quarta-feira, 25 de abril de 2007

25 de Abril: é chegada a aurora democrática, pá!

"Sei que estás em festa, pá,

Fico contente,

E enquanto estou ausente,

Guarda um cravo para mim.

Eu queria estar na festa, pá,

Com a tua gente,

E colher pessoalmente,

Uma flor do teu jardim." (Chico Buarque: Tanto Mar)

Para os que não conhecem, a estrofe da 1a. versão da canção de Chico Buarque acima transcrita é uma homenagem à Revolução dos Cravos, ocorrida há precisamente 33 anos atrás. A canção "Tanto Mar" foi censurada nos anos 70 pela ditadura militar brasileira que ficara um tanto atordoada com a imagem simpática dos militares portugueses ao lado da população nas ruas, derrubando uma ditadura de mais de 40 anos, o que contrastava com a sisuda imagem dos governantes militares brasileiros.

A Revolução dos Cravos para mim é um desses raros momentos mágicos da história em que a lógica fria da economia e da política de bastidores parece ceder diante da emoção outrora reprimida, mas finalmente libertada, em um arroubo de satisfação por todo um povo a cantar e festejar nas ruas a liberdade conquistada. Assim como na queda do Muro de Berlin, uma longa noite escura de trevas autoritárias caiu como um castelo de cartas, diante da manifestação popular nas ruas a apoiar os revolucionários que tomavam o poder em suas mãos.

Em verdade, o Movimento das Forças Armadas que derrubou a ditadura salazarista em Portugal já estava sendo gestado há pelo menos um ano. Havia uma profunda insatisfação, principalmente na hierarquia militar intermediária, com a continuação das guerras coloniais para imposição da autoridade portuguesa no Ultramar (parece incrível, mas em plena década de 70 do século XX Portugal ainda mantinha à força um império colonial). Aliado à pobreza crônica e ao anacronismo de termos democracias se solidificando na Europa e contrastando com o regime autoritário português, tudo isso serviu para a consolidação, no dia 25 de abril de 1974, desse movimento que, embora tenha sido proveniente das Forças Armadas, teve um incrível respaldo popular, com a população saindo às ruas e apoiando abertamente os soldados revoltosos. Os cravos depositados pelos populares nos fuzis e rifles dos soldados, a desobediência da grande maioria deles aos seus superiores que permaneciam leais ao governo e o reconhecimento do governo que seu poder político havia se dissipado e não possuía mais sustentação, fez com que o MFA fosse vitorioso de maneira praticamente pacífica (foram apenas 4 mortos em todo o território português, assassinados pela odiosa polícia política salazarista, a PIDE, quando disparou contra um grupo de manifestantes que protestava na porta de sua sede em Lisboa).

Embora nem tudo tenha sido "Cravos" nessa revolução, Portugal passa, a partir dela, pelo período democrático mais duradouro de sua longa história. Como conseqüências imediatas da Revolução, temos a extinção da PIDE e da censura, a libertação dos presos políticos, a legalização dos sindicatos livres e dos partidos, o fim das guerras coloniais e do jugo português em Angola, Guiné, Moçambique e Timor Leste. Em um primeiro momento marcadamente socialista, Portugal adota eleições livres para a Assembléia Constituinte e elabora a Constituição de 1976, carta que contém em seu preâmbulo previsão de transição a uma sociedade socialista. Posteriormente, os liberais ganham espaço político e o constitucionalismo português passa a se caracterizar como uma democracia parlamentarista de tipo ocidental, com maior equilíbrio entre as diversas forças políticas. Em 1986, entra para a União Européia, inaugurando uma era de maior prosperidade e de progresso na evolução das instituições democráticas e no combate à pobreza e às mazelas sociais herdadas do salazarismo.

Hoje, Portugal se mostra uma democracia consolidada, com um regime constitucional estável, plenamente integrado à União Européia e com um nível econômico bem superior ao que possuía vinte ou trinta anos atrás, embora, é claro, nem tudo sejam "Cravos". Mas o 25 de abril de 1974 é um dia que entrou para a história, sendo hoje feriado nacional em Portugal e intitulado "dia da liberdade". Raras vezes se viu na história um movimento revolucionário tão belo e pacífico como essa revolução lusitana. Parabéns aos meus amigos portugueses e a todos os democratas que admiram esse dia. Comemoremos com muito bacalhau e vinho, pá!

2 comentários:

Anônimo disse...

Sou uma filha da revolução: nascida em 1976, cresci com valores que os meus pais não conheceram mas que souberam dosear para me formar como pessoa! Hoje, olho para trás e emociono-me quando penso na liberdade que tenho e que posso exercitar! Dou graças por ter nascido quando nasci e por ser mulher no século XXI. Não por que seja mais fácil viver, e é - sei o -, mas por que sou e quero sempre ser um baluarte da LIBERDADE!
Uma portuguesa, ora pois!

Bruno Galindo disse...

O comentário acima postado foi da minha amiga portuguesa Olga Canas, da Universidade de Coimbra, uma das grandes amizades que fiz na terra da Revolução dos Cravos. Acho que ela esqueceu de colocar o nome, mas me enviou e-mail dizendo que havia feito o comentário. É bom por que percebi não ter escrito bobagem, hehehehe.