segunda-feira, 18 de junho de 2007

Contra a intolerância e os fanatismos de qualquer espécie - parte XII

"4. Arendt, Popper e o totalitarismo como modelo de sociedade fechada: a lição da experiência alemã oriental

Compreender o fenômeno totalitário é uma tarefa árdua. As teorias de Hannah Arendt e de Karl Popper provavelmente podem ajudar na compreensão do totalitarismo alemão oriental.

A filósofa política alemã Hannah Arendt propõe uma definição de poder fora dos padrões tradicionais. Para ela, o poder é essencialmente faculdade de alcançar acordo quanto à ação comum em contexto de comunicação livre de violência. Difere da maioria das teorias políticas contemporâneas pela não inclusão daquela como elemento constitutivo do poder, em uma crítica às análises funcionalistas, weberianas e marxistas. Como afirmou João Maurício Adeodato, o conceito de legitimidade para Arendt se aferra a um conteúdo ético, chegando a uma espécie de ontologia do social e do fenômeno político.

Por tudo isso, a liberdade não é somente livre-arbítrio, mas liga-se à esfera da ação. Homens e mulheres são livres quando exercem a ação e decidem conjuntamente seu futuro comum. Para o exercício dessa liberdade, o direito humano mais básico seria o “direito a ter direitos”. Seria o antídoto mais eficaz contra o totalitarismo.

A ausência do “direito a ter direitos” passa a ser a ausência de todos eles, e a partir da investigação histórica do fenômeno totalitário, a famosa pensadora cria os conceitos de banalidade do mal e de incapacidade para pensar. Tais conceitos são desenvolvidos a partir das controvérsias do famoso julgamento de Adolf Eichmann, o especialista de Hitler na solução do “problema judeu”. Seria banal o assassinato de milhões de inocentes? Seria irrisório exterminar todos os judeus europeus? Foi apenas uma superficial irresponsabilidade dos nazistas que deflagrou a Segunda Guerra Mundial? A ausência de pensamento indicaria apenas um elevado grau de estupidez no agente?

É de causar profunda perplexidade o “diálogo espantoso” referido por Alexandre Costa entre Himmler e Kersten, no qual o primeiro repreende moralmente o segundo por estar atirando em pobres criaturinhas indefesas (na verdade, Kersten estava caçando), e chama isso de “puro assassinato”. Até poderia ser aceitável a assertiva se viesse de um militante ecologista, mas não quando venha justamente do administrador encarregado da “solução final”, responsável pelo assassinato de milhões de seres humanos inocentes. Ou seja, temos pessoas assustadoramente normais e sensíveis praticando atos de crueldade extrema, o que encerra uma gigantesca contradição.

No caso Eichmann, Arendt explora a analogia entre a prática do mal e a incapacidade para pensar. A capacidade para pensar fornece atribuições relevantes ao agir humano. A primeira delas é a perplexidade, experiência essencialmente socrática que interrompe os nossos julgamentos habituais e nos leva ao reexame dos valores. A segunda é a consciência de si na qual se revela o tipo de identidade que convém ao eu. A terceira é a comunicabilidade, a exigência de um mundo plural no qual coexistam ações e valores múltiplos e igualmente legítimos, formando um “multiverso”.

A ausência de tal capacidade faz com que o regime político totalitário elimine a espontaneidade, gerando, para alcançar esse objetivo, o isolamento destrutivo da possibilidade de uma vida pública e a desolação que impede a vida privada. A viabilização completa do intento totalitário se dá nos campos de concentração, instituição paradigmática que se mostra como laboratório onde se experimenta o “tudo é possível” da convicção totalitária."

Continua...

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