixa a desejar em uma interpretação pouco expressiva. Trata-se, a meu ver, de um ator esforçado, mas pouco talentoso e que, pelo visto, aprendeu muito pouco com a ex-esposa, uma atriz de mão cheia. Apesar disso, Cruise não chega a comprometer e o resultado é muito bom.

O sexo é o tema principal do filme. Contudo, está longe de ser uma película pornográfica, embora eivada de erotismo e sensualidade. O filme aborda sem clichês ou discursos politicamente corretos a hipocrisia existente na sociedade quanto aos desejos sexuais, expondo de modo às vezes cruel e sarcástico as mazelas do ser humano diante das diversas "máscaras" sociais que precisa ostentar. Apesar da liberdade sexual ser maior na atualidade, uma série de preconceitos subsistem e as pessoas têm dificuldade de lidar com eles. Questões como a assimetria sexista-machista ("o homem pode, a mulher não") e a diferenciação dos papéis sociais do homem e da mulher se mostram presentes mesmo em uma sociedade tida por avançada e democrática como a novaiorquina. O filme retrata bem isso. É curioso também o uso das máscaras reais no bacanal referido, pois as pessoas (homens e mulheres) precisavam esconder suas identidades para poderem fazer aquilo que de fato desejavam sexualmente.

Apesar de não se equiparar a "2001 - Uma Odisséia no Espaço" ou "Laranja Mecânica", é incrível um diretor conseguir tratar tão bem da questão sexual em um filme, de forma incisiva, erótica e sem tabus, e, ao mesmo tempo, não descambando para a vulgaridade ou a apelação. Sem dúvida, um grand finale para a carreira de um diretor único na história do cinema. Vale a pena. Cinema da melhor qualidade, como todos os filmes de Kubrick.

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