quarta-feira, 16 de maio de 2007

Contra a intolerância e os fanatismos de qualquer espécie - parte X

"O caráter profundamente ambíguo das relações entre a população, o partido e o Stasi, é estarrecedor, como se pode perceber. O totalitarismo joga as pessoas em um intenso drama moral com conseqüências bastante problemáticas, como constata Tina Rosenberg:


“Um soldado cumpre ordens e mata um homem que tenta atravessar o Muro de Berlim. Um homem concorda em passar informações para a polícia secreta para que seu pai moribundo seja libertado da prisão. Um espião de alto escalão controla um grupo de agentes infiltrados nos postos mais sensíveis dos governos ocidentais então inimigos. Um líder reprime duramente a dissidência e argumenta que pretendia, com seu ato, evitar uma invasão soviética. Um funcionário da polícia secreta, que durante toda a sua vida foi encarregado de prender dissidentes, começa a passar informações para esses mesmos dissidentes. Qual dessas pessoas é culpada? Como deveriam ser elas punidas? Quem deve ser julgado?”.

É preciso, pois, conhecer melhor o funcionamento do Stasi. Nos Estados totalitários, em geral, a polícia política controla a vida pública das pessoas: se, onde e o que estudam; os lugares onde trabalham e como são promovidos; as oportunidades para obtenção de bens fornecidos pelo Estado. Mas na RDA havia um intenso controle das próprias vidas pessoais dos cidadãos alemães orientais: o Estado os despojava do controle de sua própria saúde, dos seus casamentos e do seu relacionamento com os filhos. É como se suas vidas não lhes pertencessem.

A própria psicologia era utilizada cientificamente pelo Stasi. Segundo Rosenberg, nenhuma outra organização de espionagem fez uso da psicologia de modo tão metódico ou a deturpou tão profundamente para finalidades malévolas. O Stasi colocava a mesma pergunta sobre todos os alemães orientais: “por onde podemos entrar? O que precisa, ama ou teme o camarada? Onde estão suas fragilidades e dependências emocionais?”. A informação assim obtida se transformava em plano para silenciar ou destruir dissidentes ou, mais comumente, para recrutar novos agentes.

Na verdade, o Stasi foi a organização de espionagem mais abrangente da história mundial, e os alemães orientais o povo mais espionado. O Stasi era praticamente um Estado dentro do Estado. O complexo do Stasi na Rua Normannen, distrito de Lichtenberg, consistia em 41 edifícios de concreto pardo. Além dele, o Stasi possuía 1.181 esconderijos, 305 casas de veraneio, 98 instalações esportivas e 18.000 apartamentos para encontros de espiões. Dispunha de um orçamento de quatro bilhões de marcos. Seu quadro de funcionários em tempo integral era em torno de 97.000 pessoas (era o maior empregador da RDA depois do exército). Havia 2.171 pessoas encarregadas de ler correspondências, 1.486 de gravar ligações telefônicas e 8.426 eram responsáveis pelo monitoramento de conversas telefônicas e de programas de rádio. Além disso, havia cerca de 110.000 colaboradores não oficiais (inoffizielle Mitarbeiter) e talvez o décuplo de informantes ocasionais. Em 1995, constatou-se que o número de colaboradores não oficiais era bem maior: pelo menos 174.000 foram identificados, o que equivalia a 2,5% do total da população entre 18 e 60 anos, número bastante elevado para controlar 17 milhões de habitantes e bem maior do que possuía a Gestapo para vigiar cerca de 80 milhões. Havia arquivos sobre seis milhões de pessoas, 39 departamentos separados e até um departamento para espionar outros departamentos e membros do Stasi. O arquivo central, com uma única ficha para cada funcionário, colaborador e objeto de vigilância do Stasi, media mais de um quilômetro e meio de comprimento. Empilhados, todos os arquivos do Stasi atingiriam 200 Km de altura e pesariam 6,2 mil toneladas.

O Stasi ainda mantinha depósitos de lixo sob vigilância, assim como bibliotecas (os nomes dos que retiravam emprestados livros sobre balonismo e equipamento de alpinismo eram os mais visados – pretensos fugitivos para o lado ocidental). Possuía gravadores instalados em confessionários de igrejas católicas e assentos da Ópera de Dresden. Câmeras da organização monitoravam banheiros públicos. Eles fotografavam quaisquer palavras de ordem pichadas nas paredes e anotavam quaisquer boatos ou rumores. Alguns dos dossiês sobre cidadãos da RDA continham centenas de categorias de informação, até mesmo o número, a localização e o motivo das suas tatuagens. O Stasi ainda mantinha um arquivo de cheiros: algumas centenas de vidros contendo pedaços de roupas íntimas usadas de dissidentes para que cães treinados pudessem farejá-los e associá-los ao odor de panfletos oposicionistas encontrados nas calçadas.

O gigantismo do Stasi, do qual emergia sua força, foi paradoxalmente responsável pela sua ruína. Em meio a informações valiosas (até sobre primeiros ministros da República Federal da Alemanha), havia toneladas de informações completamente inúteis. O Stasi sabia em que lugar do apartamento a camarada Gisela guardava a tábua de passar roupa, quantas cervejas diárias consumia o camarada Horst, o preço do lanche de bratwurst, pão centeio e mostarda do camarada Waltraud na lanchonete da estação de trem Friedrichstrasse, bem como quantas vezes por dia o camarada Armin levava o lixo para fora e a cor das meias que estava usando nesses dias."

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