domingo, 27 de maio de 2007

Contra a intolerância e os fanatismos de qualquer espécie - parte XI


"Não há como, diante de tais informações, não lembrar da fictícia Oceania, do romance 1984, de autoria de George Orwell. Nesta obra, o escritor inglês imagina um cenário político totalitário aterrador.


O mundo estaria dividido em três grandes superestados: Eurásia, Lestásia e Oceania. Em alianças variáveis (os inimigos de véspera tornam-se amigos de ocasião), estes Estados vivem em guerra permanente. O objetivo da guerra, entretanto, não é vencer o inimigo ou consolidar uma causa, mas a manutenção do poder totalitário do grupo governante dominante.

Na Oceania, onde se passa a estória, há um controle praticamente absoluto da vontade individual pelo Estado. As teletelas instaladas em diversos locais e até nas casas das pessoas permitem que o comandante supremo do Partido, o Grande Irmão (Big Brother, do original inglês, que deu origem a famoso programa televisivo de péssimo gosto), vigie os indivíduos e mantenha um sistema político cuja coesão interna depende diretamente da ensandecida bisbilhotagem da vida pública e privada, seja por essas tecnologias, seja pela existência de uma forte Polícia do Pensamento, garantidora da lealdade ao Partido. Até mesmo a construção de um novo idioma totalitário, a Novilíngua, estava sendo efetuada para que quando estivesse completa, não fosse possível a expressão de opiniões contrárias ao Partido.


É nesse contexto que vive Winston Smith, funcionário do Ministério da Verdade da Oceania. De obscuro e indiferente servidor do Estado, Winston Smith passa a pensar de forma diversa em relação à linha do Ingsoc (Partido), principalmente a partir de seu relacionamento amoroso com Julia e pelos incentivos de O’Brien, membro do Partido Interno. A rebelião contra a sociedade política na qual vive custa caro a Smith que sofre extenuantes interrogatórios e terríveis torturas, praticamente morrendo ainda em vida quando adentra o atemorizante Quarto 101.

O diálogo entre o protagonista e O’Brien durante o interrogatório do primeiro é elucidativo:
“- O verdadeiro poder, o poder pelo qual temos de lutar dia e noite, não é o poder sobre as coisas, mas sobre os homens. Como é que um homem afirma o seu poder sobre outro, Winston?
Winston refletiu.
- Fazendo-o sofrer.
- Exatamente. Fazendo-o sofrer. A obediência não basta. A menos que sofra, como podes ter certeza de que ele obedece tua vontade e não a dele? O poder reside em infligir dor e humilhação. O poder está em se despedaçar os cérebros humanos e tornar a juntá-los da forma que se entender. Começas a distinguir que tipo de mundo estamos criando? É exatamente o contrário das estúpidas utopias hedonísticas que os antigos reformadores imaginavam. Um mundo de medo, traição e tormento, um mundo de pisar ou ser pisado, um mundo que se tornará cada vez mais impiedoso, à medida que se refina. O progresso em nosso mundo será o progresso no sentido de maior dor. As velhas civilizações proclamavam-se fundadas no amor ou na justiça. A nossa funda-se no ódio. Em nosso mundo não haverá outras emoções além de medo, fúria, triunfo e autodegradação. Destruiremos tudo mais, tudo. Já estamos liquidando os hábitos de pensamento que sobreviveram de antes da Revolução. Cortamos os laços entre filho e pai, entre homem e homem, entre mulher e homem. Ninguém mais ousa confiar na esposa, no filho ou no amigo. Mas no futuro não haverá esposas nem amigos. As crianças serão tomadas das mães ao nascer, como se tiram os ovos da galinha. O instinto sexual será extirpado. A procriação será uma formalidade anual com a renovação de um talão de racionamento. Aboliremos o orgasmo. Nossos neurologistas estão trabalhando nisso. Não haverá lealdade, exceto lealdade ao Partido. Não haverá amor, exceto amor ao Grande Irmão. Não haverá riso, exceto o riso de vitória sobre o inimigo derrotado. Não haverá nem arte, nem literatura, nem ciência. Não haverá mais distinção entre a beleza e a feiúra. Não haverá curiosidade, nem fruição do processo da vida. Todos os prazeres serão destruídos. Mas sempre... não te esqueças, Winston... sempre haverá a embriaguez do poder, constantemente crescendo e constantemente se tornando mais sutil. Sempre, a todo momento, haverá o gozo da vitória, a sensação de pisar um inimigo inerme. Se queres uma imagem do futuro, pensa numa bota pisando um rosto humano, para sempre”.

Temos aí um Estado totalitário levado às últimas conseqüências. Obviamente, a Oceania de Orwell é ficção e não aconteceu na RDA, na Alemanha nazista ou na URSS. Mas é de assustar a aproximação que muitas das ações e políticas desses Estados tiveram com o paradigma orwelliano. O sofrimento infligido para garantir a dominação, o patrulhamento ideológico, o fomento à desconfiança no seio das próprias famílias, o controle do prazer, do amor e da felicidade das pessoas, o controle e a manipulação do conhecimento e da cultura para fins de manutenção da dominação... tudo isso aconteceu e ainda acontece em toda sociedade política que se pauta pela idéia de um único pensamento correto, de uma verdade absoluta, sem espaço para contraditórios de qualquer espécie, sem humildade para reconhecimento dos próprios erros (infalibilidade), fatores que paulatinamente vão tornando as pessoas incapazes de pensar. Não pense, o Partido pensa por você, deixe o detentor oficial da verdade absoluta pensar por você... Apenas aceite e obedeça."

Nenhum comentário: