sábado, 23 de junho de 2007

Séries brasileiras

Recentemente, foi adaptada para a TV o "Romance d'a Pedra do Reino", do grande paraibano-pernambucano Ariano Suassuna, em comemoração aos seus 80 anos de vida. Apesar de ser obra literária de grande envergadura, a mini-série foi considerada hermética demais, possuindo uma narrativa sem linearidade, o que dificultou a compreensão da mesma e seria esta a razão do seu fracasso de audiência. Como não assisti a mini-série, reservo-me o direito de não comentá-la agora, deixando isso para uma outra oportunidade. Prefiro aproveitar esse espaço para uma discussão mais geral sobre o papel das séries brasileiras na TV.

A meu ver, as séries brasileiras que abordam temas históricos e literatura de qualidade são muito bem-vindas, pois é uma forma de o brasileiro, que não é em geral tão afeito à leitura, se interessar por temas que lhe dizem respeito e ter a curiosidade atiçada, despertando a reflexão e o debate sobre o que somos e o que queremos ser.

Entretanto, TV é entretenimento e audiência e os diretores muitas vezes são obrigados a sacrificar a arte e a história para alcançarem sucesso em pontuação no ibope televisivo. Veja-se o que aconteceu com a boa série "A Casa das 7 Mulheres", que só terminei de assistir recentemente, pois nas duas vezes que foi exibida, não tive condições de acompanhar capítulo por capítulo.

Achei a série de excelente qualidade, à parte alguns aspectos negativos que me pareceram muito mais uma opção do diretor Jayme Monjardim para alavancar a audiência do que propriamente defeitos de direção. A série aborda de forma quase épica um dos mais sangrentos e heróicos momentos da História do Brasil: a Revolução Farroupilha, no Rio Grande do Sul, que durante dez anos, resistiu ao poder imperial, criando uma República Rio-grandense baseada em um ideário próximo do iluminismo, antecipando as idéias abolicionistas e republicanas no Brasil. Apesar de terem sido levados a um acordo em 1845 que pôs fim à República e reintegrou o Rio Grande do Sul ao Brasil, o Império não conseguiu esmagar o movimento, como fez com outros, e teve que negociar e fazer concessões aos revoltosos.

Foi muito bom, mesmo quando eu ainda não havia assistido a série, ver as pessoas do Brasil inteiro curiosas sobre a Guerra dos Farrapos e os seus personagens principais. Bento Gonçalves, comandante e líder maior dos farroupilhas, é muitíssimo bem interpretado pelo ator gaúcho Werner Schünemann, como um homem corajoso e enérgico, porém razoável e ponderado, e com uma mentalidade extremamente avançada para a época. Os personagens históricos (Garibaldi, Onofre Pires, Rosseti, Canabarro) são em geral bem retratados e algumas cenas de batalha são muito bem feitas. É claro que em muitas passagens a fantasia engole a história, como sói acontecer em produções desse tipo no Brasil ou no exterior. O próprio Monjardim afirma que a série é 40% história e 60% fantasia. Eu diria que ela é histórica no essencial e fantasiosa nos detalhes, o que faz com que o saldo seja bastante positivo.

Todavia, tem os defeitos de praxe: é excessivamente romântica, chegando a um certo pieguismo em algumas cenas. Um pouco maniqueísta também ao tratar muito em termos de bem e mal, como, por exemplo, quando mostra o General Bento Manoel como um grande vilão (até com um suposto pacto com o diabo), quando o papel desse homem no episódio foi mais complexo e envolvia divergências políticas com setores republicanos gaúchos e uma certa defesa da monarquia enquanto forma de governo. Bento Gonçalves, na minha opinião, era politicamente bem mais avançado, mas Bento Manoel, pelo que li, me parece alguém bem mais honrado do que certos políticos da atualidade. Parece ser, mais uma vez, o comprometimento da arte para garantir a audiência. Perfeitamente compreensível, contudo.

Creio que, mesmo com os defeitos apontados, Monjardim fez algo fascinante e de extrema importância para a TV brasileira. Cada diretor, sem fugir ao seu próprio estilo, deve tentar aproximar as temáticas por vezes complexas de peças literárias ou de fatos históricos, da população que assiste TV, despertando interesse e curiosidade nas pessoas. A arte não deve ser inacessível, embora eu reconheça que, a depender do caso, torná-la mais palatável pode desnaturar a sua essência. Tanto quanto possível, entretanto, devemos aproximá-la do grande público.

Quando eu assistir a série "A Pedra do Reino", prometo aos leitores comentá-la aqui.

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