domingo, 1 de abril de 2007

Contra a intolerância e os fanatismos de qualquer espécie - parte V
























"3. O socialismo real na República Democrática Alemã: a aproximação com o paradigma orwelliano

3.1. Ascensão e queda da República Democrática Alemã

A social democracia alemã ascendeu ao poder com a República de Weimar. Isso significou, como vimos, a derrota dos movimentos socialistas de inspiração marxista. Não obstante, não impediu a posterior ascensão do movimento nazista, de extrema direita. Este movimento, insignificante nos anos 20 do século XX, ganhou assustadora força com a crise mundial (Grande Depressão) de 1929. Os nazistas derrotaram a social democracia nas eleições de 1932 e fizeram Adolf Hitler chanceler em 1933, em grande parte devido ao temor generalizado de um advento do comunismo, que era a outra tendência de oposição ao capitalismo liberal. Os fatos posteriores são bem conhecidos: supressão violenta da oposição ao nazismo, militarização da sociedade, política de promoção do anti-semitismo, construção de um regime político totalitário com a substituição dos procedimentos e instituições democráticas por outros de cunho autoritário etc.

O expansionismo caracterizador da política externa nazista implicou na deflagração do segundo conflito bélico de proporções globais, muito mais sangrento e devastador que o primeiro. O resultado imediato da Segunda Guerra foi a rendição incondicional da Alemanha às forças militares aliadas e a partilha do seu território em quatro zonas de influência (norte-americana, britânica, francesa e soviética), além dos julgamentos dos criminosos de guerra pelo famoso Tribunal Militar Internacional de Nuremberg.

A divisão da Alemanha em quatro zonas de influência ocasionou uma posterior formação de dois países em lugar do único existente desde a unificação alemã, sob a liderança da Prússia, no século XIX. Como não houve acordo entre os vencedores da Segunda Guerra, foram criados dois Estados: a República Federal da Alemanha (Bundesrepublik Deutschland) com a junção das áreas norte-americana, britânica e francesa, e a República Democrática Alemã (Deutsche Demokratische Republik), surgida no território ocupado pelos soviéticos.

Considerando a legitimidade no exercício do poder político, evidentemente que não havia em nenhum dos dois Estados as condições prévias necessárias à expressão da liberdade política dos cidadãos. As duas Alemanhas nascem carentes de legitimidade. Porém, a RFA, por influência dos dominadores ocidentais, constrói um modelo político com maior liberdade (embora longe de ser incondicional ou absoluta) e um sistema econômico bem sucedido, principalmente pelos recursos do Plano Marshall, o que propicia a sedimentação gradativa de um Estado legítimo.

O inverso ocorre com a RDA. Esta é uma criação dos soviéticos em sua zona de influência e permanece durante alguns anos um Estado satélite da URSS. Apesar de a RDA ter sido fundada em 1949, as forças armadas soviéticas permaneceram no país até 1955 quando a União Soviética assina um tratado com a RDA, reconhecendo-a como Estado soberano e retira suas tropas do território alemão oriental. Walter Ulbricht, eleito Secretário Geral do Partido Comunista um ano antes, é o governante da RDA de 1954 a 1972, quando assume Erich Honecker, segundo e último chefe de Estado da RDA, governando até 1989, ano da queda do Muro (apesar de formalmente a RDA ter tido antes de Ulbricht, Wilhelm Pieck, e depois de Honecker, Egon Krenz).

A RDA, ao contrário da RFA, não teve um processo de gradativa aceitação e legitimação do seu projeto político pelos seus cidadãos. A ausência de legitimidade foi sendo agravada com o tempo.

Em um primeiro momento, ascenderam ao governo aqueles que haviam combatido o nazismo em nome de uma sociedade socialista, a exemplo do próprio Honecker. Havia muitas dúvidas sobre o melhor caminho a ser seguido, diante da existência das duas superpotências da Guerra Fria, e o modelo da URSS era visto como alternativa para o progresso da humanidade. A RDA procurava seguir esse ideário.

As dificuldades iniciais foram de ordem econômica. A URSS exigiu dos alemães orientais pesadas reparações de guerra, de modo que a situação na RDA quando de sua criação era extremamente precária, diante da desmontagem das fábricas e das ferrovias feita pelos ocupantes soviéticos. Além disso, a região perdera metade da capacidade industrial que possuía em 1936, tendo sido removidas para a URSS dois terços das indústrias químicas e metalúrgicas, bem como um quarto de outras indústrias básicas e de bens de consumo.

Continua...

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