domingo, 20 de maio de 2007

La fiesta no puede parar

Apesar da violência crônica e das graves mazelas sociais presentes em Recife, não se pode negar que a efervescência cultural desta cidade é fantástica. Recife entrou definitivamente para o calendário dos grandes espetáculos culturais que se apresentam no Brasil.

Ontem, tive a grata satisfação de assistir no Teatro da UFPE uma grandiosa apresentação de música e dança espanhola feita pela Companhia António Marquez, de Madrid, uma das mais conceituadas escolas espanholas de dança flamenca e com vários prêmios internacionais. António Marquez, o bailarino principal e que dá nome à Companhia, mostra, aos 44 anos, estar em excelente forma, um verdadeiro maestro da dança.

Apresentaram três peças, divididas em dois atos: "La Fiesta Flamenca", "La Vida Breve" e "Bolero de Ravel". O famoso sapateado espanhol encenado por bailarinas e bailarinos de primeira linha, aliado à música flamenca e seu canto dramático acompanhado dos violões e percussão (tudo feito ao vivo, diga-se de passagem), deram o tom do primeiro ato. O segundo foi dedicado ao sapateado mais clássico com o som pomposo de Maurice Ravel no famoso "Bolero", culminando com o grand finale na parte mais famosa da peça com a longa música de 13 minutos que anestesia a platéia e arranca aplausos calorosos de pé ao seu encerramento.

A Cia. António Marquez está realmente de parabéns pelo belo espetáculo que apresentou ontem. E digo isso como alguém que já viu apresentações desse tipo lá mesmo em Madrid e achei a de ontem superior ao que assisti em terras hispânicas.

Como não estava lotado e eles se apresentam novamente hoje, aos leitores do blog que quiserem conferir, creio que ainda dá tempo. Foram 40 reais muito bem pagos, já que, como Professor, eu pago meia entrada. Mas o nível do espetáculo valeria tranquilamente R$ 80.

Lamentavelmente, duas coisas fizeram com que a noite não fosse perfeita:

1) a desorganização do teatro - os organizadores não avisaram antes de iniciar o espetáculo que ele seria dividido em 2 atos, o que fez com que muita gente pensasse que com uma hora de apresentação esta já estivesse encerrada, quando a melhor parte ainda viria (para não falar nas propagandas de shows que já haviam acontecido, como o de Oswaldo Montenegro, da semana passada - simplesmente risível). O amadorismo visto não combinou com o profissionalismo da Cia. António Marquez.

2) a incrível falta de educação da platéia - infelizmente isso se repete em espetáculos internacionais no Recife. Assisti meses atrás o Ballet de Moscou no mesmo teatro e recordo que logo no início quando as luzes já haviam sido apagadas, uma mulher brigava com um homem pelo lugar e, em meio ao silêncio da platéia, gritou bem alto: "saia do meu lugar, filho da puta!". Ontem, em momentos que a música parava e os bailarinos sapateavam leve, pessoas conversavam alto atrapalhando o espetáculo, para não falar de gritos de "lindo" e "fiu-fiu" para António Marquez e dos celulares tocando. Retrato das nossas elites e classe média que pensam que são chiques e bacanas apenas por que possuem algum dinheiro. Não conseguem se comportar como pessoas educadas nem ao menos em duas horas de espetáculo.

Apesar disso, não conseguiram estragar minha satisfação. Valeu a pena, a apresentação compensou de sobra esses contratempos.

Nenhum comentário: