sexta-feira, 13 de abril de 2007

Stanley Kubrick II: Barry Lyndon


Seguindo a sugestão do meu primo Fernando Lucchesi, dou continuidade ao debate sobre os filmes de meu diretor predileto, desta vez com outra película pouco conhecida do grande público atual. O filme é Barry Lyndon, produção de Stanley Kubrick, de 1975. Não sei se se deve também pela minha grande admiração por esse período histórico que é o séc. XVIII, mas acho esse filme simplesmente extraordinário. Seguramente o situo entre os dez melhores filmes que já assisti, sem temor de estar sendo injusto. Ganhou 4 oscars: melhor direção de arte, melhor fotografia, melhor figurino e melhor roteiro adaptado. Mas isso nem é o mais importante.

Trata-se de uma adaptação do romance de mesmo nome de autoria do escritor William Makepeace Thackeray. A estória se passa na Europa do séc. XVIII e Barry Lyndon, o protagonista, é um irlandês que, diante de infortúnios, revezes, golpes de sorte e de esperteza, sai do anonimato e da pobreza em que vivia no seu país natal e, em uma saga incomum, se torna, na prática, chefe de um família nobre das mais ricas da Inglaterra. Barry está longe de ser um herói de folhetim. É um homem incrivelmente normal, um pouco estúpido em muitos momentos, bastante esperto em outros, com muita sorte e muito azar em variadas ocasiões, como acontece na vida. Não é bonzinho, nem altruísta, chega a ser bastante egoísta e oportunista, mas está longe de ser um completo mau caráter, pois às vezes é paradoxalmente generoso e leal. Enfim, as aventuras e desventuras desse irlandês que começa duelando contra um capitão inglês pelo amor de uma prima sua, foge da Irlanda, tem seu dinheiro roubado, se alista no exército inglês, deserta, é aprisionado pelo exército prussiano, se torna homem de confiança de um ministro da Prússia, foge desta última, se torna jogador profissional e finalmente se casa com uma nobre inglesa viúva, se tornando parte da família Lyndon. Entretanto, tal relação não é harmônica, principalmente pela não aceitação desse matrimônio por parte do filho de Lady Lyndon, Lord Bullingdon, que termina por se tornar inimigo de Barry.

Além de uma estória extremamente rica, o filme é uma das maiores superproduções de todos os tempos. A suntuosidade da reprodução dos magníficos recintos dos palácios europeus oitocentistas, o belíssimo figurino, utilizando algumas peças originais da época, a preocupação quase obsessiva de Kubrick com os mínimos detalhes dessa produção, fazem com que Barry Lyndon jamais tenha sido igualado até hoje, 32 anos depois de lançado. Só para terem uma idéia, as cenas noturnas à luz de velas, foram gravadas totalmente com a luz natural, por que Kubrick, fotógrafo de longa data, adaptou pessoalmente as lentes das câmeras para que captassem com perfeição e sem artifícios esse cenário. Jamais a Europa do século XVIII foi tão bem retratada em um filme.

O uso da música clássica também é um ponto alto, como é comum nos filmes de Kubrick. Há algumas cenas maravilhosamente deslumbrantes, como a do primeiro encontro amoroso entre Barry e Lady Lyndon ao som do concerto para piano e orquestra de Schubert.

Uma outra curiosidade, a meu ver: o filme não tem a dinâmica de produções como "O Patriota" ou "Gladiador", que apesar de serem filmes de época, seguem o ritmo alucinante e veloz dos nossos dias. Barry Lyndon até nisso é diferente. O ritmo do filme chega a ser propositadamente monótono em algumas partes, retratando a velocidade da vida e das relações sociais daquele tempo. Afinal, a vida passava mais lentamente.

São 3 horas de duração, mas para quem aprecia o cinema como arte, é um dos momentos mais sublimes de sua história, apesar de não ter sido um filme muito popular. Não agradou ao grande público norte-americano e britânico, mas foi apreciado com louvor pelo restante dos europeus. Arte indescritível, só assistindo para conferir. Repito: simplesmente extraordinário, magnífico. Uma obra-prima como nenhuma outra.

Um comentário:

Fernando disse...

Grande Bruno

Ótimo comentário sobre o filme. Não havia percebido o detalhe sobre a lentidão propositada do filme. Realmente faz sentido. É bem verdade que o filme não possui a narrativa vertiginosa dos filmes épicos atuais, mas é uma aula em termos de técnica cinematográfica. Parabéns pela crítica e continue com a sua análise sobre o filmes do grande Kubrick. Grande abraço