segunda-feira, 2 de abril de 2007

Sobel e os pré-julgamentos



Fiquei um tanto intrigado com o fato relatado pela imprensa que o rabino Henry Sobel, um dos mais proeminentes religiosos da comunidade judaica no Brasil, ter sido acusado de furtar gravatas de uma requintada loja em Palm Beach, EUA.

Não quero fazer juízos de valor, nem defender sua inocência ou culpa, mas fomentar uma reflexão sobre a dificuldade que existe no ato de julgar, a ponto da máxima bíblica "não julgueis para não seres julgados" ser tão difundida.

Para quem não conhece, o Rabino Sobel, nascido em Lisboa e criado em Nova York, mora há mais de três décadas no Brasil e se destaca por ser um daqueles religiosos que, mesmo quando não professamos a mesma fé, ainda assim tendemos a admirá-lo. Homem ponderado e aberto ao diálogo, sempre foi junto à comunidade judaica um defensor do ecumenismo e da tolerância. Além de exprimir opiniões sensatas, como a de que israelenses e palestinos devem ter direito ao seu próprio Estado, o rabino foi protagonista de atos de resistência ao regime militar como o ato ecumênico em memória de Wladimir Herzog, assim como responsável, juntamente com o Cardeal católico D. Paulo Evaristo Arns e o Pastor presbiteriano Jaime Wright, pelo levantamento e exposição da tortura no Brasil através do famoso relatório BRASIL NUNCA MAIS, um marco na defesa dos direitos humanos no Brasil.

O que levaria então um homem com um currículo moral desses a cometer um furto tão tolo e desnecessário? Sinceramente não sei. Tenho acompanhado por depoimentos de leitores em alguns jornais e as cartas se posicionam em geral entre a perplexidade e a parcimônia compreensiva em relação ao ato de Sobel. Confesso que sinto a mesma coisa.

É curioso notar que a justificada tolerância para com o rabino não se verifica quando pessoas não famosas são presas acusadas de cometimento de delitos. Quando algumas dessas são expostas na TV, é comum ouvirmos coisas do tipo "olha só, boa coisa não fez para estar sendo preso" ou ainda "lá vem aquele pessoal de direitos humanos pra defender bandido", quando não "tomara que apanhem na prisão ou lá morram".

Os crimes devem ser punidos com todo o rigor, mas não de qualquer forma, atropelando as leis e as garantias de um Estado democrático de direito. A imprensa sensacionalista faz alarde, os neofascistas e oportunistas políticos de plantão seguem com propostas de pura e simples endurecimento contra o crime, ainda que atropelem a democracia e as garantias constitucionais tão arduamente conquistadas. Justamente para evitar tais precipitações é que existem princípios como o contraditório, a ampla defesa, o devido processo legal, a estrita legalidade das penas e outros mais.

A tarefa de julgar é das mais difíceis e precisa ser ponderada diante de todas as nuances que somente um processo justo pode propiciar. Os pré-julgamentos são ainda mais perigosos, pois não passaram por uma análise mais atenta e reflexiva do que efetivamente ocorreu e se há justificativas plausíveis para o ocorrido.

Penso que o delito do Rabino Sobel traz a seguinte reflexão: qualquer pessoa, ainda que com histórico de bom caráter e de bons serviços prestados à sociedade, ainda assim não está livre do cometimento de crimes. Diante disso, devemos ter muito cuidado com os pré-julgamentos (na maioria das vezes precipitados e injustos) independentemente de quem esteja submetido a eles.

Nenhum comentário: