segunda-feira, 9 de abril de 2007

Racismo, mal-entendidos e sectarismos



Recentemente, houve uma entrevista da BBC Brasil com a Ministra Matilde Ribeiro, titular da Secretaria Especial de Política de Promoção da Igualdade Racial. A referida reportagem despertou enorme polêmica pelo fato da Ministra ter dito que achava natural a discriminação dos negros contra brancos. Vejam o teor:
  • "BBC Brasil - E no Brasil tem racismo também de negro contra branco, como nos Estados Unidos?
    Matilde Ribeiro - Eu acho natural que tenha. Mas não é na mesma dimensão que nos Estados Unidos. Não é racismo quando um negro se insurge contra um branco. Racismo é quando uma maioria econômica, política ou numérica coíbe ou veta direitos de outros. A reação de um negro de não querer conviver com um branco, ou não gostar de um branco, eu acho uma reação natural, embora eu não esteja incitando isso. Não acho que seja uma coisa boa. Mas é natural que aconteça, porque quem foi açoitado a vida inteira não tem obrigação de gostar de quem o açoitou."

A Ministra foi acusada de racismo às avessas e de que estaria incitando o ódio dos negros contra os brancos. Até artigos jornalísiticos foram escritos nesse sentido.

Na minha modesta forma de entender, não vejo tal conteúdo na afirmativa da Ministra. Ela faz uma constatação, dizendo inclusive não achar que esse fato seja uma coisa boa. Acredito que ela foi infeliz na última frase (acerca do açoite), mas daí a afirmar o que não está dito nem mesmo implicitamente, me parece uma forma sectária de interpretar as suas afirmações. Parece ter o cunho exclusivo de denegrir a imagem da Ministra, o que não contribui em nada para o importante debate sobre o racismo no Brasil, suas mazelas e as formas de correção destas últimas.

Por outro lado, do mesmo modo como a Ministra parece ter sido vítima de sectarismo dos contrários às políticas de ação afirmativa desenvolvidas atualmente no Brasil, já percebi o sectarismo do outro lado também. Certa vez, na Faculdade de Direito do Recife, houve um debate sobre as cotas raciais na universidade em que após falar um defensor das mesmas, o professor que era contrário a elas foi vaiado e hostilizado de tal forma pelos que estavam na platéia (que diziam serem do "movimento negro") que sequer conseguiu falar e defender sua posição. Isso também aconteceu com o Prof. Demétrio Magnoli em um debate da mesma natureza que terminou se tornando um monólogo pró-cotas, pois o dito docente não conseguiu igualmente defender suas posições, vaiado e hostilizado que foi. Eu mesmo propus certa vez um debate sobre o tema em sala de aula em que o aluno que criticava a idéia das cotas raciais dessa vez foi ouvido, por que, por ironia, era negro.

É preciso debater, dialogar de forma aberta e sem preconceitos. O racismo existe no Brasil e é um problema sério, tanto quanto a desigualdade social e sexual. As formas de sua superação também precisam ser discutidas e ponderadas. Não se pode trabalhar com o raciocínio simplista e maniqueísta de que "se é contra as cotas, logo é racista". Não. Não é um silogismo dessa ordem. Tanto entre os defensores quanto entre os críticos das cotas vejo pessoas bem intencionadas e sem qualquer ranço de racismo. Eu mesmo não tenho uma opinião fechada sobre o assunto, embora seja favorável às ações afirmativas de um modo geral. Não podemos tolher a palavra de quem deseja debater e opinar. Ao fim, tomamos nossas próprias posições, de forma refletida e após o democrático debate de idéias. Faço como Voltaire: "posso não concordar com nenhuma das palavras que diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-las".

Os problemas aludidos demonstram que ainda há um significativo ranço autoritário na sociedade brasileira, independentemente de tendências ideológicas (esquerda-direita/conservadores-progressistas etc.), apesar de vivermos o mais longo período democrático de nossa história. Por isso continuarei com minha série de escritos "contra a intolerância e os fanatismos de qualquer espécie". Aguardem.

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