quarta-feira, 4 de abril de 2007

Contra a intolerância e os fanatismos de qualquer espécie - parte VI



"Em virtude de tais dificuldades, não tardaram a surgir manifestações contrárias ao governo da RDA, como a paralisação de mais de 300.000 operários em 1953, revolta esmagada pelas tropas soviéticas em nome do “internacionalismo proletário”, e as constantes fugas de cidadãos da RDA para o lado ocidental através de Berlin Ocidental, o que ensejou a construção de um muro em 1961, separando as porções ocidental e oriental da cidade e impedindo a livre passagem entre os dois lados (A Barreira de Proteção Antifascista, como o Muro de Berlin era formalmente conhecido na RDA, cercava Berlin Ocidental com 165,7 Km de concreto armado. Cada seção possuía 1,2 m de comprimento, 2,5 m de altura e 15 cm de espessura, com reforço de barras de aço a cada 10 cm. “Na manhã do domingo 13 de agosto de 1961, os berlinenses acordaram para descobrir que o acesso a Berlim Ocidental estava completamente vedado por uma corrente de cinqüenta mil homens armados, homens que só tinham sido informados sobre sua missão algumas horas antes. Eles estavam ali para dar proteção aos operários que colocaram arame farpado ao longo das ruas fronteiriças, construindo depois o muro de concreto, o qual foi reforçado ao longo dos anos. A fronteira que separava as duas Alemanhas era guarnecida de minas, cachorros, arame farpado e, durante um certo tempo, de armas automáticas que disparavam balas dundum ao menor sinal de aproximação" (Tina Rosenberg - Terra Assombrada)). Naquele ano, em média duas mil pessoas deixavam diariamente a RDA, a maioria delas jovens profissionais necessários ao país; três milhões de pessoas – um sexto da população – já havia fugido para o lado ocidental (para se ter uma idéia, em um ano, a Universidade de Leipzig perdeu toda a sua faculdade de direito).


A construção do Muro isolou Berlin Ocidental e permitiu um maior controle do Estado alemão oriental sobre seus cidadãos, apesar dos problemas diplomáticos criados pela modificação unilateral do status político de Berlin. A RDA contou com o apoio dos países do Pacto de Varsóvia e as potências ocidentais, embora protestassem, terminaram por aceitar a nova situação, considerada preferível a uma guerra.


Por mais de dez anos, foi praticamente impossível a livre circulação de pessoas entre as duas Alemanhas e o diálogo entre Bonn (então capital da RFA) e Berlin Oriental bastante difícil. A situação se modifica com a ascensão do governo Willy Brandt na RFA e de Erich Honecker à frente da RDA, no período da denominada Ostpolitik (Literalmente “política do leste”, alusão à nova política de relacionamento com a RDA, inaugurada por Brandt à frente do governo da RFA), patrocinada pelos alemães ocidentais. São celebrados vários tratados e a RDA passa a integrar a ONU em 1973. Também ficou menos problemática a visita de ocidentais ao lado oriental por 30 dias ao ano, reunindo assim famílias que estavam separadas há uma década. Isso propiciou maior estabilidade interna na RDA, embora não tenha chegado a legitimá-la.


A crise de legitimidade intensificou-se nos anos 80. A crescente diferença entre as duas Alemanhas, notadamente em termos econômicos, o aumento da necessidade de repressão política para a manutenção do governo, aliado às novas políticas oriundas do governo Gorbachev na URSS (glasnost e perestroika), fizeram-se sentir de forma surpreendente na RDA. A profunda incapacidade dos líderes alemães orientais de lidar com a crescente insatisfação de sua população permitiu que as pressões políticas internas e externas começassem a funcionar de forma avassaladora, sendo sintomático a abertura das fronteiras húngaras com a Áustria, propiciando uma fuga maciça de cidadãos da RDA para o ocidente.



O golpe de misericórdia na República Democrática Alemã veio em 9 de novembro de 1989. Após a renúncia de Honecker no mês anterior, a desconfiança em relação aos novos governantes que prometiam mudanças ocasionou um anúncio casual e pouco claro de Schabowski, membro do Politburo do Partido Socialista Unificado da Alemanha (SED - Sozialistische Einheitspartei Deutschlands) em Berlin Oriental, de que haveria uma nova lei mais flexível na regulamentação das viagens ao ocidente. Tal anúncio provocou a abertura da passagem da fronteira berlinense na tarde daquela data, ficando as autoridades da RDA paralisadas e sem saber o que fazer. O Muro estava aberto e a ilegítima RDA caía como um castelo de cartas (embora oficialmente só fosse extinta no ano seguinte).


A queda da RDA propiciou a abertura dos seus arquivos secretos e a descoberta para o mundo e para os próprios alemães orientais de como funcionava a máquina estatal daquele país sob o jugo totalitário dos seus governantes. Para uma melhor compreensão do totalitarismo, faz-se necessário ter um referencial teórico adequado, antes de analisar com maiores detalhes o funcionamento do aparato repressivo da RDA. A teoria do totalitarismo elaborada por Franz Neumann serve bem a esse propósito, que será alargada e enriquecida nas próximas partes com a filosofia política de Hannah Arendt e de Karl Popper".


Continua...

Nenhum comentário: