sexta-feira, 4 de maio de 2007

Contra a intolerância e os fanatismos de qualquer espécie - parte IX

"3.3. República Democrática Alemã e a Oceania de Orwell

Em torno da categoria “totalitarismo”, debaterei aqui o aspecto da relação existente na RDA entre a polícia secreta e o partido único, de um lado, com os cidadãos comuns, de outro, relação que, perceber-se-á, é permeada de ambigüidades profundas.


Em um regime político do qual as pessoas tentam voluntariamente sair dele quando têm oportunidade para tal, não adianta a propaganda oficial de que vivem no melhor dos mundos ou mesmo o arbítrio puro e simples dos poderosos com o controle dos meios tradicionais de coerção. É preciso mais. Torna-se necessário construir um regime político autocrático e totalitário que garanta a “democracia socialista”. E a polícia política desempenha um papel fundamental nesse sistema. É o principal instrumento do partido para consolidar seu domínio e é essa a relação entre o SED como partido único e o Stasi (Serviço de Segurança do Estado - Staatssicherheitsdienst) como polícia secreta.

Um pequeno relato sobre a vida de um casal da RDA pode ser o ponto de partida para a compreensão do papel do Stasi como tentáculo do SED. Havia no final dos anos 70 um pequeno grupo de dissidentes alemães orientais, dos quais se destacava o casal Vera e Knud Wollenberg. Quando se conheceram em 1980, ambos estavam com quase 30 anos de idade e resolveram morarem juntos. Eles eram oriundos de famílias comunistas privilegiadas: o pai de Knud era professor de medicina na prestigiada Universidade Humboldt, em Berlin Oriental. Como a mãe de Knud era dinamarquesa, tal fato lhe permitiu ter dupla cidadania e o direito de viajar. Membro de um instituto de ciências econômicas, Knud viajava freqüentemente para a Inglaterra e para os EUA. O pai de Vera era funcionário do Stasi e desde a infância ela nutria profundo ódio pela profissão paterna. Saiu da casa dos pais aos 18 anos e entrou para a militância oposicionista.

Em 1981, o casal participou da fundação do Círculo da Paz em Pankow, Berlin Oriental. Seus membros eram socialistas, mas acreditavam que a RDA traíra o socialismo. Knud, como os demais homens do grupo, usava barbas longas e não se preocupava muito com a aparência. O mesmo ocorria com Vera e as demais mulheres, usavam roupas simples e não se maquiavam. Os pouco mais de trinta membros do Círculo organizavam protestos em prol dos direitos humanos e do meio ambiente, promoviam seminários sobre Chernobyl e invadiam reuniões governamentais reivindicando liberdade de expressão.

Vera era inicialmente uma pessoa tímida, sem habilidade para falar em público. Ela e Knud discutiam as questões em casa e ele é quem falava em público até que gradualmente ela adquiriu confiança para se expressar e tornou-se líder do comitê ecológico. Isso mudou seu relacionamento com Knud, que ficava em casa com os filhos, escrevendo poesia e criando abelhas, enquanto ela participava de comícios e manifestações. Ele acabou se tornando seu ajudante e sempre insistia em acompanhá-la quando ela ia aos seminários ecológicos nas Tchecoslováquia e na Hungria, chegando a despertar inveja nas outras mulheres diante de um marido tão gentil e solidário.

As atividades de Vera e Knud eram um trabalho do tipo que seria normal em um regime democrático, mas na RDA fazer o que faziam era extremamente perigoso e os que arriscavam, arriscavam também seus empregos, sua liberdade e até mesmo sua vida. A própria Vera ficou presa durante um mês em janeiro de 1988, exilando-se posteriormente na Inglaterra. O Stasi estava em toda parte. Agentes infiltrados fomentavam dissidências e defendiam a moderação dos pontos de vista do Círculo. A espionagem e a infiltração do Stasi eram constantemente discutidas e o próprio Knud teria dito que eles não poderiam esquecer do Stasi, embora não devessem perder excessivo tempo com ele.

No dia da queda do Muro, Vera voltou do exílio para Berlin. Entrou logo em seguida para a Câmara do Povo (Volkskammer) – o parlamento alemão oriental, composto em boa parte por antigos dissidentes – e depois da unificação, foi para Bonn como deputada do Partido Verde no Parlamento Federal (Bundestag).

De todas as controvérsias enfrentadas pela Alemanha reunificada, poucas tiveram tanta ênfase como a questão do que se deveria fazer com os arquivos do Stasi. Vera e a maioria dos antigos dissidentes argumentavam que os arquivos deveriam ser abertos para permitir que as vítimas pudessem ler sobre o seu passado. Ela ajudou a redigir a lei aprovada no legislativo alemão e em 1991 teve acesso ao seu próprio arquivo.

Sua pasta estava recheada de relatórios de um informante do Stasi, cujo codinome era Donald. Ali estavam até recibo de pagamento da entrada de uma casa que ela e Knud tinham pensado em comprar, reproduções de trechos de cartas que ela havia escrito da prisão para o filho e relatos sobre viagens secretas que ela fazia quando estava no exterior. Somente uma pessoa poderia saber todas aquelas coisas. Vera percebeu que o informante Donald era na verdade o seu próprio marido.

Descobriu-se que Knud era agente do Stasi desde 1970, mas não se considerava um traidor. Ele afirmou em entrevista à jornalista Tina Rosenberg que influenciava o governo através das informações que passava para eles. Para ele, seu trabalho no Stasi era somente um outro caminho na direção das reformas. As idéias e o modo de vida do Círculo eram exemplo de como o conjunto da sociedade iria mudar. “E como fazer isso virar realidade?”, indagou. “Um caminho é através da dissidência aberta, e o outro através dos canais governamentais. Eu estava dentro e fora ao mesmo tempo”, afirmou Knud."

Continua...

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